16 dezembro 2013

Espólio.

Todo um ano, mais de 300 dias e eu estive:
Voltando pra casa impávido, exangue, extinto, seco, mudo e calado.

Querendo ser malabarista, tudo que consegui  foi ser equilibrista.
E no último minuto, querendo alguma ação, eu derrubo tudo.

Toda a vida, incontáveis ventos, manhãs. Sol e Lua.
E eu estive: amargo, fracassado, risível, ridículo.

Com água nos joelhos, sem direito a mergulho.
Afetos deslizando dos dedos, pingando no chão e como o sangue da medusa, criando seres alados e venenosos que adoçarão outras vidas que não a minha.

O que vem lá?
Todo um futuro e eu:
Não quero mais.


06 novembro 2013

Numa Manhã de Sol.



Saiba.
Haverá um monumento, num futuro próximo.
Uma marca no chão, um leve perfume, uma fumaça
Haverá uma memória de um rosto, uma leve lembrança do som da voz.

Haverá fim, haverá morte, haverá um quarto para arrumar.

Saiba, perderão-se fotos, não mais poesia.
Os livros, doarão, as músicas, canceladas logo após o refrão inicial.
Apenas o vento percorrerá os cômodos da casa, sem nada encontrar.

A profunda mágoa, a dor que leva à morte, e pior de todos os males: o cansaço.
Caminharão de mãos dadas sobre os escombros da pessoa que eles mesmos implodiram.

Não obstante tanta agonia, saiba que será numa manhã de sol.

Não há mais o que se falar sobre tanto sofrimento.

25 outubro 2013

Binóculo.


Nem tenho uma coleção de objetos que contem histórias
Guardados em alguma caixa bonita que costumizei.

Essas coisas fugiram de mim já ao nascer.

Qual o sentido de você amar as pessoas
E elas irem embora de você?
Melhor seria não ter conhecido?
Sim. Não. Sim.

Queria eu ter a vista boa
Para enxergar além dos continentes
Se alguém por aí é tão sozinho
Encolhido num canto de um apartamento
No escuro, chorando.

Já estive assim, de lá via o tráfego na madrugada
Pela janela, pessoas que tinham uma vida.
E eu não me sentia uma delas.

A dor é que passam anos, carros, calendários
E você, independente das acrobacias que faz,

Continua lá: às vezes encolhido dentro de você mesmo.
Esperando desaparecer.

Todos estão segurando suas malas e dando passos decisivos a alguma estação
Trilhos, apitos, acenos, imagens da década de 40.

Queria eu ter as pernas longas o bastante

Para saltar ao passado, do dia em que nasci
Do dia em que saí ao sol, achando que ele seria meu cúmplice, minha testemunha
Nem sol, nem lua, nem um homem sequer na face da terra.

Meu mundo desaba aos poucos:
Às vezes cai toda uma parede.


04 outubro 2013

O Adeus, Antes de Qualquer Outra Coisa.

Um dia, um gatilho
E a gente começa a congelar de dentro pra fora
Os olhos denunciam aos mais sensíveis
Mas só as mãos, quando finalmente desabam ao longo do corpo
É que descaradamente anunciam ao mundo:
Alguém desistiu.

Será possível ainda ver um sorriso?
No rosto último, urgente e franco
Um rosto que desaparecerá em qualquer curva
A qualquer momento.

A palavra fugidia que ficará no ar
Músicas que nunca mais serão cantadas
Lembranças, memórias, voarão para prateleiras
E lá ficarão, pra sempre, perdidas na poeira.

Os sinais todos fechados
Nenhum sinal porém, importa
Ele já se foi, em um minuto estava aqui
E num piscar de olhos não está mais.

O gelo cristalizou as dores
Deixou gestos incompletos, um soluço no ar
Ninguém se despede silenciosamente
Os ouvidos é que estejam talvez surdos

Nem todo mundo diz "adeus" ao se despedir
Às vezes não há abraço, nem beijo.
Só o lugar vazio, a lacuna, a cama desfeita.

Pois o mundo é feito dos sonhadores que ficam, e dos desesperados que vão.



24 agosto 2013

Altar ao Desconhecido



Se houvesse alguém aqui
Seria testemunha de um não-crime.

Se você estivesse aqui, veria como as coisas são na penumbra do abajur

Se você ouvisse minha voz quando acordo rouco
Se você e apenas você estivesse aqui, descobriria meu lado doce e afável
Me assistiria, perceberia que eu mudei de um ano pra cá
Se você chegasse de surpresa, veria minha alegria
Me daria explicações, sobre o cheiro na camisa, o baton no colarinho e outras ilusões.

Se você abrisse a porta, escutaria meu grito de pânico

Veria minha silhueta no pôr do sol
Atravessaria janelas, balançaria o gelo no copo
Seria sufocado de amor, de ciúme, de paz
Seria provocado, me odiaria, ia querer me abandonar
Me esquecer.

Se você me perdoasse, se arrependeria
Se você me magoasse, se você me quisesse despido
Se você me rejeitasse, se você acendesse meu cigarro
Se você afastasse o prato de comida que lhe fiz

Se você bebesse meu vinho, afagasse meu cabelo
Se você experimentasse meu sal, meu açúcar
Se você me desse as costas, se você pudesse

Você teria a pior das mortes, você saberia de tudo um pouco

Você nascia de novo, você amava e odiava
Você cantava, você cegava, você dançava na corda bamba

Você teria calafrios, você se sentiria o dono do mundo
Você definhava, você se arrastava na sarjeta, você dava a volta por cima.

Mas você simplesmente não.
E eu, um círculo.
Eu sou uma sombra projetada na parede, em várias dimensões, vivendo e morrendo as minhas vidas e minhas mortes e as tuas também.


Não vieste, e eu vivo pela tua ausência para sempre.

18 agosto 2013

O Que Se Sabe.

Quando se anda pela casa no escuro, as mãos tateando, encontrando quinas, curvas e pés de mesas.
Se você entende e acredita que a luz nunca voltará.
Nem do sol, nem da companhia de eletricidade.


Desabando pra dentro de si
Você despenca: não há rede de segurança.
Só um abismo, interminável.
Um dia você olhou pra ele e sem perceber, o engoliu.
Como uma pílula preta e oca.

Sapateando, impreciso por entre a vida
Tua esperança, teu sonho, tua infância
Teus pés não servem pra nada
Não há sustentação na tua espinha, ela cedeu ao peso

Você chora, chora e nada acontece
Nenhuma fada, nenhuma estrela
Nem mesmo teus próprios punhos, nem tua coragem
Nem tua força, nem tua valentia, nem teus dedos longos
Tudo desaba, tudo virou o rio do abismo.

É mais profundo que você pensa
Você não pensa sobre isso
Não há o que pensar: você sequer sente coisa alguma.

Você morre rapidamente, todo dia
Aliás, você só morre.
Vai morrendo assim, ao atravessar a rua, ao beber a água, ao escrever o texto, ao dançar a música, ao ouvir quem você ama falar, ao entender o que ele diz, ao quebrar a unha, a recusar ajuda, a receber ajuda, você simplesmente morre o tempo todo.

E encontra o interruptor.
Nada de luz. Não é por esse sistema elétrico, não é pela  estrela de quinta grandeza.

É você:
Acabou.

"És importante para ti porque só tu és importante para ti. "
(Fernando Pessoa)

09 agosto 2013

Frio na Barriga.


( Só conseguimos viver porque não é sempre que nossa ficha cai.
A solidão seria insuportável.

Você trabalha, estuda, dança e dorme.
Pode ter patrão, uma mãe, um irmão, um cachorro, amigos.


Mas existem alguns hiatos de tempo

Quando você constata que é só
E você espanta esse pensamento como se espanta moscas )


Você não está nos planos de ninguém.
Aquela viagem, acontecerá sem você.

Ninguém cozinha pra você e pensando em você naquela noite de chuva.

Não existe o som do "bom dia".
Você é só mais um rosto na multidão.

Querido, mas não amado.



Você carrega suas próprias malas.

Você se culpa e você se absolve.
Você cria o problema e a solução.

Os navios partem e você sente o vento do cais apenas.

Porque você ficou.



Você é simples porque ninguém te complica.
Você ama porque ninguém minou seu sentimento.

Você ainda tem uma canção guardada na garganta, pra oferecer com carinho.
Essa canção está ficando antiga.


Ninguém vê tua beleza espontânea de quando você está em casa, 
desapercebendo do seu proprio encanto.
Ninguém te vê dormir.

Ninguém vela por você.



Quando você suspira de cansaço, 
Quando você suspira recobrando forças, visando o mundo á sua frente:

É só você na história.
Os suspiros se perdem. Não causam efeito em ninguém.

Ninguém notará você fazendo a curva, descendo as escadas, 
acenando, sorrindo ou chorando.
Desaparecendo.


(Então você volta a não saber mais de nada e a fazer planos de pedir uma pizza, e amanhã acordar cedo pra um compromisso qualquer, e então a vida segue, mas lá no fundo, você sente...)

Em quantos você se desdobra para, afinal, ser só você.

28 julho 2013

Rios Antigos.



Quando eu tinha 18 anos chorava com avidez.
Olhando pela janela, recostado, no escuro.
Um dia, até gritei.
Um dia eu era uma criança e no outro, eu sentia tanta dor
Olhei para todos os lados buscando uma explicação.
De onde vinha tanta tristeza?

Pois recebi uma explicação das mais convincentes.
Detalhe por detalhe, dia após dia.
Aquelas razões não capazes de verbo.
Pois bem, eu tinha um enigma.

Sonhei que havia um caminho longo, longo
As pessoas que estavam lá, estavam para ir embora.
O céu que havia lá tinha a sacra tarefa de desabar sobre mim
No mais, só caminho, estrada.

Nunca acordei.
As pessoas são recomendadas a não me fazer surpresas ou sustos, pois posso morrer.
Então toda a dor e sofrimento vem assim: sem sustos.
É uma água que se derrama lentamente sobre minha cabeça e percorre meu corpo
Nem às lágrimas tenho direito: a água gera e a água lava.

Um dia entenderão.
As pessoas
Elas foram embora mas um dia lembrarão de terem cruzado meu caminho.

Anos depois, meu choro é miserável.

Crisálida


Tenho duas coisas a dizer sobre abandono:

Pressinto sua chegada.

Não perdoo quem me abandona.

Pisar em estações, aeroportos.
Não perdoo ter de acenar

E voltar pra o vazio.

Transformo em mágoa para suportar

Enveneno o amor e as boas lembranças
Como um parto onde salvam a mãe e não a criança.

Prefiro o vazio dentro de mim do que nos bancos de praça.

Quantas vezes, em uma vida, somos deixados pra trás?

Que a vida segue, que as pessoas são rios

É fato
Que as pessoas tem asas, e inclusive eu também sou rio e tenho asas. 
Mas há um elemento anti-natural em tal naturalidade.

Não, ser abandonado não é humano, é grotesco.
É uma lança fina perfurando a garganta, é gelo sob os pés.

Quem é deixado só seca, só murcha, só definha e morre.

Quando eu ouvir "estou indo" meus ouvidos se fecharão

Vidros dentro de mim se quebrarão, cairei num abismo branco
As lágrimas por dentro, afogando os pulmões, e a secura por fora:

Nos lábios, no rosto, nas mãos.

Todos são cruéis no abandono, todos egoístas, quem vai e quem fica.
Mas apenas um é assassinado e vira casca.

Não há perdão. Não em mim. Não pode haver.


16 julho 2013

Momento A Sós, Acontece Uma Vez Na Vida Ou Todo Dia.

Acendeu a luz. Queimada.
Trocou a lâmpada, tudo iluminado.
A cozinha, abre a geladeira, microondas.
Cheiro de comida, barulho de prato. Um só.
Come rápido, olhando pela janela.
Tem agenda, é madrugada, é manhã, é dia.
Roupa, sapato, lava as mãos, papéis numa pasta.
Canetas, anota telefones, manda mensagem no celular, separa dinheiro para pagar contas.
Lembra de buscar filho na creche, cachorro no pet, lembra de passar na oficina.
Apaga as luzes, já clareou de vez. pensa em economia.


E de repente, como um caos, como a explosão de uma estrela: pára e senta na cadeira mais próxima.
Desabam os papéis, a pasta , a bolsa e os planos para hoje.
De repente, não sabe de mais nada.
Não quer continuar.
Não deseja.
Não ama.
Não é triste nem alegre.
Veio o hiato, e ele sempre esperou por esse momento.
Quando tudo parece longe e sem sentido.
Tanto que a epifania se anunciou:
Uma vez no supermercado ele olhou ao redor .
Uma vez no bar ele olhou ao redor.
Uma vez no meio de uma gargalhada, ele olhou ao redor.

E agora, é tudo redor.
É o que está escondido ao redor dele que ele teme e quer se entregar: é uma verdade gelatinosa e pulsante aí.
É o interior de uma ostra em algum mar com alta concentração de sal.
É ali que está.
E ele é matéria tão distante de si mesmo: isso é a morte.

Levanta da cadeira, os braços são asas cortadas pelo dono.
Olha ao redor: não é sua casa, não há cozinha nem quarto.
Olha ao redor: ele é viajante, ele agora abandona coisas, pessoas e a si mesmo.
Olha ao redor: (ele faz todo dia coisas em que não acredita: e elas o fazem feliz: ele faz todo dia coisas em que acredita: elas o esvaziam, mas ele não tem opção: acreditou.)

Não sente a dor. Não escuta os passos. Não percebe a brisa. Não ouve a música.
Então se for assim, está tudo bem.
Não há paz, absolutamente, então ele respira aliviado.

Olha ao redor.

03 julho 2013

Entre Mundos


Todos os furacões convergindo para o meu quintal e eu decido entrar no abrigo um segundo antes.
Sempre tive habilidade para lidar com ventos fortes, mas nunca sorte.
Era no segundo que eu baixava a guarda que minha casa ia pelos ares.

Agora estou aqui no porão, só eu, uma luz acesa e os ratos.
Mas todo atrapalhado, porque lá fora a casa da vizinha voa, suas galinhas experimentam voos e até arvores.

Não estou lá, pela primeira vez, e não sei sobreviver.

Procuro ver se alguém está na escuridão do fundo do vão.
Um ladrão ou assassino que acaso tenha se escondido para me atacar no momento certo.
Nada: eu, a luz mais fraca e os ratos.


Penso quando tudo tiver terminado.
Meu jardim, meu pobre jardim. Meus lírios! Será que sobrou algum?
Os furacões são imprevisíveis, costumam levar um e deixar outro.
Meu cachorrinho, não trouxe comigo, deve ter ido para Oz.

Será que justo dessa vez o furacão levou tudo para a Terra Prometida? pro Éden? pra Shangri-La?
Seria muito coerente. E eu achando que estava salvo.
Aposto que ao levantar a tampa do alçapão, estarei eu e as baratas, e meus amigos acenando pra mim da nave distante.

Sentado nas escadarias, nem tenho coragem de descer até o solo úmido de encanamentos vazados.
Sou provisório.
Percorro metade dos caminhos.
Solto tudo que eu tinha na mão: era um regador com água, pros meus lírios.


Ora, lírios! Quem eu penso que sou?
Minha ocupação é lidar com furacões, tornados, ciclones, tempestades.
Mas agora enganei a natureza. Desci pro porão.


O sono vem. Nunca fui de dormir. Nunca fui de escapar.
Levanto e as escadas rangem. Podem ranger à vontade.
Subo, em direção à tampa, me sinto saindo do túmulo.
Rebelde, contrariando a sorte e o destino.

Toco a maçaneta, não deixo tempo para meus brios.
Meus anjos e demônios estão em polvorosa, eu não os escuto.


Abro a porta. Todos os rostos conhecidos passam por mim em redemoinho.
Vejo o meu amor agitando os braços,  sumindo pra longe, gritando.
Meus lírios despedaçados, brancos, na poeira.
Sei de tudo, sei como deve ser, sei o que fazer.
Pertenço a isso.
Vôo.


21 fevereiro 2013

No Caminho do Adeus.


Por falar em amor,
A solidão que vem no vento, desenha em nosso corpo de areia fundas marcas que água nenhuma penetra.

Da pele seca e esturricada brota o sal em lágrima e palavras.

Que essa chuva continue fazendo o trabalho que o vento iniciou.

Castigando, doendo, moldando formas duras e escuras que serão vistas apenas à distância, por estar distante de tudo e todos.

Deixe que esses sentimentos envelheçam e se curvem as costas e as mãos pareçam ainda maiores, encarquilhadas, unhas compridas.

Deixe que os olhos se fechem para não ver que não há ninguém por perto.
Nem longe. Não há ninguém. A vida sucumbiu. 
Só os ventos, carregados de areia e eventualmente folhas secas.

E a rara chuva, coroando o fim, a solidão e encobrindo as tais lágrimas.

Deixe que o grito se perca reverberando em rochas imensas e volte como um pombo correio para a garganta inútil de onde saiu.

Leve o amor para passear na floresta e o deixe lá.
Quando ele se virar e lhe procurar, será noite e os lobos famintos até sorrirão, por milagre.


A morte, a viagem, a tal paz, por falar em amor, será apenas um vai e vem. Vaivém.

Não cantarás. Não sonharás. Não beijarás. Não amarás em silêncio. Amargarás.

Deixem que o túmulo se abra sozinho, uma querência última. A última piedade. A última atitude, um último amor, tarde demais.

Amor, amor amor, só se fala nisso ao redor dele. Deixem que os zumbidos cheguem até lá. A sensualidade das sílabas, tudo tão despretencioso.

Nosso vulto, antes com coração batendo, canais lacrimais funcionando, músculos da face que podem sorrir, cérebro fazendo associações, agora uma sombra, um vácuo.

Obra do vento e do amor.