01 setembro 2015

Nudez Artística



Sempre estive rodeado de gente.
Na minha casa eram eu, meu irmão, um primo sempre.
Meu pai, minha mãe e um tio inválido.
Uma porta na cozinha levava à mais família paterna:
Duas tias, minha avó e uma tia avó que desde que eu nasci já tinha 90 e tantos anos.
E Jô o cachorro, metade dálmata metade não sei o quê.
Minha grande fobia: baratas.
Mas tinha muita gente pra matá-las.

Meu tio morreu.
Minha tia avó depois.
Jô morreu do coração quando brincava no quintal.

Todos fomos pra mesma casa.
Mas meu irmão casou e foi embora.
Uma das tias foi morar com o namorado.
Minha avó  partiu.

"O tempo rodou num instante"

Minha outra tia foi morar com meu irmão.
Meu primo fez família, não veio mais.

Minha mãe suspirou e partiu.

Estamos aqui eu e meu pai.
Ele sozinho na imensa casa embaixo.
Eu na casa menor de cima.

Minha fobia de baratas é a mesma.
Quando acordo de madrugada e vou banheiro
Levo sempre uma lata de veneno.
Ando segurando ela pela casa e quando saio também.

Cabe a mim matar as baratas quando elas aparecerem.
E elas vão aparecer, mais cedo ou mais tarde.

Vou eventualmente na varanda, sozinho, de noite, de madrugada.
Também levo o(s) veneno(s).

Vivo com medo.
Da praga, da solidão.

"Ele só quer um pouco de carinho." _ disse um amigo clínico sobre mim.
Mas eu escutei isso como uma ordem médica.

"Quanto ao futuro."


19 julho 2015

Letal



Sorrateiramente pela madrugada

Chega a mancha da assustadora constatação:
A vida é uma grande surra.
Nossos corpos acordam doloridos e com marcas.

Vergões roxos.
Não há nenhuma canção de ninar que nos salve de sermos atacados durante o sono.

Repentina como um infarto
Instala-se a perturbadora certeza:
O amor é o diabo.
Nossos olhos cheios de morte e miséria.

Retinas retintas.
Corpos sendo arrastados por um inferno azul.

Ensandecido como eu apaixonado
Assenta-se sobre o peito raquítico:
O mundo inteiro, pesado e pétreo.
A solidão é cristalina.
Uma fonte onde empurram nossa cabeça pra baixo.

Afogados em sangue
Pés descalçados para dormir
Como se simplesmente pudessem.

Loucura tropical fatal transmitida por mosquito.
Para morrer dela, basta, como um tolo suado e dilatado, acreditar.

18 janeiro 2015

Ritual


Esse filme eu já vi antes. Essa luz amarelada. Essa multidão. Esse açúcar no fundo do copo.
Já dancei essa música. Essa mão estendida. Essa mancha na camisa.
Essa fumaça, já apaguei.
Já desmascarei essa mentira.

Esse corredor sem fim, já percorri.
Já me perdi nesse labirinto antes.
Já comi a escuridão antes, já mergulhei na poeira.

Já. Já. Já. Também. Já.
Já enlouqueci ontem mesmo.

Já fiz rodeios para dizer o que quero:

Essa apoteose, essa gargalhada, esses fogos de artifício explodindo pra mim, essa onda batendo e esse coral de anjos cantando meu nome e esse céu se abrindo.
Já vivi essa morte antes.

E esse escuro, essa réstia de luz na porta, esse ponto de interrogação, esse soluço.
Essa palavra maldita, esse bendito silêncio, esse eco me dá medo.
Esse pôr do sol, onde eu vi isso antes?

Já dei giros em torno de mim mesmo, já orbitei, não há mais galáxia para fugir.

Já dormi. Essa cama. Já me despedi de todos vocês.

E esse retorno, essa trilha, esse mapa que enfim já desenhei na parede.
Já apaguei  e estou aqui refazendo.

Essa vida.

15 abril 2014

O Jardineiro Infiel.


Tenho certeza que dessa vez vim para cuidar apenas de mim.
Mas trago os resquícios dos amores incondicionais, das anulações e das abnegações.
Suas origens não sei, mas pulsam.

Porém, tenho tudo para ser liberto.
A falta de amar e ser amado, inclusive.

Com a idade, essa sanha voluntariosa em dispensar carinho a alguém veio através de um fulgurante desejo de ter um cachorro.
Nada mais impróprio, pois, como disse, dessa vez vim seguramente preparado a ter distância de animais, essas coisinhas fofinhas e meio bobas (no caso dos cães): tenho medo deles, das suas mordidas, dos seus dentes, das suas unhas, não suporto  xixi nem o cocô de animal pela casa, não concebo a ideia de dar banho ou cortar as unhas desses seres.
Quem quer que tenha me dado a missão de dessa vez vir apenas para me divertir e não cuidar de ninguém (no máximo, com esforço, de mim mesmo) sabe que eu me anularia e viraria o "véi dos gatos" em pouco tempo. Nem precisava eu ser velho, nem ter gatos.
Enfim.

Ganhei uma planta. Na verdade meio que pedi do jardim de uma pousada em Paracuru.
Lembrança de uma hospedagem gentil, de um final de semana lindo.
Helicônia o nome dela, e soube que dava flores lindas e estranhas.

A planta não deixa que eu me doe demais, o que é ótimo.
Se eu fico uns dias sem regar, ela não morre. Ela não parece gostar de mim nem desgostar.

Até que vez ou outra no sol de Fortaleza, ao meio dia (entendeu né?) eu pego uma tesoura e fico lá na varanda, podando as partes secas, cortando as pontinhas, ajeitando, cutucando...cuidando.
Amando. E ela sendo planta, parada e verde.
Me levanto, limpo as mãos na roupa e penso "é assim que é".

Estava tudo bem assim até que - trouxe ela pra dentro de casa uns dias, pois o sol estava difícil até para as plantas - levei-a para o alto da minha escada .
Uma madrugada - como uma mãe alerta à chegada do filho da farra - escuto um barulho de folhas e estalos.
Um dos gatos que meu pai cria - e que é outra história porque o máximo que conseguimos nos relacionar é eu ficar olhando pra eles sem expressão e eles olhando de volta, os olhos sempre arregalados e alertas, os gatos daqui não são blasés - simplesmente destruiu 70% , não, 80%, não, 95 % da minha pobre e amada Helicônia - que nunca floriu.

Eu chorei.
E meu Anjo-Da-Missão deve ter pensado: "Meu Deus, Não Tem Jeito."

Voltei a deixá-la lá fora e vigiar cada passo do gato sádico.
Meu pai disse que ele queria brincar. Sei.
Ela se recuperou, coitada. Não toda. Uns toquinhos quebrados estão lá ainda, secos e estoicos. Outros cresceram frágeis, mas quem faz mesmo a planta são os novos que nunca viram a pata assassina do gato.

Mas toda essa prosa  é porque a Helicônia (com letra maiúscula mesmo), do nada, na surdina, no verão, esses dias, em abril: deu flor.
Reconheci um inchaço, uma coloração vermelha, como uma unha inflamada.
Pensei (só pensei, pra não assustar o bebê, ou a mãe, enfim) "vai nascer uma flor!"
Nasceu uma (a da foto), nasceu outra, que ainda não abriu, e já notei com meu novo olho de feiticeiro que vem mais por aí.

Sou uma pessoa que tem flores na varanda de casa, agora.
Porque ela demorou tanto não sei, talvez porque nenhum ser vivo tenta me agradar de maneira óbvia ou na hora que eu espero. Ou talvez ela não dê a mínima pra mim, o que acontece muito também.

Pois é, não sei me comportar como alguém, cuja planta, floresceu.
Já estou impaciente pensando quanto tempo ela dura. Como vai ser quando murchar e cair.

Porque esse sou eu: sofrendo, amando. Amando coisas, pessoas, plantas, bichos.
Cadê o Anjo-Da-Missão agora?
Não confio muito no bom senso nem nas habilidades dele.
Preciso lhe falar pessoalmente das coisas que me são perigosas.



31 março 2014

Desencanto



Para onde vai toda essa tristeza?
Pra que serve?
Como em tudo na vida, você espera o clímax.
O capítulo da novela acaba, a própria novela um dia termina.
Um livro tem páginas contadas.
Um caminho leva a algum lugar, um rio para o mar.

E a tristeza? É sempre assim, sádica e sem fim?
Chega esfaqueando e vai-se sem lição alguma.

Onde se acumulam as amarguras da vida?
Haverá algum momento, nem que seja minutos antes da morte
Que toda dor e tristeza passarão e dirão:
"Pronto, terminei meu trabalho"?

Ou é tudo em vão?
Dor pela dor, pranto pelo pranto, tristeza por tristeza e vazio por vazio?

Quantas vezes alguém se cansa e perde toda a poesia de viver até que se canse de vez e desista da poesia e da vida?

Espero que não muitas.

19 março 2014

Seio


Não se sente a vida na festa.
Não é no brinde, nem na risada, nem ao se abrir a embalagem do presente.

Senti a vida quando você me deixou.
E você. E depois você.

Vejo as crianças e nelas há o perigo da tragédia:
Na vida e no amor: uns matarão e outros morrerão.
Nós que estamos do lado dos que morrem, é o pior destino.
O mais cruel, desumano.
Só elas sabem que não há um deus.

Aquele afogado, aquela pessoa na linha do trem:
No último minuto ela soube: um pouco mais de amor e a salvação.

Não se sente a vida até que alguém não se importe.
Não se sente a vida até que se morra.

Tantas pessoas no mundo não tem a capacidade de amar.
E você cruza o caminho da pior delas.

Mas você também tem seus monstros.
Mas o que ninguém sabe é que você os alimenta com amor.
E você não sabe que é por isso que eles crescem tão fortes.

E matam você no exato momento que sentem a vida.




18 janeiro 2014

Uma Chuva Que Nunca Chega.




Queria uma poesia tão real
Ao ponto de comê-la, tocá-la, chutá-la para debaixo da cama.

Mas tudo que encanta é tão fugidio.
É fumaça, é miragem.

O que fiz com minha criança?
Desapareci, como as gramas verdejantes de minha infância?

Onde está a poesia do que eu observava pela janela, com olhos tão castanhos?
Olhos de poesia, na chuva, na flor, no chão, no céu.

Em poças de água, refletindo um raro arco íris.

Levantei os olhos dez, vinte, trinta anos depois e nada vi.
Continuo levantando os olhos a cada dia, minuto, segundo.
Esperando ver a poesia, a poesia, a poesia.

Um desespero por poesia.

O garoto desaparece, que nem na música, ou por causa da música.
Da poesia.
Ele some e não aparece um substituto.

Não há: se a poesia acaba, não tem depois.

O que você fez a si mesmo?

Isso tudo é tão triste, tão canção. Não há som de chuva para nós, e sentimos falta disso.

A poesia pra mim agora é a memória de um pé de jambo.
O cheiro daquilo. A fruta eu nunca provei e nunca gostei, como o amor.
Todo dia alguém desaparece na poesia, nas brumas do futuro, nem tanto do passado.

Que poesia você tem consigo?
Você acredita em poesia?
De repente, quero saber disso, de você que me lê.

Tenho curiosidade como o garoto que desapareceu na música e nessa poesia.


16 dezembro 2013

Espólio.

Todo um ano, mais de 300 dias e eu estive:
Voltando pra casa impávido, exangue, extinto, seco, mudo e calado.

Querendo ser malabarista, tudo que consegui  foi ser equilibrista.
E no último minuto, querendo alguma ação, eu derrubo tudo.

Toda a vida, incontáveis ventos, manhãs. Sol e Lua.
E eu estive: amargo, fracassado, risível, ridículo.

Com água nos joelhos, sem direito a mergulho.
Afetos deslizando dos dedos, pingando no chão e como o sangue da medusa, criando seres alados e venenosos que adoçarão outras vidas que não a minha.

O que vem lá?
Todo um futuro e eu:
Não quero mais.


06 novembro 2013

Numa Manhã de Sol.



Saiba.
Haverá um monumento, num futuro próximo.
Uma marca no chão, um leve perfume, uma fumaça
Haverá uma memória de um rosto, uma leve lembrança do som da voz.

Haverá fim, haverá morte, haverá um quarto para arrumar.

Saiba, perderão-se fotos, não mais poesia.
Os livros, doarão, as músicas, canceladas logo após o refrão inicial.
Apenas o vento percorrerá os cômodos da casa, sem nada encontrar.

A profunda mágoa, a dor que leva à morte, e pior de todos os males: o cansaço.
Caminharão de mãos dadas sobre os escombros da pessoa que eles mesmos implodiram.

Não obstante tanta agonia, saiba que será numa manhã de sol.

Não há mais o que se falar sobre tanto sofrimento.

25 outubro 2013

Binóculo.


Nem tenho uma coleção de objetos que contem histórias
Guardados em alguma caixa bonita que costumizei.

Essas coisas fugiram de mim já ao nascer.

Qual o sentido de você amar as pessoas
E elas irem embora de você?
Melhor seria não ter conhecido?
Sim. Não. Sim.

Queria eu ter a vista boa
Para enxergar além dos continentes
Se alguém por aí é tão sozinho
Encolhido num canto de um apartamento
No escuro, chorando.

Já estive assim, de lá via o tráfego na madrugada
Pela janela, pessoas que tinham uma vida.
E eu não me sentia uma delas.

A dor é que passam anos, carros, calendários
E você, independente das acrobacias que faz,

Continua lá: às vezes encolhido dentro de você mesmo.
Esperando desaparecer.

Todos estão segurando suas malas e dando passos decisivos a alguma estação
Trilhos, apitos, acenos, imagens da década de 40.

Queria eu ter as pernas longas o bastante

Para saltar ao passado, do dia em que nasci
Do dia em que saí ao sol, achando que ele seria meu cúmplice, minha testemunha
Nem sol, nem lua, nem um homem sequer na face da terra.

Meu mundo desaba aos poucos:
Às vezes cai toda uma parede.


04 outubro 2013

O Adeus, Antes de Qualquer Outra Coisa.

Um dia, um gatilho
E a gente começa a congelar de dentro pra fora
Os olhos denunciam aos mais sensíveis
Mas só as mãos, quando finalmente desabam ao longo do corpo
É que descaradamente anunciam ao mundo:
Alguém desistiu.

Será possível ainda ver um sorriso?
No rosto último, urgente e franco
Um rosto que desaparecerá em qualquer curva
A qualquer momento.

A palavra fugidia que ficará no ar
Músicas que nunca mais serão cantadas
Lembranças, memórias, voarão para prateleiras
E lá ficarão, pra sempre, perdidas na poeira.

Os sinais todos fechados
Nenhum sinal porém, importa
Ele já se foi, em um minuto estava aqui
E num piscar de olhos não está mais.

O gelo cristalizou as dores
Deixou gestos incompletos, um soluço no ar
Ninguém se despede silenciosamente
Os ouvidos é que estejam talvez surdos

Nem todo mundo diz "adeus" ao se despedir
Às vezes não há abraço, nem beijo.
Só o lugar vazio, a lacuna, a cama desfeita.

Pois o mundo é feito dos sonhadores que ficam, e dos desesperados que vão.



24 agosto 2013

Altar ao Desconhecido



Se houvesse alguém aqui
Seria testemunha de um não-crime.

Se você estivesse aqui, veria como as coisas são na penumbra do abajur

Se você ouvisse minha voz quando acordo rouco
Se você e apenas você estivesse aqui, descobriria meu lado doce e afável
Me assistiria, perceberia que eu mudei de um ano pra cá
Se você chegasse de surpresa, veria minha alegria
Me daria explicações, sobre o cheiro na camisa, o baton no colarinho e outras ilusões.

Se você abrisse a porta, escutaria meu grito de pânico

Veria minha silhueta no pôr do sol
Atravessaria janelas, balançaria o gelo no copo
Seria sufocado de amor, de ciúme, de paz
Seria provocado, me odiaria, ia querer me abandonar
Me esquecer.

Se você me perdoasse, se arrependeria
Se você me magoasse, se você me quisesse despido
Se você me rejeitasse, se você acendesse meu cigarro
Se você afastasse o prato de comida que lhe fiz

Se você bebesse meu vinho, afagasse meu cabelo
Se você experimentasse meu sal, meu açúcar
Se você me desse as costas, se você pudesse

Você teria a pior das mortes, você saberia de tudo um pouco

Você nascia de novo, você amava e odiava
Você cantava, você cegava, você dançava na corda bamba

Você teria calafrios, você se sentiria o dono do mundo
Você definhava, você se arrastava na sarjeta, você dava a volta por cima.

Mas você simplesmente não.
E eu, um círculo.
Eu sou uma sombra projetada na parede, em várias dimensões, vivendo e morrendo as minhas vidas e minhas mortes e as tuas também.


Não vieste, e eu vivo pela tua ausência para sempre.

18 agosto 2013

O Que Se Sabe.

Quando se anda pela casa no escuro, as mãos tateando, encontrando quinas, curvas e pés de mesas.
Se você entende e acredita que a luz nunca voltará.
Nem do sol, nem da companhia de eletricidade.


Desabando pra dentro de si
Você despenca: não há rede de segurança.
Só um abismo, interminável.
Um dia você olhou pra ele e sem perceber, o engoliu.
Como uma pílula preta e oca.

Sapateando, impreciso por entre a vida
Tua esperança, teu sonho, tua infância
Teus pés não servem pra nada
Não há sustentação na tua espinha, ela cedeu ao peso

Você chora, chora e nada acontece
Nenhuma fada, nenhuma estrela
Nem mesmo teus próprios punhos, nem tua coragem
Nem tua força, nem tua valentia, nem teus dedos longos
Tudo desaba, tudo virou o rio do abismo.

É mais profundo que você pensa
Você não pensa sobre isso
Não há o que pensar: você sequer sente coisa alguma.

Você morre rapidamente, todo dia
Aliás, você só morre.
Vai morrendo assim, ao atravessar a rua, ao beber a água, ao escrever o texto, ao dançar a música, ao ouvir quem você ama falar, ao entender o que ele diz, ao quebrar a unha, a recusar ajuda, a receber ajuda, você simplesmente morre o tempo todo.

E encontra o interruptor.
Nada de luz. Não é por esse sistema elétrico, não é pela  estrela de quinta grandeza.

É você:
Acabou.

"És importante para ti porque só tu és importante para ti. "
(Fernando Pessoa)

09 agosto 2013

Frio na Barriga.


( Só conseguimos viver porque não é sempre que nossa ficha cai.
A solidão seria insuportável.

Você trabalha, estuda, dança e dorme.
Pode ter patrão, uma mãe, um irmão, um cachorro, amigos.


Mas existem alguns hiatos de tempo

Quando você constata que é só
E você espanta esse pensamento como se espanta moscas )


Você não está nos planos de ninguém.
Aquela viagem, acontecerá sem você.

Ninguém cozinha pra você e pensando em você naquela noite de chuva.

Não existe o som do "bom dia".
Você é só mais um rosto na multidão.

Querido, mas não amado.



Você carrega suas próprias malas.

Você se culpa e você se absolve.
Você cria o problema e a solução.

Os navios partem e você sente o vento do cais apenas.

Porque você ficou.



Você é simples porque ninguém te complica.
Você ama porque ninguém minou seu sentimento.

Você ainda tem uma canção guardada na garganta, pra oferecer com carinho.
Essa canção está ficando antiga.


Ninguém vê tua beleza espontânea de quando você está em casa, 
desapercebendo do seu proprio encanto.
Ninguém te vê dormir.

Ninguém vela por você.



Quando você suspira de cansaço, 
Quando você suspira recobrando forças, visando o mundo á sua frente:

É só você na história.
Os suspiros se perdem. Não causam efeito em ninguém.

Ninguém notará você fazendo a curva, descendo as escadas, 
acenando, sorrindo ou chorando.
Desaparecendo.


(Então você volta a não saber mais de nada e a fazer planos de pedir uma pizza, e amanhã acordar cedo pra um compromisso qualquer, e então a vida segue, mas lá no fundo, você sente...)

Em quantos você se desdobra para, afinal, ser só você.

28 julho 2013

Rios Antigos.



Quando eu tinha 18 anos chorava com avidez.
Olhando pela janela, recostado, no escuro.
Um dia, até gritei.
Um dia eu era uma criança e no outro, eu sentia tanta dor
Olhei para todos os lados buscando uma explicação.
De onde vinha tanta tristeza?

Pois recebi uma explicação das mais convincentes.
Detalhe por detalhe, dia após dia.
Aquelas razões não capazes de verbo.
Pois bem, eu tinha um enigma.

Sonhei que havia um caminho longo, longo
As pessoas que estavam lá, estavam para ir embora.
O céu que havia lá tinha a sacra tarefa de desabar sobre mim
No mais, só caminho, estrada.

Nunca acordei.
As pessoas são recomendadas a não me fazer surpresas ou sustos, pois posso morrer.
Então toda a dor e sofrimento vem assim: sem sustos.
É uma água que se derrama lentamente sobre minha cabeça e percorre meu corpo
Nem às lágrimas tenho direito: a água gera e a água lava.

Um dia entenderão.
As pessoas
Elas foram embora mas um dia lembrarão de terem cruzado meu caminho.

Anos depois, meu choro é miserável.

Crisálida


Tenho duas coisas a dizer sobre abandono:

Pressinto sua chegada.

Não perdoo quem me abandona.

Pisar em estações, aeroportos.
Não perdoo ter de acenar

E voltar pra o vazio.

Transformo em mágoa para suportar

Enveneno o amor e as boas lembranças
Como um parto onde salvam a mãe e não a criança.

Prefiro o vazio dentro de mim do que nos bancos de praça.

Quantas vezes, em uma vida, somos deixados pra trás?

Que a vida segue, que as pessoas são rios

É fato
Que as pessoas tem asas, e inclusive eu também sou rio e tenho asas. 
Mas há um elemento anti-natural em tal naturalidade.

Não, ser abandonado não é humano, é grotesco.
É uma lança fina perfurando a garganta, é gelo sob os pés.

Quem é deixado só seca, só murcha, só definha e morre.

Quando eu ouvir "estou indo" meus ouvidos se fecharão

Vidros dentro de mim se quebrarão, cairei num abismo branco
As lágrimas por dentro, afogando os pulmões, e a secura por fora:

Nos lábios, no rosto, nas mãos.

Todos são cruéis no abandono, todos egoístas, quem vai e quem fica.
Mas apenas um é assassinado e vira casca.

Não há perdão. Não em mim. Não pode haver.


16 julho 2013

Momento A Sós, Acontece Uma Vez Na Vida Ou Todo Dia.

Acendeu a luz. Queimada.
Trocou a lâmpada, tudo iluminado.
A cozinha, abre a geladeira, microondas.
Cheiro de comida, barulho de prato. Um só.
Come rápido, olhando pela janela.
Tem agenda, é madrugada, é manhã, é dia.
Roupa, sapato, lava as mãos, papéis numa pasta.
Canetas, anota telefones, manda mensagem no celular, separa dinheiro para pagar contas.
Lembra de buscar filho na creche, cachorro no pet, lembra de passar na oficina.
Apaga as luzes, já clareou de vez. pensa em economia.


E de repente, como um caos, como a explosão de uma estrela: pára e senta na cadeira mais próxima.
Desabam os papéis, a pasta , a bolsa e os planos para hoje.
De repente, não sabe de mais nada.
Não quer continuar.
Não deseja.
Não ama.
Não é triste nem alegre.
Veio o hiato, e ele sempre esperou por esse momento.
Quando tudo parece longe e sem sentido.
Tanto que a epifania se anunciou:
Uma vez no supermercado ele olhou ao redor .
Uma vez no bar ele olhou ao redor.
Uma vez no meio de uma gargalhada, ele olhou ao redor.

E agora, é tudo redor.
É o que está escondido ao redor dele que ele teme e quer se entregar: é uma verdade gelatinosa e pulsante aí.
É o interior de uma ostra em algum mar com alta concentração de sal.
É ali que está.
E ele é matéria tão distante de si mesmo: isso é a morte.

Levanta da cadeira, os braços são asas cortadas pelo dono.
Olha ao redor: não é sua casa, não há cozinha nem quarto.
Olha ao redor: ele é viajante, ele agora abandona coisas, pessoas e a si mesmo.
Olha ao redor: (ele faz todo dia coisas em que não acredita: e elas o fazem feliz: ele faz todo dia coisas em que acredita: elas o esvaziam, mas ele não tem opção: acreditou.)

Não sente a dor. Não escuta os passos. Não percebe a brisa. Não ouve a música.
Então se for assim, está tudo bem.
Não há paz, absolutamente, então ele respira aliviado.

Olha ao redor.

03 julho 2013

Entre Mundos


Todos os furacões convergindo para o meu quintal e eu decido entrar no abrigo um segundo antes.
Sempre tive habilidade para lidar com ventos fortes, mas nunca sorte.
Era no segundo que eu baixava a guarda que minha casa ia pelos ares.

Agora estou aqui no porão, só eu, uma luz acesa e os ratos.
Mas todo atrapalhado, porque lá fora a casa da vizinha voa, suas galinhas experimentam voos e até arvores.

Não estou lá, pela primeira vez, e não sei sobreviver.

Procuro ver se alguém está na escuridão do fundo do vão.
Um ladrão ou assassino que acaso tenha se escondido para me atacar no momento certo.
Nada: eu, a luz mais fraca e os ratos.


Penso quando tudo tiver terminado.
Meu jardim, meu pobre jardim. Meus lírios! Será que sobrou algum?
Os furacões são imprevisíveis, costumam levar um e deixar outro.
Meu cachorrinho, não trouxe comigo, deve ter ido para Oz.

Será que justo dessa vez o furacão levou tudo para a Terra Prometida? pro Éden? pra Shangri-La?
Seria muito coerente. E eu achando que estava salvo.
Aposto que ao levantar a tampa do alçapão, estarei eu e as baratas, e meus amigos acenando pra mim da nave distante.

Sentado nas escadarias, nem tenho coragem de descer até o solo úmido de encanamentos vazados.
Sou provisório.
Percorro metade dos caminhos.
Solto tudo que eu tinha na mão: era um regador com água, pros meus lírios.


Ora, lírios! Quem eu penso que sou?
Minha ocupação é lidar com furacões, tornados, ciclones, tempestades.
Mas agora enganei a natureza. Desci pro porão.


O sono vem. Nunca fui de dormir. Nunca fui de escapar.
Levanto e as escadas rangem. Podem ranger à vontade.
Subo, em direção à tampa, me sinto saindo do túmulo.
Rebelde, contrariando a sorte e o destino.

Toco a maçaneta, não deixo tempo para meus brios.
Meus anjos e demônios estão em polvorosa, eu não os escuto.


Abro a porta. Todos os rostos conhecidos passam por mim em redemoinho.
Vejo o meu amor agitando os braços,  sumindo pra longe, gritando.
Meus lírios despedaçados, brancos, na poeira.
Sei de tudo, sei como deve ser, sei o que fazer.
Pertenço a isso.
Vôo.


21 fevereiro 2013

No Caminho do Adeus.


Por falar em amor,
A solidão que vem no vento, desenha em nosso corpo de areia fundas marcas que água nenhuma penetra.

Da pele seca e esturricada brota o sal em lágrima e palavras.

Que essa chuva continue fazendo o trabalho que o vento iniciou.

Castigando, doendo, moldando formas duras e escuras que serão vistas apenas à distância, por estar distante de tudo e todos.

Deixe que esses sentimentos envelheçam e se curvem as costas e as mãos pareçam ainda maiores, encarquilhadas, unhas compridas.

Deixe que os olhos se fechem para não ver que não há ninguém por perto.
Nem longe. Não há ninguém. A vida sucumbiu. 
Só os ventos, carregados de areia e eventualmente folhas secas.

E a rara chuva, coroando o fim, a solidão e encobrindo as tais lágrimas.

Deixe que o grito se perca reverberando em rochas imensas e volte como um pombo correio para a garganta inútil de onde saiu.

Leve o amor para passear na floresta e o deixe lá.
Quando ele se virar e lhe procurar, será noite e os lobos famintos até sorrirão, por milagre.


A morte, a viagem, a tal paz, por falar em amor, será apenas um vai e vem. Vaivém.

Não cantarás. Não sonharás. Não beijarás. Não amarás em silêncio. Amargarás.

Deixem que o túmulo se abra sozinho, uma querência última. A última piedade. A última atitude, um último amor, tarde demais.

Amor, amor amor, só se fala nisso ao redor dele. Deixem que os zumbidos cheguem até lá. A sensualidade das sílabas, tudo tão despretencioso.

Nosso vulto, antes com coração batendo, canais lacrimais funcionando, músculos da face que podem sorrir, cérebro fazendo associações, agora uma sombra, um vácuo.

Obra do vento e do amor.

09 dezembro 2012

Ninguém Está Feliz.



Aquela mulher, andando na multidão, empurrando um carrinho de bebê: escrava do amor de ser mãe.
Aquela mesa de bar, dois, quatro, dez, quinze amigos: dor, amor, loucura, paixão, lágrimas e gritos.

Dentro das casas, janelas iluminadas. Nas camas, corpos definhando, alucinados devorando travesseiros e o enchimento do colchão, zumbis, achando que aquilo é sonho e esperança.
A quilômetros dali, em outra casa, da mesma cena, cospe-se o algodão e as penas. Só matéria inútil.

Dirigem o carro, como ovelhas indo ao matadouro. Os olhos não piscam, os canais lacrimais secos, o amor endurecendo cada músculo, entupindo cada artéria, envelhecendo e matando neurônios.
Não era isso que esperavam do amor.

Quanto da água que escoa nos ralos dos banhos é água e não lágrimas?
A criança corre pra chorar longe dos pais e os pais infelizes, fracassados e sem amor para dar a eles mesmos ou aos filhos, aproveitam toda aquela água e derramam-se em choro.

Aquela mãe do carrinho de bebê, amou tanto, o menino cresceu, amou tanto, o menino diz "tchau mãe" e é certeza que ela ainda pensa no carrinho e gostaria que ele coubesse lá dentro de novo.
E ela chora e morre porque agora é só uma mulher sem carrinho de bebê.

A cada vez que os velhos vão a enterros, não veem a grama do cemitério da mesma maneira.

Aquela criança que era linda se tornou um adolescente feio e um adulto infeliz.
Como numa olimpíada mil pessoas se jogam de janelas. Mortas antes de pular.

Fazendo sexo, com e sem amor, caem de lado com um suor viscoso e frio, a miserável e animalesca alma após o prazer, um pedaço de carne que existe, anda, fala, come, pensa, e não é amado.

Os loucos gritam com as mãos nos ouvidos. As vozes em suas cabeças não são apenas dentro: orbitam desde seus nascimentos esperando a oportunidade de serem ouvidas.

Todos ternos, doces, calçando as meias dos filhos, dando sopa aos bisavós, limpando lágrimas do rosto querido, oferecendo ombros para chorar, gargalhando alto de cerveja, sensualizando com um cigarro entre os dedos e acreditando que serão amados, depois de cinquenta anos ainda é possível ver os traços de criança no rosto de todo mundo.

O amor não é suficiente: todos levantam da cama e, apaixonados, desiludidos ou abnegados, pisam o chão com  pés que apenas caminham e sonham com o dia que o asfalto vire verdejante grama.

28 novembro 2012

Fim Do Ensaio.

http://www.youtube.com/watch?v=YwiQnH6kdPA

Começou e,
Fui colher frutos e mais frutos no caminho.
Que não escolhi.
Cada vez que voltei, vim mais duro e desatencioso.
Pisando alguns frutos com prazer, a alegre e perversa agonia do líquido e polpa esmagados.

Como em um filme, rostos sorrindo e chorando passam por mim
Eu marcho para além deles
Triunfante, mas as chagas nos pés.

"Todas as minhas dores, Deus, logo terão fim."

Alguns abraços, nenhum beijo, esse outono não foi de lágrimas.
A primavera trouxe flores que ignorei
Meus passos são retos e alguns são como em nuvens.

Mas adiante, campos verdes desfocados e vultos de pessoas dançando em silêncio
Minha hipnose me protege, é para lá que vou.

Não estou obstinado em ir, apenas os ventos me empurram para a frente
Cego, mudo, bailarino, me desloco, meu amor minguando no meu peito, minha amargura pulsante.

"Todas as minhas dores, Deus, logo terão fim."

As minhas tentativas, coragens e fugas, tudo passou
Repetições com doçura ou pequenas mortes
Fiz de novo, e mais uma vez, por aqui e por ali
Agora, um horizonte apenas.

Quero, enfim, embalar nos braços algo que seja cheio de ritmo e paixão
A razão pela qual as pessoas definham.
Eu jamais provarei. Meu sangue é cal.
Sou estéril, infértil, desejos nulos.

Mais que isso,a  vida, adiante, valsando nos campos verdejantes à frente
Meu entendimento se foi, vou pela esperança

Terão fim, Deus, todas as minhas dores?



10 outubro 2012

Reflexos de Uma (Mádrugada)


Primeiro cheguei à conclusão que as melhores coisas do mundo são também as piores: as pessoas.

Mas e
 se todo mundo olhasse ao redor e percebesse que só pode perder o que tem ?
Essas coisas podem ser compradas novamente?
E essas pessoas?


Às vezes parece estar tudo tão errado que penso que a vida mesmo não é essa: que essa desastrosa experiência é só um ensaio sem equipamentos adequados ou mesmo uma simulação de emergência para uma próxima vez.

Nem poeta, nem sensível, nem devoto, nem sonhador, nem amargo, nem resignado, nem rebelde, nem sublime: infeliz.

Uma das piores maldições adquiridas foi o fato de eu simplesmente - ser forte. A força aparentemente abre precedentes para mais sofrimento.

A gente só sabe o que é amor depois de alguns minutos sem luz, sem ar, sem calor, sem liberdade, sem música e sem o próprio amor.


Que todos os nossos milhões de pensamentos-por-segundo que para nós  são importantíssimas catarses e iluminações, são, ao final, apenas angústias que não interessam a ninguém senão  a nós mesmos.

Outra coisa importante que a (mádrugada - embora nem todas sejam más) me trouxe foi que quando pensamos se algo vale a pena é porque um dia vamos descobrir que não.

Que entender as coisas é um insight solitário e mortal e que nossa estrutura óssea diminui a cada descoberta.

Que as piores lágrimas são as que caem acima de uma boca que sorri.

Entendi que pode se sobreviver a várias madrugadas sem dormir, mas que depois de certas (mádrugadas), ou a gente recua e se esconde no silêncio, ou morre.

E finalmente, a (mádrugada) não acaba quando a manhã chega, portanto, ela vence sempre.

Dormir nem sempre é possível, muito menos eficiente: a crua verdade das coisas alcança os sonhos, ou estará lá  ao acordar.

Os braços do cotidiano é que momentaneamente nos abrigam e nos afastam para longe do monstro mau (nem todos os monstros são maus). 

Tudo termina num suspiro de resignação (palavra repetida nesse texto - por um bom motivo):  a paciência, o sexo, a dor, a vida e a poesia.

16 setembro 2012

Tristitia.



Sou triste, triste
A dor adquirida, tão minha
Filho indesejado.

O arrependimento de ter parido essa dor aí pelo mundo
Não respeita cercas.

Os cubículos que moramos
Se agigantam como galáxias
Só para nos dar uma amostra da solidão conhecida apenas pelos mistérios.

Sou triste como a mulher de Ló
Estátua eternamente olhando para trás.


Esperando a esperança num canto qualquer da casa:
No caminho entre a sala e o quarto.
O pranto explode como o vômito que não seguramos:
Não respeita cercas.

Quando criança, ouvíamos apitos, estalos, sons místicos
Distração pura para os descalços no caminho
Viramos adultos quando finalmente olhamos para os nossos pés e percebemos que eles sangram?


Sou triste do azul mais puro do céu, aquele do fim da tarde.
Uma tristeza que se derrama todo dia
Que se arrasta, deixando um rastro luminoso e sonoramente penoso.

Minha tristeza não respeita nenhuma cerca que todo dia prego.
Como a mãe que esconde a aberração que pariu.


Não valeu a pena o minuto radiante que amei alguém
Sofro até hoje as consequencias dessa radiação
Quando meu cabelo cai ou fico cego, lembro que foi
Porque, um dia, por um segundo, eu amei loucamente

E a tristeza, que não é apenas uma palavra, traduzível em vários idiomas
É liberta de toda e qualquer alegria.

Se emancipou.
Se fez condição.
E algoz.

12 setembro 2012

Emerald City


Ela um dia escapou das mãos:
Correu feito um rio
Enganou correntezas dela mesma
Passou através das árvores

Desapareceu no verde.

Verde das esmeraldas da cidade de esmeraldas.
Ela tinha que estar lá.

Chegou, construiu uma casa e mobiliou.


Nós, espantalhos, espantados
Aqui na outra cidade, feita de tudo, menos de esmeraldas,
Perguntávamos: Onde anda Dorothy?
Sucumbiu ao sofrimento?

Voou na ventania?

Nós, bruxas de leste a oeste

Suportando pesos de casas e furacões
Ignoramos onde a menina anda.

Mas alguém deve saber que:
A menina está dançando com sapatos de esmeralda.
Dançando o amor que ela nunca sonhou
Dizendo como louca: não há lugar como nosso lar!

Ela diz isso porque mora na casa na cidade das esmeraldas.

Que sonho é esse?

Me leva pra lá.

Nem tenho coração, nem coragem.
A estrada de tijolos amarelos está em obras.

Sempre fui eu a sentir dores.

Morei em casas de ilusão de má qualidade.

Olha, não (me) esquece:
Me manda cartas verdes, brilhantes,

Contando como é a noite
Na cidade das esmeraldas.

Tua nova casa.




Para Carla Dolores, a pedido.

23 agosto 2012

Silenciando



Aguardo ansiosamente a hora do choro final

Aquele quando você sabe que acabou
As lanternas sinalizando os barcos
O cheiro rançoso de alívio do amanhecer.

Tão cansado de pregar estacas
No peito dos vampiros, que nunca morrem
Métodos e mais métodos que enfim, não funcionam.

Esperar aquele trem que todos disseram quebrado
Em alguma estação longínqua, polinésia.

Falar e falar sobre lírios, achando-os obscuros mesmo na brancura
A troco de nada, falar deles
Eles não existem.

Bater palmas de satisfação
Mal o movimento das mãos eu tenho
Velhice, entrevamento, desgosto
Pra quê o esforço?

Saber das coisas novas
Aguardo com ânsia de sangue
O momento em que todas elas se mostrarão falhas e inúteis

Cansado de cantar vitória
Lendário, mitológico, trovador ingênuo
Como alguém da Prússia ou da Pérsia
Ou de qualquer lugar que mudou de nome

Se fossem facilmente destacáveis
Retiraria sem dó esses lábios postiços
Engenhosidade de fina e triste ironia
Mas até na extirpação eles causariam dor

Cansado de estar disposto a sofrer.
Cansado dessas migalhas felizes que vem e vão
Como algas mal cheirosas e de aspecto desagradável na maré
Se enroscando em nossos pés como um presente da natureza
E eu disfarçando o asco e agradecendo a gentileza.

Adeus, gentileza
Não gosto, odeio, abomino e desprezo tuas migalhas
Cuspo nesse prato imundo que me deste de comer
Pois saiba que há um segredo:
Passei fome até hoje.

19 julho 2012

Esperança de Vingança


Um leão doente
Tiraram a carne de perto e não tenho forças para reagir
Eu poderia derrubar o mundo com meu grito
Mas souberam como atingir minha voz.

Tiraram a vasilha com comida

Que passava entre as grades todo dia
E eu com mãos cegas recolhia até meu catre
Onde sacro e reverente eu devorava tudo


Tiraram minha ducha diária
Ao sol, no rio, meus pés nas pedras
Agora nada de água
Tudo muito seco, para eu quebrar mais rápido


Tirei de mim mesmo portanto
As dolorosas lembranças
Sem substituições, apenas amnésia
Como a pessoa sem passado que acorda de um coma


Ai, agonia maldita
Bato o pé no chão de revolta
Mais uma parte que se quebra
O Grande Dia quando será?


Poderei cuspir pra cima
E nas mãos que me retiram as coisas.


18 julho 2012

Volvendo.

Imagina só o tamanho do absurdo.
Fui muito longe colher frutos.
Ficou escuro na volta e me perdi.

Esse caminho que eu conheço tão bem
Pois já me perdi nele tantas vezes
É tão o mesmo , mas eu sou outro.

Minha nova memória falha
Minhas mágoas novinhas em folha
Não tem nenhum registro 
Nada, só o papel branco.

Fui pego de surpresa e apenas ri.
Como Sara, da Bíblia:
Imagino o anjo dizendo "vais ter um filho!"
Ela, com noventa e tantos anos
Riu.

Milagres passam direto
Flechas invisíveis
Portanto, nenhum amor do meu ventre renascerá
Anjos e demônios, me esqueçam.

Quando sinto dor, tomo analgésico
O médico passou, mas eu tomaria mesmo que ele proibisse.
Pois quando me perco no meio da plantação e a luz acende e estou diante de você:
Cheirando a passado, com os olhos de quem conquista sem saber, e com voz de (minha) morte
Eu rio, tomo remédio que só eu sei, fabricação própria, e procuro o interruptor que deve haver em alguma parede.

No escuro eu enxergo tudo.

22 abril 2012

(Vou chamar esse texto de "Foi Num Piscar de Dedos" , porque os olhos estão inertes)

Retiro dez das onze palavras que eu disse
Sobre amor, sobre carinho e sobre paz

Retiro, hoje, autenticado em cartório
Os olhares, os toques e O Sorriso
A ternura nos olhos e o aviso de cuidado.

O fato de eu agora gostar de cachorros
Significa e sinaliza para algo profundo e polposo
Mudança de mão, o semáforo está azul - não sei dirigir.

Só sei que amo de outra forma agora
Ou, como diria Adélia, nem sei mais o que amo
Ou, como diria Drummond, nem amo mais.

01 abril 2012

As Pérolas



Queridos, nós, de olhos brilhantes
Uns sonhadores, outros duros
Uns românticos, outros trágicos
Todos nós, e cada um de nós, padecemos hoje.

Nós de talentos astrais e de fragilidades cristais
Quando estamos em desvantagem:
Uns furiosos, outros perplexos
Enfrentamos, ao nosso modo
Rosto ao vento, ou silenciosos na sombra

Nossos corações azuis, de sangue da cor do amor
Nossa anemia, nossa transfusão
É chorada ou celebrada, não importa
Mantemos o brilho mas suspiramos dizendo:
"... Mas... O Que É Essa Vida... Como...?"

Nossas frases nunca terminadas
Mas transbordam de sentido.

Queridos, nós, de dores secretas,
Uns apenas amam
Outros são amados somente
Nossa capacidade de fazer versos invulgares
De sorrir para o alto, gargalhando frente à nossa própria sepultura
De inocência ou de rancor
De abnegação jamais.

Queridos, não falarei por ninguém
Nós, eu e minha solidão
Fazendo versos, música, amigos
Fazendo um travesseiro onde possamos recostar a cabeça.

Respirar fundo é o suficiente.
Olhemos além, mesmo que nada vejamos por hora.
Em algum momento, saberemos.

Especialmente para Joyce C., Lise L., Isabel S., Rodrigo L., Plínio R., Toni B., Carla D., Cladine M., Bruno M., Luana R., Luis Arthur C., Ivy S., Mirelli F. e Josy L.


06 março 2012

Epílogo


Eu não sou eterno.
Nem sempre terei forças nas pernas
Nem amor no coração

Cada vez mais, cada vez menos
Perdoo, esqueço, concordo

Minhas garrafas de água secam
Meus cântaros, vasos e botijas
Pó, poeira e areia derramada ao vento

Eu sentirei falta de mim mesmo
Do pai, da mãe que sou
Do colo, e da mão bruta que açoita
Sentirei falta da minha língua ferina
E das minhas lágrimas de louco e feio

Sentirei falta do espelho
De quando me vi jovem e assustado em um retrovisor
Do dia em que vi que plantinhas cresciam no jarro abandonado em meu quintal

Sua mão ajeitando meu cabelo na chuva e me dizendo bonito não é eterna
Minha dor não é eterna

Meu discurso vai sendo concluído aos poucos
Mas não é eterno. Um dia acaba.

Cada vez mais continuo, carrego, sigo planos feitos por outrem
Cada vez menos sofro, esse sofrimento que se sabe

Meus brinquedos, meus amigos e meu bolo de aniversário
Sentirei falta de tudo que não é infinito
O que está pra ser eterno, anuncia-se em doses dolorosas
Cada vez menos concordo comigo e com minha lógica
Cada vez mais perdoo e odeio

Sentirei falta do raio de sol que me acorda
Das maldições e das bênçãos
De te ver passando na rua, de não te ver nunca mais

Você não é eterno.

09 fevereiro 2012

O Grito

Se meu aprendizado se dá sempre na instância do sofrimento.
Se os dedos apontam contra mim e os olhares, as pupilas enegrecem, trevas que me condenam

Ainda encontro a mínima força retirada sabe-se lá de qual inferno dentro de mim
Para escrever a ninguém, para cantar a todos e para respirar comigo mesmo, meu sopro de vida pesado e insuficiente.

Minhas capacidades remotas e retrógradas de não perdoar, não esquecer - "Deus, me faz nunca esquecer e nunca perdoar, senão morrerei."
Minhas vontades nulas, não levadas em conta em nenhuma existência, nem por mim, nem por Ele, nem por ninguém, nem por nenhuma estrela cadente.

Todas elas, minhas (in)capacidades e vontades gritam, explodem, enfurecem-se, passam de anjos a demônios com a força de toda a pressão que sustenta o céu nos céus, mas que são apenas um estalo.

Mas eu dou voltas em torno de mim mesmo e tenho quatro mil estações porque tenho o direito, já que minha aprendizagem se dá na instância da dor.

E nesse milésimo de segundo que explodo, e não amo a absolutamente ninguém nesse vasto mundo - a verdadeira solidão - quero escutar o que eu posso dizer a mim mesmo, antes que isso passe e eu volte a ser o estúpido e limitado ser que ama, se derrete, se desmancha de uma doçura que apenas quem está distraído vendo estrelas percebe, e é quando a solidão não é a verdadeira, mas a falsa, e sou o mais vulnerável da cadeira alimentar.

Depois de gritar, eu volto à forma elementar de pingo dágua, de grão de areia, de folha seca ao vento, de coração de mãe e todas essas coisas facilmente maltratadas.

Nessa forma cheia de amor eu passo a maior parte do tempo, e eu, lá de dentro de mim, sonho com o momento do grito voltar, e me tornar aquele que não perdoa, que não esquece, que não ama, e que é - ( raios de luz sobre mim vozes angelicais aleluia aleluia finalmente minha hora sim eu finalmente passei a existir ) - verdadeiramente solitário.

Porque dela, não há mais para onde ir.