19 Outubro 2009

Às Noites


As noites andam dizendo que é preciso terminar de amar.
Abrir os olhos durante a madrugada , fitar o teto branco e impiedoso, apenas ouvir a própria respiração.
A noite diz: sozinho.

É preciso pegar o medo de viver e suspendê-lo acima da cabeça: fora do alcance da nossa própria visão.
Salvar a doçura dos pés que a pisam: carinho é como uma frutinha que fácil se esmaga.
Muito suco desperdiçado.

A noite sopra ventos frios vindos de todas as direções, principalmente do norte.
É preciso se abraçar: solitário gesto de envolver os ombros com as próprias mãos.

A noite reclama: quero choro ou riso , nunca o silêncio.
É preciso silenciar: a noite não pode ser dona dos olhos e bocas.

A noite chama para dormir. É preciso acordar, atrevido, fitar o teto, ouvir o soluço.
As noites mandam, dizem, pedem, clamam, gritam.

É preciso manter a calma: sozinho, a gente termina o amor que nunca devia ter começado.

20 Setembro 2009

Balelas

_É rapidinho: me diz como é estar apaixonado.
_Ah, não sei dizer, fica tocando música na sua cabeça o tempo todo
_E isso é bom? como consegue dormir?
_É bom sim, são sempre músicas bonitas, e quando você dorme, sonha com elas.
_Mas é porque você é muito romântico né?
_Sou sim, o tempo todo
_Eu não sou.
_O que você sente quando ama alguém?
_Te perguntei justamente pelas minhas dúvidas, mas você é romântico e eu sou da galera do realismo-fantástico.
_Não entendi... como é isso? É tipo como na literatura..?
_Não, é diferente... mas é inexplicável, se eu conseguir explicar, serei um romântico como você.
_Então na sua cabeça não toca música.. é isso?
_Toca... música tipo de desenho animado, e sempre penso que vou levar uma topada e cair.
_Que diferente.
_Sim, muito, isso é ser realista-fantástico.
_E é bom ser isso?
_Eu acho bom... se você quiser saber como é , vai na reunião do nosso clube, é dia de quarta feira...
_Ah, tem reunião? vocês são organizados né... nós românticos não somos.
_É, vocês são cheios de problemas.
_Bom, tenho que partir.
_Eu também, lá vem meu ônib .. ops meu cavalo azul alado que me levará a montanhas distantes de terras onde tudo é amor de verdade.
_Puxa, me dá uma carona então??
_Não seu bobo, isso não existe! Toh brincando né...
_Puxa vida...por um momento eu pensei...
_Não chora cara.... olha chegou teu ônibus... cuidado!!! olha, sujou você de lama.
_Tudo bem.. tchau
_ Tchau né.

16 Setembro 2009

Bi-Bi


É um exercício escrever a essa hora: são 17:31h.
É hora de passagem, de pegar toalha pra banho, de sentir o cheiro da sopa do jantar, e o som das pessoas na rua saindo de seus trabalhos.

É aquela hora que a gente só termina as coisas.
Mas eu vou começar a escrever um texto. Agora, nessa hora incoveniente.

Lembrei que no Natal, as luzes que enfeitam a cidade começam a brilhar a partir dessa hora.
Sempre achei que seria impossível para mim escrever (pensar criar) algo nessa hora.
Mas são 17:35 (que bonito número).

Que estou sentindo além da aflição de escrever a essa hora?
Já sei: essa não é a minha hora de sentir saudade, amor, paixão, solidão, tristeza, ânimo, paz nem alegria.
É uma hora de não-sensações, é a hora de ações robóticas.

É pra declamar palavras como "departamento" "tráfego" "pedestres" "atraso" "fechadura" "chave" e "correria". É também hora de se ouvir buzinas e assobios.

Pronto, escrevi sobre um caos lá fora e que eu não acompanho.
Meu caos é em outra hora, agora sou um ser racional que sabe que tem que tomar banho, jantar e ir pro meu compromisso de todas as noites.

17:42.
Sem poesia.
Ufa!

12 Setembro 2009

Moinho de Vento.

O que estou tentando dizer é que as canções não bastam.
As leituras que fazemos nem os filmes que assistimos.
Falta muita coisa

É ilusão se sentir entendido: na verdade o que reina é a dúvida.
A Infinda Luta do Cavaleiro Solitário Em Busca da Felicidade no Reino da Dúvida.

Só que não é luta propriamente, nem sou propriamente um cavaleiro nem solitário nem buscando a felicidade.

Não busco nada, estou voltando olhando pro chão porque perdi algo que caiu do meu bolso.
O que há de solidão nisso tudo é que lutar para ser feliz é algo que se faz sozinho.

Certo, falarei por mim então. Luto sozinho para ser feliz.
Não sou um lutador, já disse, nem solitário. Nem feliz.

Sou é personagem mítico no Reino da Dúvida, porque tenho cá umas certezas.
Camponeses me vêem à noite vagando em bosques e por entre as paredes de castelos.

Sigo um fio agora: as canções não bastam porque só despertam dragões que deveriam viver adormecidos por forte sossega-leão.
Mas imprudente eu canto e eles acordam, dragões-paixões, bichos de um mundo além do sensível, monstros que depois me devoram nas noites que passo em claro pensando nos novos rostos e nomes.

A Não-Luta do Não-Cavaleiro Não-Solitário Na Não-Busca da Não-Felicidade.
É assim que a história deveria se chamar.


29 Agosto 2009

Nada


Uma caixa vazia
Um campo de futebol à noite, deserto.
O deserto à noite.
Um céu sem estrelas
Uma manhã sem nuvens

O mar calmo.
Paz?
Não, é apenas a vida sem a gente estar nela.

Aqui, um suspiro. Tudo menos alívio.
Tua foto não me faz nem piscar, nada mais.
Foto nenhuma , lembrança alguma, encaro o nada como um cego.

Outro suspiro, e haverão outros e mais outros
Até o fim.

Um envelope sem carta
Um buraco no estômago, a fome.

A lágrima se desprende do olhar como quem escapa de uma prisão
E vai rolando, sozinha, como se esperasse ser seguida por outras

Mas não, é sozinha também, a lágrima do solitário.

É o olhar pra trás e não ver ninguém.
Nem na frente, nem do lado, nem dentro nem fora.

Aqui, um suspiro. Dessa vez mais longo e com um soluço no final.

06 Junho 2009

Assunção


Para esquecer você eu faço descobertas
Descobri por exemplo, que sou artista mesmo e não tem jeito

Me emociono só de falar de arte e fico grato por chorar sem ser por você

Pelo menos um momento, uma noite.


Para esquecer as loucuras que um dia fiz, penso na serenidade que sinto quando durmo e meu travesseiro é novo.
Um prazer que não é de lembrar de teu rosto.

Teu rosto, já praticamente esqueci, porque gasto neurônios
memorizando outras coisas
.
Versos, poesias de Drummond.

Para matar você da minha vida, eu me faço viver.

É uma troca, eu vivo, você morre. bem assim, claro e dinâmico.

Eu vivo nem que seja morrendo e cansando, soluçando e engolindo seco.

E você não sei se de verdade vive ou morre, pra mim você se apaga.


Só lembro de você mesmo na hora de esquecer
.

Só estarei no paraíso tomando leite e mel quando não houver o que esquecer, quando tudo for surpresa de criança, quando aos meus pés estiver pintado um marco-zero, mesmo que seja de sangue ou lágrimas, mas não pisarei porque meus pés estarão no sublime, subindo escadas e já vislumbrando luzes que vêm de Deus.

Milagre.

25 Março 2009

Outono

Nasci por uma infelicidade entre aqueles que não sabem viver impunemente.
Não sou desses que andam por aí felizes a qualquer custo.
Sou (que droga) daqueles que param e pesam, refletem, ou seja, sofrem.Mas sofremos tentando a felicidade, nem que seja por um milésimo de segundo.

Agora estou num doloroso (mas libertador como costuma ser) processo de morte.

Eles estão morrendo: os amores teimosos, umas esperanças, muito carinho, alguma sensibilidade, algumas amizades, muita tolerãncia, muita paciência, bastante da resistente ingenuidade, algo de doce, algo que canta, aquele sorriso que dei a alguém, aquele piscar de compreensão, morrendo, uns repentinamente, outros agonizam por horas, dias.

Agora entendo (sinto) como as árvores vivem no outono, vendo suas folhas secarem, caírem, morrerem, se sentem cadáveres também.
Não quero pensar em primavera ainda, morreu muita esperança, a que acreditava na primavera está morre-não-morre. "Não sabemos se resistirá" dizem os médicos com pesar.

É outono agora, com licença aos ainda queridos, é outono e preciso de espaço, de ar, de tempo e de lenços de papel.

18 Fevereiro 2009

Do Zero

Tem gente que anda por aí reclamando de falta de amor.
Fico pensando em quem amei e nunca aceitou o meu amor.

Pois acabou.
Na multidão caminham pessoas que poderiam ter recebido flores e beijos e carinhos e surpresas e poderiam ter tido contato com uma determinada felicidade, mas não quiseram.
Sendo assim, espero nunca precisarem, pois de mim não sairá mais nada.

Fiquei ali, entre um hiato ou outro de existência, esperando o ritmo voltar à constância e eu iniciar meu caminhar. Porque caminho num ritmo: o ritmo da esperança. (Esses amores mudaram a métrica e ficou impossível acompanhar , então tropecei e caí).

Mas já de pé, ando com as armadilhas ficando pra trás. É a grande vitória das feras que escapam de seus perversos caçadores. O saber onde pisa.

As pisadas são mais duras. Infelizmente, perderam aquela certa leveza. Estão carregadas de um rancor que empurra pra frente. Os passos são rígidos de tristeza e mágoa. É como uma mão invisível nas costas que diz "VAI!"

E vou.
Logo adiante as lágrimas secarão, o ódio que antes foi amor se esfriará, a mágoa ficará indelével, os passos podem ficar mais leves, a memória de quem não quis meu amor ficará distante e minha vingança será o meu sorriso no rosto, como quem diz :"Eu tentei" .

02 Fevereiro 2009

Triste E Livre Amor


É uma declaração de amor que te faço, mas o amor é tímido.
Tímido porque anda na ponta dos pés para não ser percebido e assim, aniquilado.
Porque é assim que os (meus) amores acabam.
Mortos por ti.

Mas esse é passarinho, voa, é abelha, é coisa alada
Escapa mais porque sou sombra e meu mistério oculta esse sentimento-menino e suas travessuras.

Meu amor por ti me trouxe uma breve (e clandestina, citando Clarice) felicidade.
Breve porque os próprios sonhos são breves, se o doce se vai numa mordida, se a flor murcha em poucos dias, porque minha felicidade que anda na corda bamba não haveria de ser?
E clandestina porque eu não tenho direito a senti-la , uma vez que é ilusão, uma vez que não existe tal motivo.

Mas sou como aqueles que habitam em secreto os porões dos navios, venho de terras estranhas e desembarco em portos que não sei. Sou proibido.
E desse amor-que-não-tem-sentido-de-ser brotam sorrisos. Sorrisos leves, passageiros, mas sorrisos.

Ah, meu amor, a felicidade é um bem que possuo numa caixa que tu tens a chave.
Como posso te pedir "abre-a"?
Se bem sei que teus olhos têm outras cores, teu coração navega em outros mares?!

É pela esperança então.
É pela esperança.


15 Janeiro 2009

Ímpeto.

Sofro sem viver.

É como aquela criança que não brinca enquanto vê as outras rolando na grama, inventando mil travessuras, caindo e se machucando.
Choram, vêem o sangue no joelho ralado, mas brincaram.
Eu sou a criança que tem os joelhos em carne viva sem ter brincado.

Sou o banhista que nunca foi até o fundo e quando vai, é queimado por uma água-viva.
Volto em pânico. Fui castigado.

Sou quem dormiu de dia e acordou de noite: e agora? dormir mais ou ganhar as ruas?
Sou quem ganhou as ruas e foi assassinado numa esquina escura.

Mas antes de tudo sou aquele único sobrevivente do terremoto
Minha mão aparece sob os escombros.
Transformando meu espanto de viver em força de existir
E sorrindo, o ato mais heróico.


12 Janeiro 2009

Um Ausente.


Onde você fica?
No passado ou no presente?
Foi o brilho dos teus olhos que causaram as tormentas dos mares que naveguei.
Naveguei não, fui levado, na frágil balsa da esperança, tocando de vez em quando a água com a ponta dos meus dedos semi-mortos.

Dessa vez meus olhos que brilham, porém.
Em terra firme, fico quieto.
Temo as corujas, que trazem mau agouro, mas há o fascínio .
Adoro corujas.

Onde você fica? No presente?
Não há lugar para você nessa terra firme em que estou pisando, e se tu estivesses aqui eu afundaria num terremoto ou na areia movediça

Tu me fazes perder o chão.

E me dói saber que "tu" já nem és mais uma pessoa, que poderia retroceder na sua crueldade infantil de ter vontades.
Tu és hoje uma sensação, um déjà vu, hoje és para mim a memória de uma fome, de uma sede, de um precisar.

Não sei onde tu estás.
Não sei se quero saber.
Não sei se desejo que voltes ou que desapareças para sempre.
E como tu não és mais pessoa, outros "tu" virão.
Ou já vieram e "tu" já tens outro rosto.

Se eu já não amo a ti, eu amo a necessidade que eu tenho de ti.
Eu amo meu egoísmo de querer um afago, eu amo a mágoa e amo o perdão.
Onde eu estou?

Em algum lugar seguro de terremotos ou minha alma jaz no fundo do mar?
Só tenho agora a memória do brilho dos teus olhos.
E os olhos, meus, brilhando por ti, por mim e por tudo.

11 Setembro 2008

Um Suspiro

De longe eu o via:

Parado, estático, tenso, olhando para baixo. À sua frente, um buraco.
Negro, profundo, sem fim... como costumam ser os buracos.
Tinha acabado de se abrir sob os pés dele e ele não sabia o que fazer.
Cair dentro, pular para dentro, retroceder, passar por cima ou continuar parado.

Racionalmente tentei ajudá-lo, o pobre rapaz despreparado para a vida:
_Põe uma tábua, improvisa uma ponte, atravessa, continua teu caminho!

Ele me olhava com olhos suplicantes e nada dizia.
Suava e tremia, e eu passei a ter aflição também, não quero ver ninguém sumir em buracos.

O jovem pôs as mãos no bolso, tirou celular, chaves, carteira, deixou tudo cair no buraco
Tirou fotografias, tirou brindes, cartões, dinheiro, lembranças, moeda da sorte.
Tirou TUDO, e eu quase chorando via quando um a um , os objetos iam sendo atirados no abismo.
Que ia aumentando, quase engolindo o rapaz que parecia agora menor e mais leve.
Tirara o peso dos objetos que carregava, e me disse com tristeza mas alívio, como se justificando:
_Quero ter apenas meu próprio corpo.

E eu pensei "pra quê, meu Deus????"
Não é o nosso próprio corpo mais pesado que tudo que carregamos?
Pois nele deve estar a alma e o espírito que são de um peso insuportável.
Por isso muitos de nós andamos curvados.

Olhei aquela que eu sabia ser a última vez para o rapaz que agora era vulto indefinido mas vagamente familiar e eu ainda pude dizer:
_É a vida que vivemos.

Ao que ele sorriu e retrucou:
_Sim. É a vida.

E não vi mais buraco algum e noutro instante o próprio rapaz que tinha os meus olhos tinha sumido. Lembrei daquele sorriso e do peso leve da sua alma e corpo.

Os buracos negros se abrem não aos nossos pés, mas em nossos corações e tragam tudo.
Tudo, tudo tudo que é tragável.
Já joguei minhas chaves, meus livros e óculos. A alma não jogo porque apesar de ser a responsável pelas dores, é pesada demais e não se move um centímetro de mim.

É a vida, mas vivemos.

30 Agosto 2008

Uma Única Manhã

Vento frio, sol lá fora.
E penso: "como pode?"
Mas sei que é algo comum de acontecer, eu é que apenas hoje parei pra perceber, ou minha pele está ao avesso e sinto mais as coisas porque a parte sensível está exposta.
Portanto soube o que é comum às manhãs.

Imediatamente me cubro novamente, porque é grande o risco de infecção.
No ar flutuam seres invisíveis que a biologia põe nomes estranhos e eu simplifico: perigosos.
Seres perigosos a mim, que ando com a imunidade baixa desde que chorei de susto por saber que a vida é, simplesmente.

E por a vida simplesmente ser, é preciso estar com todos os poros desobstruídos e o sangue quente, fino e vermelho para quando o corte, termos dignidade ao sangrar.
Hoje já sangrei, cortado pelo vento frio.

Por a vida ser, e ventar frio e o ar estar infestado de seres perigosos pra mim, é que contraditoriamente, passo a descansar e relaxar: é coisa demais para lutar contra, e como diz a música: "I ain't gonna study war no more" e batalha inútil é batalha vencida.

Pronto, o vento deixou de ser frio, pois se aproxima o meio-dia.
Logo o céu estará daquele tom azul-falso-alegre tão comum na vida da gente.

Mas uma nuvem cinza teimosa continua no céu, pois assim como eu, ela sabe que não precisa mais guerrear nem chover, pois já venceu; já houve o vento frio, ele já me cortou e eu sangrei, e do sangue brotaram palavras aladas que eu amarro ao pé da minha cadeira, pois sou apegado a certos seres alados, invisíveis e perigosos a mim.

02 Agosto 2008

Em Sã Loucura


Ah, e eu vim te buscar pela mão,vem, segura minha mão, anda, segura!

Para acabar com essa sensação de mãos vazias, essa sensação de não ter você ao lado, essa sensação de não ter...
E sabes que venho te buscar com lágrimas nos olhos porque sei que tu não queres vir comigo!
Ah que cruel, tu não queres vir comigo!

Pois saibas que comigo tu não te transformarias, comigo não nasceria um fio de cabelo branco sequer em ti, comigo tu não engordarias um quilo, comigo tu serias sempre igual, porque eu te conservaria assim.

Porque eu te quero assim, na minha loucura, e na minha loucura, tudo é permitido.

Se tu viesses comigo, tu não me farias chorar mais nem uma lágrima, tu me farias cantar todas as manhãs e dançar todas as tardes, se tu viesses e estivesses comigo eu não envelheceria um dia mais sequer.

Porque enlouqueci com minhas faculdades mentais em ordem. Eu enlouqueci em plena consciência. Em desespero.

Porque o desespero nada mais é que a loucura consciente da desesperança, do seu não-estar aqui, de eu definhar sem que tu venhas.

E como insano, sou capaz de sorrir, e até viver! Com a mão estendida, sempre murmurando, triste e louco: "Vem, vem..."

Mas sei que tu não vens, mas não sei porquê, e sei que tu não virias jamais, porque sou louco mas não sou estúpido, porque devaneio e alieno, mas a consciência lá está, impávida, dura como rocha, fria e carrasca me dizendo:
"Tu não és louco e sabes que estás só, recolhe tua mão e deixa de fingir o amor que tu não tens."

E então não te espero nem te chamo mais, pelo menos por hoje, por agora e por esta hora amanhã.

25 Abril 2008

"Nas Nuvens Ou Na Insensatez"


Depois de tanto silêncio, deveria haver muito a ser dito.
Mas não, só umas poucas coisas:

A vida faz de nós uns poetas, ou cantadores, ou loucos ou tristes.
Ou de tudo isso um pouco .

Alguns de nós vivemos em céus azuis e outros em nuvens negras
Muitos estão sempre em uma eterna nuvem num degradé de cinza.
E torcendo para essa eternidade não ser eterna ou não levar uma vida toda.
Queira Deus que vejamos outras cores.

Sim, "VEJAMOS" porque estou nesse seleto grupo aí.
E nunca gostei de cinza, que ironia.

E "seleto" porque embora eu saiba pelas expressões nos rostos e pelos suspiros de cansaço que muitos vivem assim, a gente lá nessa nuvem se sente muito sozinho.

Mas como não há mesmo muito a dizer, vou encerrar esse texto logo após os soluços se tornarem sorrisos e as lágrimas irem pro lenço e os olhos fitarem o além, porque a nuvem, ops, a vida tem que ser vivida até que um dia se dissipe num céu de brigadeiro ou vire chuva e chore sobre a terra.

E eu me tornarei poeta enfim.

28 Março 2008

Cá Entre Nós

Era uma vez um jovem, ou uma jovem, ou um velho, ou uma criança ou eu ou você que um dia sorriu ao ganhar uma flor ou um chocolate ou um bilhete.
E achou que a vida ou o destino seria assim sempre: sorrisos.
Depois do presente veio o final que não foi feliz.
O primeiro amor, o grande amor, o único amor, ou seja lá quem tenha sido, simplesmente sumiu no ar, na terra ou na chuva.
E o jovem ou a jovem ou o velho ou a criança ou eu ou você ficou lá em pé, no passado, no escuro, no frio.

E deu passos e "evoluiu" e amou novamente ou não, e tentou e chorou e fracassou e venceu e sorriu e gritou e dançou e cantou e as águas do moinho rolaram.
Mas um belo dia olhou para trás e se viu ainda lá parado, com a flor ou o chocolate ou o bilhete na mão, chorando.
Nunca, jamais saiu de lá para lugar algum.
E aquele vulto do que um dia foi ele mesmo, hoje menor ou maior ou igual nunca poderá sair de lá porque o passado se esquece mas não se apaga.

E aquele choro sentido de criança, de velho , de jovem , meu ou seu nunca será consolado porque o grande e único amor sumiu no vento e ninguém mais (nem o tempo) poderia fazer o que esse grande amor não fez.

O passado se esquece mas não se apaga, e vez por outra dolorosamente vislumbra o pobre vulto esquecido dos amores não vividos, ou dos sonhos não-realizados ou dos sonhos simplesmente.

Era uma vez, um desejo...

09 Março 2008

20.000.000 de minutos.

Era hora de pôr as roupas, os livros e a escova de dentes na mala e ir embora.
Ele olhou ao redor e teve certeza: era só isso que ele tinha para levar.
Roupas, livros e escova de dentes.
Pensou se precisava mais do que isso pra viver.
Sim, precisava, mas ele sempre viveu sem ter tudo que precisou.
Decidiu que depois providenciaria o que faltava , se fosse possível.

O importante era ir embora já.
Porque já se passaram 14 minutos desde a hora que ele decidiu que devia ir.
14 minutos era um bocado de tempo para se atrasar, pensou ele.
O peso do atraso o desanimou: as coisas não começaram bem, já se atrasou.
O final não começou bem.

O que não começou bem não poderia terminar de outro jeito.
Sentou-se um pouco na cama com a mala no colo.
Decidiu que as roupas não eram necessárias.
Só peso morto e inútil, ele constatou e deixou-as cair pelo chão.
"Já estou vestido e bem vestido".
Bastava.

Lembrou das fotos, das cartas.. quanta bagagem um ser humano tem que levar.
Lembrou ainda de uma pergunta que fizeram a ele quando pequeno:
"Se sua casa estivesse pegando fogo e você pudesse salvar uma única coisa, o que seria?"
Ele não conseguia lembrar o que tinha respondido na época.
Devia ter sido a escova de dentes, pensou dando de ombros.

O fato é que ele sabia que jamais iria embora de todo dali.
Os agora 17 minutos de atraso diziam isso "Você nunca sairá daqui."
Ele odiava ser desafiado e olhou com um sorriso arrogante para o relógio azul na parede.
Olhou pra porta e pensou: "Será agora. Agora cruzarei aquela porta antes que sejam 18 minutos."
Ele não suportaria 18 minutos de atraso, era um número muito forte. Equivalia a 18.000.000 minutos de atraso.
Foi, com a coluna tensa e reta em direção à porta. A mala não estava bem fechada e livros caíram.
Se baixou para apanhar e tic tac: 18 minutos.
"Mas eu vou embora" disse para si mesmo.
Resolveu deixar os livros pelo chão: eles pularam da mala, queriam ficar.
E na mala só ficou a escova de dentes, azul como o relógio e como os olhos de Isabela.

20 minutos. O tempo passa rápido quando temos que ir embora.
Não ousou uma última olhada pelo quarto, mas antes de cruzar a porta, olhou pelo canto dos olhos para o relógio. Ele parara de funcionar. Os ponteiros estáticos.
20 minutos, pensou ele: o tempo que se leva para deixar algo e alguém.
Para deixar tudo.
Não fechou a porta.

Saiu para o céu azul, como a sua solidão.

24 Janeiro 2008

Sobre Helena

Olhando bem havia muita beleza em Helena.
Nada que parasse o trânsito nem gerasse propostas para revistas masculinas, mas sim, nela havia harmonia.
Os cabelos eram cor de mel, brilhantes e sedosos, os olhos vivos e com belos cílios a boca rosada e a pele.. perfeita.
Um corpo daqueles que tornavam-na mais jovem do que era, seios firmes e pernas longas, torneadas.
No mais, Helena tinha esse nome forte, muito bem educada, nunca vulgar, de voz macia, melódica. Inteligente, até astuta. Agradabilíssima... simpática, compreensiva, querida pelos amigos, tias distantes, vizinhos e pelas crianças do prédio.
Helena era uma jovem não linda e arrebatadora, mas bonita, agradável e que certos raios de sol favoreciam muito.
Mas Helena não era amada, jamais foi, jamais conseguiu ser.
Suas amigas, as lindas e as feias namoravam, flertavam ,amavam... Helena não.
Certa noite, acordou no meio da madrugada com sede, bebeu água e foi ao banheiro; se olhou no grande espelho na parede e sorriu... como estava linda assim, meio descabelada, com os olhos miúdos de sono... desejou que alguém pudesse vê-la assim.
E foi dormir.
Conheceu um ou dois homens que se interessaram por ela e ela por eles em intervalos de anos...porém outros mais frequentes gostavam dela, mas sempre havia um problema... Helena os olhava com seus melhores olhos e dava as melhores chances, mas ninguém a culpava por não corresponder aos interessados.
Psicóticos, sujos, burros ou superficiais demais, eram esses que gostavam de Helena.
E ela não os queria, não porque fosse exigente, pois fazia força para aceitar o "bizarro".
Mas é porque ela realmente estava muito além de todos eles.

E o tempo passou... mas muito tempo passou MESMO.
E Helena assim, aquela pessoa formidável e não-amada.
Fora isso, viveu uma vida normal, estudou, trabalhou, etc.
E mais tempo passou.

Helena reencontrou na velhice um homem por quem ela se apaixonara quando jovem,mas que sequer olhou para ela na época, preferia outras mulheres de riso fácil e voz aguda demais.
Ele estava meio acabado e eles então viveram juntos durante muito tempo.Ele se chamava Aurélio.

Uma noite Aurélio não chegou do jogo de cartas com o amigo e Helena resolveu não ligar e ir dormir. Acordou altas horas da noite, com Aurélio ao pé da sua cama, com os olhos úmidos e um cheiro acre de cerveja pairando no ar.
Na ponta da cama, uma mala aberta e roupas.

_Helena, vou embora.
_Por quê?
_Marta.
_Ah... (Helena lembrou da viúva de um carteiro amigo deles, uns 15 a 20 anos mais nova que ela e que Aurélio)
_Desculpe, serei honesto com você: você sabe que ela é linda... e nunca achei que ela fosse me dar bola e... bom, não resisti.
Helena sentou-se na cama de costas pra ele. Um longo silêncio e ele achando que ela estava em choque, continuou arrumar a mala.
Ela finalmente falou calma e pausadamente:
_ Você não estava no dia que me vi no espelho do banheiro... me senti feliz por ser tão bonita... e triste por ninguém estar lá para apreciar.
Passou as mãos pelos cabelos brancos e ralos e continuou:
_ Tinha um shampoo que eu sempre usava e.. meu Deus.. meus cabelos cheiravam tanto... mas você não estava lá Aurélio, nem você nem homem nenhum. Meu sorriso iluminava meu rosto, e hoje vejo meus dentes falsos descansando num copo. Sou toda rugas e veias, mas nem sempre foi assim... minhas mãos eram lisas, macias, bem cuidadas e eu não apertava os olhos para ler... Eu era linda e eu queria alguém que pudesse ver e dizer "meu amor, suas mãos são tão macias... que cheiro bom tem seu cabelo.. você é linda quando acorda."
_Onde você estava quando eu era linda, Aurélio? com outras tão lindas? duvido. Você demorou muito, tanto... você chegou numa má hora e olha só que engraçado... no final só eu paguei pela sua demora.

Helena estava já sozinha, Aurélio se fora e ela nem notou em que momento ele partira. Ele esqueceu o par de meias grossas, ela percebeu com amargo sorriso. Suspirou fundo, deitou-se novamente na cama, olhou o teto, sorriu, chorou, fechou os olhos e morreu.

14 Janeiro 2008

A Proposta

E ficou combinado que ela não o olharia nos olhos jamais, e esqueceria as juras de amor, esqueceria as toalhas molhadas na cama, esqueceria a cor dos seus cabelos.
E ele lembraria pra sempre de seu perfume e do som da sua voz ao dar "bom dia" logo que acordava, e das mãos macias torcendo os dedos nervosa.
Ficou combinado que ela seria feliz, e ele seria infeliz, ou o contrário,mas ficou combinado que não se veriam mais.
Porque com ele ela chorava mais, ela dormia mais tarde, ela emagrecia. Com ele ela não lembrava de pintar a raiz dos cabelos nem mandava cartões de Natal pros amigos.
Com ele ela roíia as unhas.
Ele iria mais cedo pra academia, ele poderia ver o futebol às quartas, ele poderia jogar a toalha molhada na cama.
Ou no chão.
Ficou decidido que ele iria amar outra, uma loira natural, uma negra, uma ruiva. Ficou combinado, disse ele a si mesmo, e vai dar certo, disse ele a si mesmo e aos amigos, no bar.
Ela aboliu os saltos altos, discutiu com a colega de trabalho, com a mãe, com o sobrinho pequeno, ela chorou, ela cortou os cabelos e resolveu não pintá-los mais, ela rasgou fotos e cartas, mas estava combinado, ela dizia a si mesma e às amigas ao telefone.
O combinado foi que os dois deveriam ser felizes.
Ele a partir dali saiu sorrindo em todas as fotos, ficou mais bronzeado e com os músculos mais firmes. Seguiu o combinado.
Ela a partir dali perdeu um pouco do brilho dos olhos, nunca mais foi loira, e os amigos a acharam mais jovem mesmo assim.
Achou que seguiu o combinado também.
Não se sabe como foi dali pra frente... a vida é um círculo vicioso, a cada dia é um novo acordo, um novo trato: Eu vou ser feliz e você também, ok?
Ok.

31 Dezembro 2007

Peço-te...


Aos amigos digo: Fiquem por perto.

Ao futuro: Tenha dó de mim.

Aos impulsos : Quero ter disposição para segui-los

Para a razão : Deixe-me por um minuto, sim?

Para um amor antigo : Não te perdôo pelas lágrimas

Aos que nascem: Boa sorte!

Aos que partem: Vou sentir saudade.

Para os bons: Que a vida lhes faça justiça.

Para os maus: Que a vida lhes faça justiça.

Para a minha cama digo: Me acolhe bem.

Aos meus botões: "Non Je Ne Regret Rien!"

Aos meus pensamentos: Voem!!!

Para meus olhos: Olhem além.

Para os meus pés: Levem-me a águas tranquilas.

Para o meu coração: De novo não, por favor!

Para minha voz: "Canta mais!"

Para outra boca: Beija-me!

Para outra mão: Toca-me!

Para outro coração: Ama-me!


A mim mesmo: Boa sorte!Faz-me justiça! Tem dó de mim! Leva-me a águas tranquilas! Canta mais! Não sentes saudades! Deixa-me por um momento! Me acolhe! Ama-me! Perdoa-me pelas lágrimas! Não te arrependes de nada! Olha além! Olha além! Olha além!!!

25 Novembro 2007

Essa Tal Serenidade


De frios na barriga e calafrios vou diferenciando um dia do outro.
Sou tantas sensações que me perco às vezes e me anestesio.
Entra em colapso, sabe?

Colapso, uma palavra que explica tanta coisa.
Caos, outra que esclarece muito também.
Porque quando não entendo NADA , eu grito "é um caos!"
Ou quando não ME entendo nada, eu grito "estou tendo um colapso!"

E me sinto melhor.

Percebi que quando fico feliz eu olho horas pros meus dedos, pensando
E quando sofro, mordo minhas bochechas viciadamente.
Elas estão em carne viva agora.

Tenho umas sutilezas que por enquanto só eu sei.
Alguém um dia se aproximará com interesse suficiente e perceberá também.
Pelo menos eu espero que sim.
Existem tantas pessoas distraídas e despercebidas no mundo.

Uma vez num dos poucos velórios que fui, alguém disse que o morto, ou a morta, estava com uma expressão "serena".
Eu devo estar com essa mesma expressão, só que vivo.
E não sei explicar como é isso.
Só que estou "sereno" mesmo em meio a um naufrágio já citado e a todas as dores que ele provoca.
Será que morri?
Enfim, amanhã posso me decompôr, mas hoje estou sereno.
Talvez seja uma maquilagem (com certeza né?!)

Resumindo:estou sereno no caos, no colapso, no naufrágio.
Sereno como um cadáver bem maquilado.

22 Novembro 2007

Se A Vida Fosse Música

Seria de vários tons

Se a vida fosse música começaria num andamento lento e compassado, pra depois atingir um ritmo quase inalcançável de se interpretar.

Se a vida fosse música seria interessante: ela teria refrão, estrofe e final.

Se a vida fosse música ela seria uma valsa, um frevo, um rock ou um samba?

Se a vida fosse música ela seria cheia de silêncios, de pausas intermináveis.

Se a minha vida fosse uma música ela seria um solo de contralto.

Em tom maior, aliás, seria em Dó maior, sem sustenidos.

Se a vida fosse música.. ah, eu a cantaria toda, e teria belas harmonias e nada de dissonâncias!

Nenhuma voz ou instrumento desafinaria.

De tantas semelhanças chego a pensar que a vida é sim, uma música.

Embora a minha pareça um jazz...

19 Novembro 2007

Auto-Crítica Em Meio Ao Naufrágio.


Estou aqui diante desta tela branca que aos poucos vai se escurecendo pelas letras e palavras pra escrever algo sobre esses dias que tenho passado e que não poderiam passar em branco.
E por que não poderiam?
E eu penso: porque são dos piores que já vivi.
Porém não quero, por Deus, escrever mais uma lamentação e dor e amargura.
E aqui fica o desafio, porque nunca senti tanta dor e revolta e mágoa e frustração e decepção e tristeza e amargura.
Tenho ouvido muitas palavras de superação, de ânimo, de incentivo e umas broncas também.
Mas como diz a música e uma amiga repete sempre: "cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é."
Queria ser mais delícia ,mas sou mais dor.
Mas vou parando por aqui, porque minha intenção é apenas falar, e não falar de dor.
Quero falar para, depois, num futuro próximo, eu ler o que consegui escrever em meio a um grande sofrimento.
E na verdade porque tenho falado das pontas visíveis desse iceberg durante todos esses posts, desde que o blog existe.
Agora o iceberg está inteiro à mostra, bati de frente nele e o navio está afundando.
E agora que ele está inteiro não vou falar dele nem do naufrágio.
Vou falar de mim, e tão somente de mim.

O texto pra valer começa aqui:
Achei que 2007 ia ser bom pra mim,por ser um ano ímpar (desenvolvi uma observação supersticiosa que meus ultimos anos relativamente bons foram anos ÍMPARES)
Teoria/superstição derrubada por terra agora.
Mas claro, o ano é um número, um espaço inventado, uma contagem criada para situar os fatos que se desenrolam na nossa vida.
Portanto, estou numa FASE difícil.
Fase esta que estou conhecendo meu mais obscuro lado.
Me disseram que sofro por orgulho ferido e acho que é verdade
Descobri que mais que amor, tenho mágoa.

Eu que perdôo com facilidade, teve uma que não deixei passar.
Lembro de um trecho de um livro de Clarice Lispector que diz "EU TE AMO!_disse ela com ódio ao homem cujo único crime que cometera fora o de não amá-la".

Eu digo "eu te amo" com fúria a algumas pessoas e as vezes à própria vida, mas com mais fúria do que amor.
Com mais mágoa que qualquer outra coisa.
Porque não os perdôo por não me amarem.
Não entendo como se pode NÃO me amar!
E descubro que também sou prepotente e audacioso, não é minha auto-estima que é boa não.

E pra mim no momento, a mágoa e o rancor são montanhas intransponíveis e minha fé menos do que um grão de mostrada porque estou rouco de gritar e elas não se movem.
Portanto leia-se "rancoroso" onde se dizia "amoroso".

Sou um pote de mágoa onde a gota d'água já caiu e provocou uma tempestade.
Alagou minha vida.
Percebi também que minha facilidade de perdoar se dá somente quando quem me ofendeu se arrepende e pede desculpas ou perdão.
Quanto às outras, desejo-lhes a pior morte.

Sim queridos, esse sou eu.
Preciso crescer, ou me tornar como criança para ver o Reino dos Céus.

12 Novembro 2007

Iminente


Há um fio de cabelo fora do lugar

Uma alça do vestido está caída no ombro.

Um copo está na ponta da mesa.

Um carro atravessa em velocidade o sinal vermelho.

O portão do cão raivoso está entreaberto.

A chama da vela está próxima da cortina.

Uma criança aproxima-se curiosa do fogão onde uma panela arde.

Outra acha a arma do pai e senta-se para brincar com ela.

Pingos insistem em cair muito perto da tomada.

O suicida sobe na cadeira e prepara o laço.

O dedo está muito perto do prego batido pelo martelo.

O jovem surfista está muito perto dos arrecifes.

A faxineira na ponta dos pés se apóia para limpar a janela de vidro do 20º andar.

O ciclista despreocupado não vê o buraco à sua frente.

A linha com cerol se estende invisível em frente ao motoqueiro sem capacete.

O iogurte foi servido vencido.

O pneu está careca.

O chão está liso e vem vindo um idoso.

O andaime balança demais ao vento.

Eu docemente acredito no amor e espero um abraço.

02 Novembro 2007

Psiu!!!!

"Mulher, eu num sei viver nesse mundo não!!!"

Olhei pra trás pra ver quem eram as duas amigas que conversavam em voz (muito) alta dentro do ônibus numa manhã de qualquer dia desses.
Tudo porque a que proferiu essa frase perdeu pela milésima vez o ponto de descer.

_Aff, Evilene(nome fictício) tu passa aqui toda vida e ainda não prestou atenção em que parada desce!!!!
_Pois num é menina, eu sou assim... Ai mulher, eu num sei viver nesse mundo não!

E desceram as duas, rindo, como se soubessem muito bem viver onde quer que fosse.

Essas duas figuras tornaram a viagem muito diferente.

Primeiro porque falavam MUITO alto e incomodavam todos os silenciosos passageiros, alguns se arriscaram a um "pssiiiiiiiiu!" que elas não ouviram, ou fingiram não ouvir.

Segundo porque a conversa delas era algo muito real mas de tão real foi ficando meio estereotipado para nós que fugimos de saber da violência real do mundo.

Falavam do irmão de uma delas que "não anda mais com o Fuinha(nf) porque ele tá jurado de morte e já tentaram matar ele três vezes e se o Vilebaldo(nf) estiver junto..."

_Tu sabe né mulher, ele papoca também!
_Ah é, eles num querem nem saber, atiram em todo mundo que tiver junto!

E dessa conversa iam para outras acerca de alguma "amiga" que pediu um walkman emprestado e não devolveu.

_A Rosilânia (nf) é assim, já perdeu um cd que eu emprestei a ela e nunca comprou outro... nem sei porque emprestei meu walkman!

Enfim, eram mazelas e problemas um atrás do outro, mas narrados com tanta energia e excitação que quase duvidei que aquilo tudo fosse com elas mesmo.

Mas desceram do ônibus e fecharam com chave de ouro suas aparições nas nossas vidas com a frase :
"Mulher eu não sei viver nesse mundo não!"

Acho que aí foi quando o nome diferente dela (os nomes que eu criei são equivalentes aos reais, que de tão complicados não lembro mais) e tudo mais que dela era incompatível com o restante das pessoas, todas muito emproadas e sisudas como se fossem diferentes das alegres companheiras de viagem, tudo isso mudou.

Muita gente naquele ônibus também não sabia viver nesse mundo.
Eu mesmo não sei, como a Evilene.

Talvez porque não saber viver também é sabedoria.
"Perder-se também é caminho" já disse Clarice Lispector.
Enquanto outro diz que "é PRECISO saber viver"
Enfim, escolham suas canções.

Mais tarde, contando a uma amiga esse episódio, ela concordou que também não sabia viver nesse mundo.
Inventamos mil ardis pra perdoarmos nossos próprios erros, maquilamos nossos fracassos para pôr a culpa em outros, damos mais importância a coisas fúteis para não termos que resolver nossos problemas.
Isso é saber viver?

Acho que não, pois achei que eu soubesse viver, mas quando lembro dos dias negros que tenho passado, e como são frequentes, eu penso que talvez eu não saiba mesmo.
Ou isso de repente é a vida.

Enfim, sabendo ou não, existe o aprender.
Como porém o método é totalmente empírico, não acredito em teorias de "faça isso, não faça aquilo"
Acredito que se aprende a viver, vivendo.
E aprender a viver nada tem a ver com felicidade, na minha opinião.

Tem a ver com descer nas paradas certas
Tem a ver com não andar com quem é jurado de morte nem emprestar walkman a quem perde coisas.
Tem a ver com se proteger, com estar no lugar certo na hora certa ou no lugar errado na hora certa.
Tem a ver com não entender esse texto.

Evilene, você que não sabe viver é que é feliz.

22 Outubro 2007

Ocaso.




Uma praia tranquila, fim de tarde.
Três amigos sentados na areia, descalços.
Ana, Pedro e Lúcia.
Ana achou que o pôr do sol era a coisa mais linda que ela conhecia.
Lúcia preferia o nascer do sol, que dificilmente via.
Pedro gostava da lua, não se importava muito com os movimentos do sol.

Ana- É que ficam umas cores tão bonitas, e diferentes.
Lúcia - No nascer do sol, as cores são frias, azuis, e minha cor preferida é o azul.
Ana - No ocaso ficam vermelhas, laranja, e ali olha..uma nuvem lilás! Eu adoro lilás.
Pedro - Eu gosto da lua.. cheia, nova, minguante, crescente... Eu queria morar lá.

Riram

Ana- Lá é solitário
Lúcia- Aqui também
Ana-Quem você levaria pra morar com você na Lua, Pedro?
Pedro- Hum... vocês duas..minha mãe, meu pai, meu cachorro, minha irmã, meu irmão...a Luana apaixonada por mim...levaria também a Bia, o André, o tio Vitor..
Ana- Ah, muita gente, lá vai ficar como aqui.
Pedro- É.. é melhor eu ficar aqui. Lá eu moraria na lua mas não a veria.
Lúcia-Tem certas coisas que só nos encantam de longe.
Ana - Tem certas coisas que só nos encantam quando não as temos.

Silêncio

Ana-É melhor ter as coisas ou viver encantada?
Lúcia- Não sei.
Pedro-Humm... difícil dizer.
Ana e Lúcia - É.

Ana começou a mexer na areia,juntando montinhos úmidos, contruindo algo

Pedro-Vai fazer um castelo?
Ana-Não sei, vou moldar a areia e decidir enquanto isso.

Lúcia começou a escrever seu nome na areia, bem desenhado.

Pedro pegou conchinhas e pedrinhas e ficou atirando longe.

Mas as pedrinhas acabaram.

Lúcia derrubou o castelinho que Ana fazia e Ana apagou com o pé o nome de Lúcia na areia.

Riram.

Pedro- Alguém já destruiu seus planos algum dia, Ana?
Ana- Já... Não por maldade, mas por indiferença. Planos que envolvem outra pessoa são destruídos mais cedo ou mais tarde.
Pedro- Você já foi esquecida , Lúcia?
Lúcia- Já. Logo por quem eu sempre desejei que lembrasse de mim pra sempre.
Ana- E você Pedro? Algo em você já acabou?
Pedro- Não. Ainda há um pouco de cada coisa.

Se olharam os três e sorriram.

Pedro- Vocês são felizes?
Ana- Não sei.
Lúcia-Não.
Ana e Lúcia- E você?
Pedro-Acho que sou.
Lúcia-Por quê só eu tenho certeza?

Sorriram.

Ana-O sol se pôs.
Pedro-Não foi tão bonito.
Lúcia-Está escuro.
Ana-E frio.

Noite.

15 Outubro 2007

O Sonhador


O que ele mais sabia fazer na vida era sonhar.
Sonhava de dia, iluminado pelo sol e sentindo calor.
Sonhava de noite, no escuro e olhando o céu sem estrelas.
Sonhava no inverno, no verão, em todas as estações.
Até nos anos bissextos sonhava.

E um sonho só, ele sonhava.
Todos os outros desejos não importavam, eram vontades apenas
Mas sonho era um só.
O mesmo, sempre.

Exatamente o único que não se realizava.

E lutava, corria atrás, como diziam nos filmes.
Cuidava dos jardins, regava o sentimento.
Buscava a excelência.
Se fazia merecedor.
E nada ainda.

O Sonhador se angustiou.
O tempo estava passando, as noites, os invernos.
E nada.

O Sonhador sentiu que sonhar era bom quando o sonho se realizava
Dentro de um certo tempo.
Mas quando se passavam anos, décadas... virava pesadelo.

E como esquecer o sonho?
Como desistir?
Ele não sabia, pois sonhar foi tudo que fez a vida toda

O Sonhador quis morrer, levar consigo o sonho.
Mas pra onde? O perseguiria.

Ele nunca deixava de receber golpes, o Sonhador
Todo dia, todo agosto, todo Natal.
Todo pôr-do-sol o Sonhador sofria.

Vendo seu sonho se realizar em outros, a todo momento.
Seu sonho era possível apenas a estranhos, nunca a ele.
E ele sabia que os outros não sonhavam.
Eram vontade, desejos, realizados.

O Sonhador achou a vida cruel, o sonho cruel.
Se sentiu cruel por sonhar.
Mas estava lá ainda, o sonho, implacável
E imutável, pois vinha do coração.

O Sonhador sonhou até o último dia de sua vida.
Passaram-se mais anos, mais décadas, tantos verões.
O Sonhador se curvou e perdeu o brilho dos olhos.
Ficou velho, doente, fraco, amargo, mau e feio.
Definhou.
E morreu o Sonhador, com desejos e vontades realizados.

Mas O Sonho, jamais.

31 Agosto 2007

"Alguém Com Os Pés Na Água..."


Depois de muuito tempo sem postar nada, senti a necessidade de vir dizer umas coisas:


1- É para mim, ítem de primeira necessidade, tampões de ouvido, pois certos chamados da vida não devemos ouvir nem atender.

Porque lembro que ia passando e uma voz me chamou: "ei, vem cá!"

Atendi seu chamado e desde então vêm dores, amores, paz, guerra, noites e manhãs. Hoje eu penso que devia ter usado tampões de ouvido.


2- Ainda não sei se o tempo cura alguma coisa, ou se ele apenas modifica, pela sua implacável ação. Cabelos vão caindo e ficando brancos, rugas aparecem onde não existiam, e o sono parece ser menos dispensável, mas aquele amor ou aquela mágoa parecem apenas mudar de forma,mas não somem/curam-se.

Talvez seja essa a diferença entre envelhecer e amadurecer, talvez o amadurecimento cure, o tempo só envelheça.


3- Não ando querendo falar de amor nem de amar, finjo que não me importo, ou faço de conta que não sei o que é isso. "Amor? o quê? como assim??"

Mas sei bem, pobre de mim.

E não querendo falar, falo. Porque é a parte que me cabe nesse latifúndio.


4- E quando penso na solidão ou no desamor, eu imediatamente lembro da prova que não estudei e já é amanhã ou dos meus cds que ainda não arrumei na estante, e ponho as mãos na cabeça e me desespero "meu Deus!!! não estudei pra prova, e agora???????" e continuo o faz-de-conta, de que são esses os problemas que me afligem, quando na verdade, são os únicos que eu tiro de letra.


5- Fui a uma serra muito bonita mas a única coisa que fiz foi tirar fotos e molhar meus pés na água fria e agradável. Como teria sido se eu tivesse me molhado todo e não só os pés? Me vejo sentindo frio e perdendo as lentes de contato. Deve ter um jeito da gente aproveitar a natureza sem ter aborrecimentos.


6- Quem me conhece sabe que eu canto em grupos e corais, e outro dia ouvi uma gravação e minha voz grave e urgente cantava "quem tem amor ausente já viveu a minha dor", e senti TANTO carinho por mim mesmo, aquela voz nunca foi tão minha. Identifiquei cada nota de carinho, calor e tristeza impregnada na minha própria voz grave e urgente.

É, eu sou grave e urgente.


7- Ando sorrindo muito quando estou com meus amigos, mas lógico, sinto falta do sorriso de antes. Hoje é mais uma coisa meio bizarra de sarcasmo e lá no finzinho, uma esperança tímida como a pessoa que foi ao aniversário sem ter sido convidada.


Enfim, de nada mais me adiantam os tampões de ouvido, até porque ainda espero a Vida dizer de novo "vem cá!" porque dessa vez eu direi "nãão, venha cá você!".


02 Julho 2007

Dias.


É domingo e eu sou magro, feio e solitário, desligo a tv na tomada e o dia parece ser todo alaranjado de melancolia.

Segunda-feira é dia de juntar cacos, dou sinal para ônibus pararem, procuro um assento como quem procura a salvação e à noite suspiro e adio tudo que pode ser adiado.

Terça-feira eu sorrio mais do que o normal e sem explicações, penso que a vida é bela e sou só eficiência, tiro fotos porque saio bem nelas e durmo sem chorar.

Quarta-feira sou um mistério, falto aula, da cama olho o chão e tudo que há debaixo das coisas, é quando acho que tudo precisa de faxina e ligo pra quem tenho saudade, nesse dia não canto.

Na quinta-feira eu falo verdades, crio contendas, e surge um sorriso meio diabólico no meu rosto, amaldiçôo inimigos e não acredito no amor nem na felicidade. Canto muito, bebo pouca água e de noite na cama choro mais que o normal.

Sexta-feira tenho esperanças, dou conselhos, abraços, visto roupas novas, sou militante, sou mártir e bato no peito e digo "eu amo!", às sextas feiras quero ver o mar e sinto por não ter um grupo de amigos que jogue futebol.

Sábado sou tenso, uma corda afinada em Mi. Me acho muito bonito e tenho pena que ninguém me viu assim. Sábado sou um afogado tentando subir à tona, sou uma rede amparando um suicida, sou um trapézio de circo quebrado. Sou qualquer personagem do cinema, sou Chaplin.

É domingo de novo e dessa vez sou gordo, feio e pareço estar num sonho ou pesadelo. Ouço cirandas e vejo cata-ventos onde não há nada senão um céu azul brilhando em desafio.

Sou sempre uma coisa diferente da outra, desde que nasci nunca me repeti. O que me fez cansar e ter dores nas costas.
Por jamais ter me repetido, espero que um dia desses, seja numa quarta-feira ou sábado, eu seja finalmente feliz.

07 Junho 2007

...


Vinícius de Moraes dizia que era preciso um pouquinho de tristeza, senão não se faz um samba.


Quando ela é demais, porém igualmente não se faz o samba.

Não se faz nada, nem uma valsa, nem uma poesia, nem um café.


Eu não escrevo, não como, não durmo.

Mal penso.


E minhas palavras vão terminando precocemente

Não tenho o que falar, só o que sentir.


Me sinto como se...