27 dezembro 2010

Umas Palavras Delicadas

Porque meu aniversário está próximo
E somente no plano astral há movimentação.
Aqui na terra, por dentro de mim
Tudo igual.

Vou lembrar da mão pequena, que eu gostava de segurar
Das dores nas costas
Tomando café sozinho
Frequentar casas estranhas

Almoçar sozinho
Vou lembrar da sobremesa que não deu certo
De umas tardes chuvosas de dezembro, alegre surpresa
A chuva veio pra me dizer "olha, que bonito, o céu cinza, fica feliz!"

Jantar também sozinho, comida muito salgada
A saúde desenfreada, eu vestindo qualquer roupa.

Vou lembrar que desanimei
Que não gosto mais de cantar certas canções
Que não quero mais o amor e nem rostos e nem bocas pra beijar.
Que me animei a querer dinheiro.
Sim, quero o que não se leva da vida, pelo menos agora.

Escrever dói menos que antes, pelo menos isso.
Vou lembrar que esqueci tanta gente
Gente que precisava ser esquecida.

Vou lembrar que esse ano também fui a hospital
Vou lembrar, com rancor, de tudo que não fui poupado.
A meta de naão guardar rancor, fica pra depois.

Vou lembrar de belas imagens, na madrugada
De novo da chuva rara em dezembro.
Meu óculos quebrando no natal, como um signo de que tudo precisa mudar.

Vou lembrar que amei num passado próximo que parece tão distante
E lembrar que esqueci esse amor (claro, platônico), que conquista!

Vou lembrar que minha sinceridade esse ano não me fez tantos estragos.

Não vou lembrar de metade do que escrevi aqui.
Vou lembrar de um esboço apenas. As emoções maiores são as que prevalecem.
Mas isso num futuro-surpresa, quando eu menos esperar.

Porque hoje, o presente e o passado são borrões indistintos, brilhos indefinidos, clarões ilusórios.
Meus olhos míopes como sempre.
Os óculos foram consertados.

16 dezembro 2010

Relances

É dentro de um carro rodando veloz numa tarde nublada, por uma estrada cinza e verde.
Um sonho, suponho.

É nas mãos e dedos delicados da mulher que dança, magra e de cabelos fartos e claros, um ritmo quebrado.

É esse movimento feliz e torto.
É um sorriso de susto.
Essa é a vida.

É o olhar por trás da cortina
O espião que apaixonou-se e esqueceu a missão

É o click do telefone desligando e a conta sendo rasgada ao meio
cair na cama de roupa e tudo.
Chorar...

É o tempo todo perdido, abanando os braços pros ônibus pararem
Todos os pacotes que vi esquecidos nos assentos desses mesmos ônibus

É a fumaça, a saudade do campo
Da amiga no Sul, do brinquedo da infância.

É a contemplação, o tempo todo
Dos homens e mulheres amados, do mar, e do céu.
Essas coisas sublimes e ilegíveis.

É a fuga do cheiro dormente da manhã
E o terrível fim da tarde que pontua os fracassos

Mais que tudo é o inexplicável movimento de pernas que vão e vão
Como se tivessem para onde, como se fossem firmes o bastante e como se fossem ágeis para a dança.

Esses sou eu nesse exato momento, há meses.

30 novembro 2010

Sobrehumano

Sabe que no peito dos amargos também bate um coração?!

Um esquecido, com rombos e fitas adesivas.
Um coração cariado, uma cidade depois da guerra.
Logo esse frágil órgão.
Requer muito mais força do resto do corpo pra continuar batendo nessas condições.
E as vezes sonhar enfraquece.

Sabe o universo que nós somos feitos de matéria fraca e facilmente perecível?
Parece que não, quando nos trata feito estrelas que explodem quando morrem e continuam brilhando ou algo assim nesse misterioso funcionar de coisas.

A gente quando morre, morre mesmo viu, sr. cosmos?
Não brilha nem provoca buracos negros não.

A gente só tem gastrites, ombros caídos e no comecinho, lágrimas.
E o coração já antes mencionado.
Todo maltrapilho e ridículo como um palhaço mambembe.

É coisa muito humana para o universo entender.

Somos formiguinhas afinal.
Morremos com um sopro.

24 setembro 2010

Vais Dormir.


Suas mãos tateiam em busca de algo
É claro porém, ainda
Os olhos só veem luzes distantes, no pensamento
Seus pés mal se movem, mas jamais tropeçam

Você tem toda a decisão tomada
Todos os seus antepassados lhe empurram ladeira abaixo
Você finalmente vê
O mar, o mar

Vai para ele, não é Alfonsina, menos ainda poeta
Mas sabe as dores

Você não ama, e ninguém ama você
Você correu, você cansou
Você perdeu, areia aos seus pés

O mar, o mar

As suas lágrimas tem mais sal que as águas marinhas

Você mergulha enfim
O sol se põe depois.

22 setembro 2010

Aborto


Vim correndo pra cá
Estendi um pano qualquer no chão
Deitei em cima

É só o que preciso
Dormir, ouvir os sonhos, ouvir a vida
Suspender qualquer amor, guardar as poesias e esconder as melodias.

Pisar com um pé só, dormir na corda bamba.
Vou indo morar numa linha imaginária.
Trópico de capricórnio, onde é?

Se eu tivesse outro de mim por dentro
Que me fizesse companhia
E que tivesse na ponta da língua as palavras certas
E pelo menos algumas certezas
Mas não

Nas minhas profundezas há o mesmo material da superfície
Um tal amor íngreme
Que não serve pra nada
Não garante sequer minha sobrevivência

Mas eu nem mais me incomodo com isso
Só escuto . Ouvir a vida.

Minha única tarefa agora é achar uma porta onde eu deixe o meu amor, numa cesta bonita, limpinho e alimentado, para alguém tomar conta, enquanto desapareço pra sempre.

"Faze com que eu perca o pudor de desejar que na hora de minha morte haja uma mão humana amada para apertar a minha, amém" (C. L.)

21 setembro 2010

Ao Vento

Você promete que nunca vai me deixar enlouquecer?
Cantando canções de partida e chegada
Segurando com força meus próprios dedos?

Que no próximo natal não vou imaginar ouvir anjos e sinos?
Nem que vou chorar em janelas, vestindo roupa nova e vermelha?

Que não vou estar correndo pra atender o telefone
Em plena virada de ano?
Sem ver nenhum desenho no céu?

Promete que me fará dormir sem a passiflora e a erva cidreira?
Que matará a serpente do meu pesadelo?
E que os gatos não farão barulho nas latas de lixo da rua?

Promete que depois da tempestade virá a bonança?
Me contará histórias orientais e brasileiras?
Promete que desliga a tv se eu dormir?

Ou tenho que carregar todas as malas, sempre?
E limpar toda a bagunça
da festa que não fui?

Vou ter que eu mesmo segurar a pá que lançará terra sobre meu túmulo?
E cruzar as mãos no peito, tentando não sorrir de ironia?

Vou ter que cantar as canções sozinho?
E ser meu próprio vigia, sem turnos nem descansos?

Tenho que inventar as respostas
Das perguntas que você me fez?
Tenho que sorrir no final quando você me dá as costas?

Ou posso simplesmente soltar o que tenho nas mãos
Sem me preocupar que se quebre?
E se for cristal
E se for muito?
E se for eu?

20 setembro 2010

Nevasca


O melhor modo de nunca morrer de frio
Não é agasalho, nem bebidas quentes
Muito menos fogueiras acesas.

Precisa não amar
Nem querer a mão e o olhar de quem se ama
Vai que falha a mão e o olho se fecha

O gelo que cobre e inutiliza os motores
A ausência, a distância
Fumaças saindo das bocas, respiração pesada
Agonia de amar até morrer
E nascer e morrer e nascer e morrer

Cristalizando dores agudas de fagulhas de vidro
Precisa não querer bem
Amar não esquenta o suficiente.
Ninguém sozinho sobrevive ao frio.

19 setembro 2010

Alteridade



Como quem foge dos cães da polícia
Galhos quebrados, rastro nas folhas, pés pisando firmes e fortes
Em algum momento dessa fuga
O cansaço vencerá

As mãos que desenham no ar como um balé
De outro ângulo, são braços de um afogado
Nada da tranquila resiliência
Só um ar a ser respirado a qualquer custo

Escuta os passos de quem chega de madrugada
No escuro da noite dormida
Trazendo cheiro de vinho e as risadas impregnadas na roupa
Prende a lágrima, continua o pesadelo

A porta que leva para outro mundo
Sempre fechada, luz por baixo
Lambe os lábios de desejo
Quer estar lá

Tudo é solidão.

15 setembro 2010

Corte

Ele não aprendeu a lição
Nem apreendeu o que havia nas entrelinhas

Tinha dificuldade para enxergar, sentidos comprometidos, enfim.
Mas o tato, era de super-herói
Sentia na pele os prazeres e as dores.

Ele não sabia falar às vezes
E provavelmente nunca saberá
Nem as melhores escolas
Nem tantos livros

Era só sentir e sentir
Sem nunca entender de onde vinham os estímulos
Rolavam lágrimas como seiva de árvores feridas
Brutalidade

Não sabia chorar
Mas ainda assim, por instinto talvez
Se derramava.

11 setembro 2010

Divagando II

Nomes escritos em árvores, cartas antigas
Tudo que traz nos códigos algum carinho
Disso que estou cheio e disso que sinto falta.

Enquanto no fundo de algum mar distante, peixes se alimentam de plâncton
E simplesmente nadam, de lá pra cá
Minhas memórias se reforçam com cheiros e músicas.
E eu sonho com alguma escuridão que signifique paz

Na minha família todo mundo dorme com alguma luz acesa por perto.
Então só eu apago tudo.

Estou tão livre de novo, que sinto energias fugindo, eletricamente pelo chão
Eu poderia mergulhar fundo em mares de águas claras
Escalar montes e enlouquecer sem dar trabalho a ninguém

Mas lá por dentro do que chamam de alma
Uma força pede prisão e paixão, paixão e prisão
Palavras desconexas e perigosas
Por falar em perigo, "são demais os desta vida para quem tem paixão".
Aí está.

01 setembro 2010

Divagando

Eu concordo
Com o que os poetas falam
Mas sempre torço pra estarmos todos errados

Os muitos sentimentos que afloram
E os que nos perseguem e nos matam em esquinas escuras
São todos eles passageiros, principalmente os bons

Certa vez, num filme que antes era um livro, e etc
Alguém disse que o ser humano é o único animal que vive sabendo que pode perder quem ele ama a qualquer momento.
O ser humano tem muitos pesos para carregar, essa é a verdade.

Tudo que é bonito carrega em si tragédias
Por isso tem poetas que preferem o amor feinho.

O bom de se amargar noites de violência e crueldade
Manhãs de abandono e vazios e tardes de tristeza e letargia
É que nenhuma se repete naquela proporção
Porque já temos os dispositivos
Como naqueles jogos que você tem que pegar o tesouro debaixo do dragão que dorme.

Ontem, voltando pra casa, não vi um buraco e caí na rua
Sem surpresa, já caí antes em outras esferas
Até já sei como proteger os joelhos e a cabeça
Só não sei o coração.

26 agosto 2010

Trincado

Andávamos de mãos dadas na rua
Suspirávamos a mesma poluição
Molhávamos os pés na mesma água fria que corria de uma fonte
Que só nós sabíamos

Diante da grande onda que nos atingiu, os verbos se tornaram em tempo passado
Não fazemos mais nada como antes
Só vejo agora tua estranheza: outro rosto e outra voz.
Não tens mais mão nem pés e nem suspiras mais.
Teu compasso de robô é assustador agora.

Nos perdemos um do outro num enorme clarão de festa
Eu ainda sorria quando notei tua ausência
Fiquei parado esperando, aprendi assim a não me perder de minha mãe quando pequeno.
Mas os rios correram, os ventos voltaram, os carros quase me atropelam.

Tinha um novo caminho para te fazer surpresa.
Deixei cair com o susto
Virou trapo e sarjeta, perdeu o valor e o ouro.
Se choro? sempre por dentro
Calos e mais calos de abandonos anteriores
Fui deixado em todas as instâncias

Te vi dobrando uma esquina por um segundo, o sol era forte
Tal qual o clarão que nos cingiu em mil partes
Tu sorrias, como se nunca antes tivesse chorado
Olhou em minha direção, não me reconheceu

Eu engoli minha sina, meu desfecho particular e irônico
Suspirei agora singular.
Refiz e refaço os mesmos caminhos, agora sozinho e pisando firme

Lembra da fonte que bebíamos?
Secamos.

23 agosto 2010

Para Eu Ser Só

Tudo foi friamente arranjado
Cada guardanapo e cada rotação da terra
Para que eu fosse só um apaixonado

Cada mistério entre o céu e o abismo
Cada máquina ordinária feita pelo homem, cada engrenagem
Tudo rangendo por aí, tudo girando e caindo
E eu somente um poeta

Cada flor dada, cada sorriso, cada beijo, o pão que deixei de comer para te dar
E sou só um cantor

Eu mesmo enchi minha cama de cravos
Eu mesmo, minha culpa minha máxima culpa
Eu abracei pra mim todos os erros do mundo para te inocentar
Fui álibi e testemunha
Quando tudo terminou, eu fui sozinho para casa

Ouvi risos, pareciam vir da cozinha
Sons de pássaros revoando, talheres espalhados
A mesa foi posta para dois lugares, mas sento e vejo o vazio
Por eu ser só um amigo

Os ventos trouxeram papéis e folhas secas
Vi versos que fiz passando por mim, soltos e brancos
Vi teu rosto nítido e de olhos fechados
Um Deus um dia resolveu que eu ia nascer e amar e amar e amar
Para ser só.

21 agosto 2010

Parado

Se te amei é porque um dia
A vida foi de uma cor que me agradou

Hoje é indefinido o cenário
Tudo desafina

Porque amei e amo a ti, a ti, a ti e a ti
É que hoje vejo tudo cinza

E no horizonte, mais dessa cor feia e fria.

18 agosto 2010

Só Sei Cantar

Por eu sempre estar aqui cantando
Após horas e horas de choro sobre travesseiros
É que acredito na força de me recriar

Depois as lágrimas cessam, fica só aquela terrível dor da amargura seca
Saem palavras ríspidas, cortantes e vítimas: resultado de torturas inimagináveis na pobre alma.
Porém após tudo isso eu canto
Teimosa, louca e inutilmente.

Por eu não estar preparado pra mediocridade das pessoas, nem pra minha própria
Eu sempre tenho que me recriar
Por mais que doenças congênitas venham junto.
Consigo cantar

E só o que sei fazer, e consigo, no meu leito de morte
Balbucio fracas notas, sem qualidade alguma
Mas por dentro tenho a maior força e o maior consolo:
"o que me alivia são meus tristes ais"

Por eu sempre sobreviver ao abandono e ao desamor
É que meu canto só tem valor pra mim mesmo
Não tenho platéia nem ensaio nenhuma canção antes.

Então caminhando sobre essas águas turvas
É esse o caminho: quem prometeu não cumpriu
Um novo sonho se desfez, um amor que morre, uma amizade falsa, um fim, um ponto, um coração partido.

E eu cantando, até quando?

17 agosto 2010

Amor Furado

Quem diria
Eu perdendo o sono
Eu perdendo as rédeas
E o bom humor

Perdendo mais um ano
Mais uma juventude cada vez mais breve
Perdendo oportunidades de morrer em paz

Perdendo a paz, enfim
Paz que eu nunca tive, mas sempre fingi ter
Quem diria, eu perdendo o tempo de falar e de calar.

Agora é esperar perder o amor
Mais um que destrói e imobiliza
Quem diria eu quase perdendo a esperança
De acreditar na vida
Essa vida ruim, de lágrima todo dia.

Ainda assim, melhor perder o amor que a vida.
Afinal, os dois não são a mesma coisa.

15 agosto 2010

Um Texto Realmente Feliz

Ok.
Você venceu
Agora que entrei em casa, posso tomar meu banho em paz
E preparar um leite quente
Com conhaque, se tiver
E ver tv.

E assim ser feliz.

Mesmo não gostando da programação do dia
Nem de leite, nem de conhaque
Nem de estar sozinho
Nem de tomar banho em paz

Que eu ame guerras, nunca as terei
Que eu ame peças de teatro e filmes no cinema
Nunca serei platéia
Que eu gostasse dos teus olhos castanhos, verdes, ou pretos
Nunca fui visto por eles.
Que eu adore mensagens ao celular
Ninguém sabe meu número
Que eu ame a noite e os sons que fluem dela
Que eu ame as pessoas e suas estranhas manias
Tudo que eu amo, foge e se esfumaça

Estou feliz tomando leite e olhando a tv.
(tela cinza muda e cega!!!)
Esqueci de ligá-la.

Pronto, agora sim, um desenho animado.
Devo rir
É o que todo mundo espera de mim agora:
Que eu sorria vendo isso.

Ok, vocês venceram.
Vejam como estou feliz, rindo de um rato que tripudia de um gato.

12 agosto 2010

Contrações



Como me dói toda a cidade
Com seus prédios e os vidros das janelas
E as luzes
E as pessoas que a gente perde
As pessoas que a gente nunca teve
Todos os buracos vazios e as tampas dos esgotos
Como é solitário voltar pra casa todo dia
Da labuta diária de perdas e danos
De notícias ruins e de gritos ásperos
De gestos de mãos frias e que apontam para outro lado
Quero tanto abraços quanto ficar sozinho
Após a cidade deve haver um grande campo
Para onde se vai quando se quer desaparecer
O amor de anos a fio, acabou
Outros tantos nem começaram
Alguns amigos sumiram
As flores dão espinhos hostis, o pássaro voou
Nenhum animal quer ser domesticado
Não farei mais festas
Não cantarei certas canções
Darei sorrisos repetidos, lembranças de uma infância, talvez
Nada atual
Todo santo dia, nessa cidade, há um pouco de morte
A minha, claro
Um dia mais, outro menos
Mas sempre há o mesmo choro
Que viaja por cada calçada onde ando.
Me segue até em casa, deságua em travesseiros e chuveiros
E renasce cada vez mais forte, com a manhã que cruel
também é promessa de liberdade.
E quem sabe, paz.

Às Cegas

O que há por trás dessa porta?
Por que todo esse silêncio?
Onde guardo os pratos?
Onde escondo os cacos do prato?

Para onde vou agora?
Devo ficar ou seguir adiante?
Visto preto ou azul?
Importa?

As paredes, o teto
Tudo de um azul tão sereno
Os móveis, os sofás são todos confortáveis
As camas quentes
Todos estão felizes

Onde acendo a luz?
Para quem entrego essa flor?
Quem vai comprar o que eu vendo?
Meu aniversário está perto?

Quando meus ausentes chegam?

Da outra vez, eu deixei a sala
E ninguém notou

09 agosto 2010

Episódio Final



Meus segredos acabaram
Outros capítulos de novela virão
Sem reviravoltas, sem casamento nem gravidez
Aqui os vilões são recompensados e o sofrimento dos mocinhos continua após os créditos subirem.

Os atores se despem do papel mas continuam padecendo.
Nada no mundo consegue ser diferente da vida.

Meu cansaço chega longe, estrada eterna de poeira
Versos e mais versos, varridos e reciclados
Todas aquelas manhãs que acordei e vi o céu azul
Eu desejava inventar um novo prazer

Eu enganei meus próprios segredos
Perdi meu controle remoto, não sei (me) desligar

Não sei interpretar um papel sequer, nem de bêbado, nem de mocinho, nem de vilão, nem um personagem de Shakespeare. Nenhuma palavra em minha boca é convincente.

Não sei amar, nem sei não-amar
Sei dizer as palavras erradas, sei ser a pessoa errada na hora errada.
Na hora certa, eu não nasci ainda.

Não sei estar cansado, mas estou
E é desconcertante não saber fechar os olhos para dormir
A vida parece tão longa de estrada de poesia de poeira de dor de pó de amor

As poesias parecem tão longas, também

Poesias...
Inúteis.
Sempre foram.

07 agosto 2010

Desabafo Cego de Lágrimas

Dessa vez é pra valer:
Adeus
Dói tanto dizer isso, mas, chega.

E não, não te perdôo por nada
Não esqueço nada
Terei sempre lembranças ruins
e chorarei ao ouvir teu nome

Me arrepend0 do dia que te conheci
E do dia que nasci também.

Me arrependo por te amar
E por cada palavra de amor dirigida a ti
E por cada gesto de carinho

Tudo em vão
Tanto amor acabou em nada
Tanto amor foi revertido em nada
Em menos que nada
Em dor, em desprezo, em mentira.

Dessa vez foi pra valer: adeus
Como devia ter sido antes

Melhor olhar o mar, enorme, azul e solitário
Melhor chorar vendo a lua branca e virgem
Melhor morrer e ser abraçado pela terra e seus vermes
Do que um dia, ter te amado

Vá ao inferno e fique por lá.

03 agosto 2010

Mais um Adeus de Até Logo.

Quando a dor é muita
As palavras somem, covardes.

Aqui são algumas que catei nos cantos e quinas
E atrás dos móveis.

É preciso ter dentro da gente um mundo
Com pessoas, lugares, Deus.
Porque no mundo de aqui fora, se torna impossível viver às vezes
As pessoas de fora tornam-se estranhas completas
Frutos da total falta de preocupação e amor.

Ou estaria eu com Alzheimer?

Porque não reconheço nenhum dos rostos como amigáveis.
E tenho lembrança de pessoas que me conhecem, mas que acabaram de pegar um avião
Ou outra que está calada há anos.

Não posso recorrer a elas.
Então há o outro mundo.
Mas lá é tão solitário quanto
Sou só eu ou todo ser humano?
Os filósofos já falaram tanto disso, mas não li o suficiente.

O motivo da dor é quando morrem as pessoas
Ou o amor por elas, ou o carinho por elas
Ou os sonhos com elas.
E o pior mesmo, é quando morrem as pessoas e ficam os sentimentos.

O velho amor não correspondido.
Minha eterna sina.

"As coisas deveriam morrer, antes de ficar por aí, perambulando mortas."

31 julho 2010

Urgente

"A mim,

Caro eu mesmo.
Favor não ceder a olhos brilhantes, nem ao espelho.
Cumprir as obrigações e resolver as pendências.
Despir-se de todo e qualquer amor latente, sua saúde não é das melhores.
É seguro respeitar as mágoas, elas te salvarão.

Não acredite em estranhos, e principalmente
Identifique quem são os estranhos.

E o mais importante: não volte no tempo.
Os dinossauros foram extintos e você vai na mesma onda.

Sabemos que é difícil partir, mas chegar não está em suas mãos.
Apenas respeite o rancor que sentes.
Não ligue pros discursos de perdão e tolerância:
Já morreste antes. Sabes como é.
A dor e tudo mais.

Escrevi mais do que queria: mas você seja breve em tudo
O que importa é sobreviver.
Não escute as bobagens brancas ou azuis, escute o seu coração em pedaços.
Ele é o melhor exemplo e mais morta testemunha.

Não esqueça de se proteger da chuva, do calor e do vento tão agressivo.
Se feche na concha se precisar
Não corrija o português desse texto, nem passe suas roupas com cuidado.
Simplesmente caminhe e cante.
Prometa que vai nos deixar em paz dessa vez, sim?
Sei que você sabe o que fazer, desculpe os conselhos inúteis.
Sei também que dessa vez haverão menos lágrimas.

Não se sinta triste louco e só.
Eu, pelo menos, te amo."

27 julho 2010

Náufrago


Numa ilha
Palmeiras tropicais
Mares infestados de tubarões
Perfumes noturnos
Uma ou duas estrelas

Tudo tão bonito e triste
Uma lua enorme e branca, pra quê?
Pra nada, iluminar caminho algum.
É uma ilha.

Ninguém que vista linho branco
Nenhum cabelo ao vento, nenhuma voz
Sempre a voz.
Tudo tão azul e surdo.

Um navio ao longe? Não, resquícios de um sonho
Que tive semana passada
Quando ainda era dia
E eu tinha remos (lembra deles?)
Podia fugir e teria chegado são e salvo.
Chegado onde?
Não há onde ir. Os portos fecharam.
Tenho âncoras nos pés.

Quero enviar uma mensagem para ti numa garrafa
Dizendo "eu só queria um pouco de amor"
Mas vim parar na ilha, virei selvagem

Tudo tão urgente e distante.
Se eu fechar os olhos, fizer um pedido
Tudo que é triste vai sorrir?
Não.

Não sei nadar
E tenho âncoras nos pés.

25 julho 2010

Canto de Temor e Saudade




Era manhã, e sempre sou desapercebido.
Entrei na cozinha e ouvi, sobre minha cabeça, um barulho de flauta viva.

Demorei pra entender o que eu via e ouvia, palavras me vieram à cabeça:
ave, pássaro.
Mas nada disso, de forma alguma
O nome é passarinho.

Amarelo, pequeno e canoro.

Alguém o pusera ali, dentro da gaiola, a própria gaiola que eu jamais tinha visto antes.
E ele parecia tilintar, era uma pepita.
E olhei seu bico e os olhinhos e me senti tonto de alguma emoção fugidia.
Dormi dias e o vi de novo, veio pra ficar.
E cantava, como se soubesse que é a única linguagem que entendo.

Passarinho, passarinho, quanto mais eu o chamava mais minha voz era quente e cheia de rios.
Paixão louca por aquele pequeno ser.
O mistério era a gaiola aberta, e ele não voar, fugir.
Imaginei que alguma coisa nele estava quebrada. A asa?
Ou algo por dentro.

Todo dia eu vejo, escuto o passarinho.
É o que existe de mais amarelo e vibrante em minha casa.
Às vezes digo "meu passarinho" e as palavras soam tristes e mentirosas.
O meu amor só é prisão pra mim mesmo.
Tudo o mais que amo voa por aí.

Tenho medo egoísta que ele se cure, ou descubra a porta aberta, confesso.

Um dia a gaiola estará vazia, e eu também.
Desejo por segundos, nunca ter escutado o primeiro e agudo som.
Nunca ter amado o passarinho, passarinho.
Que quer crescer, leio no modo como gira a cabeça
E nas notas que ele entoa quando está distraído

Pois não vou impedir, que cresça, que se cure, que saiba da porta aberta, que voe, que acabe nas garras de um felino ou outro predador.
Mas rezo, enquanto ele canta, que se voar dali, saiba do limoeiro que cresce junto à janela do meu quarto.
E onde haverá sempre água, alpiste e uma voz desafinada que inveja seus trinados.

17 julho 2010

Restante

Nesta hora, todos saíram
Alguns pediram carona, uns estão dormindo
Uns caminham a pé, outros dirigem
Uns comemoram, outros olham pela janela solitários

Nesse exato momento uns correm, debandam, deixam a cidade
Apertam o cinto de segurança, embarcam em um avião
Pulam de pontes, se embriagam e dormem no colo de seus amores
Uns tomam um susto e outros baixam a cabeça decepcionados
Perdem a fé, enquanto outros enlouquecem

Uns guardam segredo, outros são mistérios, outros desabafam e muitos falam demais
Uns se calam, outros pra sempre, nesse momento um perdoa e outro é perdoado
Agora alguém se enche de uma mágoa que será eterna.

Há um minuto atrás alguém foi esquecido numa estrada escura
Alguém foi deixado sozinho no meio da vida
Alguém acordou e não sabe onde está
Alguém perdeu a visão, outro os sentidos, outros perderam o amor
Existe alguém que perdeu tudo isso

Em breve alguém se cansará de esperar
Outro venderá seu violão.
Um que limpará as lágrimas na própria camisa
Por falta de lenço e de consolo

Uns nessa noite sentem esperanças e ficam tristes porque ela não os deixa desistir
Outros desistem
Uns chamam, e uns não respondem.
Nessa hora tudo é vazio

Uns se arrependem, outros decidem tudo errado
Há alguém cantando e há alguém escutando
Há alguém que lê e alguém que escreve
Há alguém sendo enganado, há alguém rindo da piada
Há um plano secreto e alguém o executa
Nesse tempo há alguém que foge de si mesmo
E há um amor que se acaba.

No instante seguinte alguém já viveu, já amou e já morreu
No próximo minuto haverá uma vítima, um carrasco, uma testemunha
No presente momento há toda essa gente escondida em seus quartos, salas e bares
E há alguém, sozinho sem nem mesmo seus fantasmas
Que foram exorcizados na hora errada
Quando mais se precisava de companhia

Já que nesta hora, todos fugiram
E não há carne e osso que baste
E que salve o solitário nesse minuto
De contar seus mortos.





16 julho 2010

Silencioso

Deus quando ouvir minhas preces
Terá bastante trabalho em catalogá-las

Peço tudo tão simples, que chega a ser aviltante.
Mas nas simplicidades existem os prazeres de inúmeros filamentos brilhantes.

O fato é que o chão e o teto é tão difícil de se ter quanto um lustre de cristal ou um papel de parede raro.
O chão e o teto, maior ambição de quem quer paz.

Vivemos em frequentes brigas de trânsito.
As ruas nunca estão liberadas para nós.
Pedir uma estrada de terra faz parte dos meus planos

Uma estrada de terra, distante e deserta
Uma lua acima de palmeiras
Um abrigo (teu) um colo (teu)
Algum abrigo, algum colo
Algum conforto ao dormir, ao morrer
Uma vida que tenha sinos tocando de vez em quando.
E o fim desse sorriso desanimado.
É (só) tudo isso que peço.

13 julho 2010

Pequeno Desabafo de Madrugada ou Cansaço Enfim.


Sabemos o que é lutar por alguém
Se dedicar
Tratar com carinho
Querer bem
Elogiar
Ver detalhes
Querer cuidar
Se preocupar
Se importar
Fazer rir
Estar presente
Tentar entender
Tentar consolar

Mas amar?!
Com essas portas fechadas?!

11 julho 2010

Buscando Água


Quero uma surpresa:
Sendo meu próprio Papai Noel, não espero o Natal
Me dou algo muito parecido com uma flor
Branca, de perfume doce, e cresce nos escuros espaços entre a alma e o corpo.

"Porque Papai Noel não existe, é só um velho com aquela roupa"
Minha sobrinha pequena me disse, satisfeita por não estar sendo enganada desde cedo.
Quase acrescento: "pois alguns nem velhos são"

Eu deveria esperar dezembro pra falar disso, mas nada tem a ver com as festas natalinas.
Tem a ver com o nascimento em pleno julho da minha flor branca, de cacto, em meio a espinhos.
A gente tem que armazenar de alguma forma a água, para quando vier a seca.

Quando vier a realidade nua e crua, a ordem de despejo, o litígio e a morte
Quando quem você ama te esquecer num ponto de táxi qualquer
Quando as vassouras levantarem a tua poeira
E quando pingarem iodo em tua ferida
Temos de ter água para beber

Tanta amargura, e ainda assim existem as flores brancas e as surpresas
E os pequenos e particulares natais acontecem, em um solitário dia de domingo.

Prêmio Dardos


"Com o Prêmio Dardos se reconhece os valores que cada blogueiro mostra cada dia em seu empenho por transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais etc., que, em suma, demonstram sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre suas letras, entre suas palavras."




Fico muito satisfeito em saber do reconhecimento de outros que como eu, amam as palavras e as coisas que elas dizem.

Faz parte da brincadeira a gente premiar alguns blogs que a gente gosta, então lá vai:

- Sonhos Lúcidos
http://liainfinitoparticular.blogspot.com/
Textos de uma delicadeza e força ímpares, tudo da Lia.

- Mundos Castanhos
http://versoscastanhos.blogspot.com/
Do Bruno Mariano, que simplesmente quis escrever e foi e fez.

- [G]Rito de Passagem
http://gritodepassagem.blogspot.com/
Marina Leitão sendo plena em seu encanto

- Caneta Insone
http://canetainsone.blogspot.com/
Pungentes e verdadeiras palavras de Luis Arthur Costa

- Despoesia
http://desposeia.wordpress.com/
De Plínio Renan, artista fazendo arte.

- Wild Horses
http://alphaeridani.blogspot.com/
Inteligência e sensibilidade de Manuely Silva

06 julho 2010

Inerte

A sensação é que tudo já foi dito
E talvez tenha sido

Hoje me desarmo das palavras pra dizer:
Esse texto que escrevo é simples e pobre.

Mas é assim que ficam os corações quando recomeçam.
A amar e a esquecer.
Ao mesmo tempo.

Cada vírgula é imprópria
As páginas em branco estão por dentro de mim.
E elas não passam de borrões e rascunhos.

Aquele familiar gosto doce de mágoa
Fazendo minha boca salivar
E os olhos fazerem o que mais sabem: lágrimas

Um texto pífio de lamento e desordem
A tendência de um corpo cansado de navegar
Por mares salgados

Uns olhos sem brilho, uma voz rouca
Um grito de carinho preso na garganta
Se recusando a ser engolido.

Quem sabe, nesse exato momento
Eu esteja desistindo de ser poeta
E sendo apenas um sofredor comum
Sem nenhum charme
E contas a pagar

03 julho 2010

Ciência

Participem ao mundo os segredos
Que existem dentro das nozes
Dentro das coisas ôcas

Informem aos sobreviventes a dívida que terão de acertar
Divulguem o local do túmulo, coloquem maçanetas nas tampas
Para que os próprios mortos possam se trancar.

Revelem que não é segura a primeira rua à esquerda
Digam que a faixa de pedestres sumiu com o tempo

Escondam as tesouras e facas amoladas recentemente
Mostrem os selos de segurança e as caveiras nos venenos

Eduquem os corações para as noites solitárias nas grandes cidades
E organizem os rumores das rezas à luz de candeeiros nas pequenas vilas.

Apaguem velas, queimem incenso
Joguem fora o almoço de hoje
Deem as pérolas aos porcos

Anunciem como se lêem pensamentos
Cacem as bruxas e reservem um lugar para elas nas torres altas
Cancelem a festa de aniversário
Atualizem os romances
Sinalizem a saída de emergência, quando houver

Esclareçam as letras miúdas dos contratos
Decodifiquem as bulas de remédio
Esqueçam o mal que o sol faz à pele
Desistam de ver a lua cheia

Seria tão mais fácil se tudo fosse à luz clara
Se soubéssemos do teto condenado a cair
Sobre nossas cabeças de cabelos fracos
De pensamentos tristes e juvenis
E nossos corpos tensos e cheios de boas e más intenções

Pela última vez
Avisem aos próximos
Que alguém retirou as placas de perigo
E minou o terreno.

28 junho 2010

Infeliz Palavra de Ordem.



Esquecer o barulho que o mar faz
Esquecer que é amarelado o fim da tarde
Esquecer o sabor dos macarrões
Esquecer o caminho da sua casa
Esquecer o filme do cinema
Esquecer.

Esquecer a âncora
Esquecer o guarda chuva
Esquecer as chaves de casa
Esquecer os óculos
Esquecer a letra da música
Esquecer o tema da poesia

Esquecer a dança
Esquecer o passo
Esquecer o ritmo
Esquecer a lágrima
Esquecer o céu
Esquecer a lua
E as estrelas

Esquecer a beleza
Esquecer teus olhos
Esquecer tua voz
Esquecer teus cheiros
Esquecer o fio branco
Esquecer o sapato de cristal

Esquecer o amor
Esquecer a raiva
Esquecer o perdão
Esquecer o livro
Esquecer tua mão
Esquecer tua ajuda
Esquecer tua tristeza

Esquecer teu deus
Esquecer tua paz
E tua alegria
Esquecer teu nome

E esquecer de chorar
E esquecer de te ver
E esquecer de viver
E esquecer de parar
De esquecer.

Triste, eu lembro o barulho que amar faz.

27 junho 2010

Solitária Mente



Frequentemente
Escolho os versos
Repasso as memórias
Desfaço os laços
Afasto o prato

Dolorosamente
Relembro a partida
Revejo a chegada
Escrevo o vazio

Preciosamente
Seguro o choro
Solto o riso
Fecho os olhos
Disfarço o grito

Silenciosamente
Entendo o sonho
Reviro do avesso
Releio a poesia
Escuto o adeus

Ultimamente
Pego no tranco
Piso as calçadas
Canto os sambas
Durmo as óperas
Visto o véu
Abro a porta
Descubro horizontes
Esqueço um rosto
Suspiro por uma voz
Guardo o segredo
Amo o que nunca será.

26 junho 2010

Avant


Nunca desfiz as tais malas
Não uso nada que está lá dentro
Não passou por quarentena

As bases militares de todo o mundo
Não se interessaram por elas

Todo fim é assimétrico.

Minha mania de pôr a cereja no centro do bolo acabou.

Mas o fato é que o presente não faz, entretanto, o menor sentido.

As histórias se repetem, com novos nomes e lugares..
Não, me recuso.

Bom, como não tenho poetas à minha disposição, eu mesmo tenho que falar das feras que estão soltas:
Esqueci quem eu tinha de esquecer, trabalho árduo de anos, clínicas e mais clínicas de reabilitação no quintal de casa.
E agora? olho para mãos vazias e sei que nunca gostei de ver mãos vazias.
O que há para além do amor?
mesas de bar? divãs? palcos? noites insones?

Mas vou ser doce, porque quero que se alguém que eu amo ler isso, me escute doce.
Olha, todas as vezes que eu cantar e não souber onde pôr as mãos.
É de tanto amor, desconcertante.
Sempre que eu acordo, no pólo norte, eu penso em você no pólo sul.
Que fica a algumas quadras de distãncia

E aquela mala radioativa
Quase extra terrestre
O governo americano que se encarregue.

Meu presente sem formas, desafio para arquitetos, físicos e matemáticos
Ainda que com cores repetidas das solidões que já vivi antes,
É todo feito de fumaças.

Nem eu mesmo o tomo pra mim.
E isso me deixa livre
E doce, caso alguém que eu ame, leia.

22 junho 2010

Céu Cinza e Um Zumbido

A notícia diz que o tornado arrancou o teto de casas, igrejas e escolas.

Às vezes consigo ver minha cama levada por enxurradas.
Meu brinquedo que perdi na mudança
Uma tragédia

Que trago na voz, das perdas do passado?
A própria voz, eu diria.
A cor escura dos cabelos, antes claros.
Sempre insisto nisso.

A última vez que eu quis cuidar de alguém,
Senti frio intenso por ver perder.
A terrível imagem do vulto sumindo na poeira.

Ganhei um cacto. E sei que ele mal precisa de mim.
Fico olhando os espinhos e sua forma torta:
Mal precisa de mim.
E não passo de um inútil que o observa.
Não sei amar assim: meu ato é pegar pela mão e apontar caminhos

Mas mal precisam de mim.
Embora depois morram como um cacto (sim, porque cactos também morrem)
Que não passam de flor delicada.
Orquídeas com espinhos.

No rodapé do mundo, estou eu.
Torto em busca do sol.
Esperando a manchete do dia
Que fale que a minha casa foi vendida ontem.
Que me mudei para outro país
E vivo numa casa branca, chão de areia, e me alimento de peixe e frutas.
E não amo sequer o vento que entra pelos meus janelões.

E com a voz carregada de passado, eu só falo do presente.
Que é tão igual
Os mesmos sustos, o mesmo frio, o mesmo barulho de chave na fechadura.
Impiedade.
É a última vez que vou beijar alguém
Com o carinho de ontem.

Sou meu próprio brinquedo, essa é a verdade.
Mal preciso de mim.

Eu vi e continuo vendo o tornado ir e voltar.

19 junho 2010

Mais uma Flor.

Preciso que a música pare, então consigo te dizer umas palavras.

A solidão é, por si só, um destino.
Se eu nunca mais dormir cedo, entenderei os buracos negros do universo.
Mas tudo que eu quero agora é saber onde você passou o dia.

Que pensamentos teve, o que sentiu quando abriu os olhos e viu a luz do sol.

Vai chegar um tempo, em que nenhuma palavra minha será para ti.
Que escreverei sobre flores, pássaros e raízes.

Mas já agora, sei que você não usa uma letra sequer que eu digo.
Recolho tudo do chão, minha cesta é branca e amarela.
De longe, parece que levo margaridas.

Nos vejo dois seres solitários, um mais que o outro, porém sonhadores.
Para não dizer sonhantes, que é mais apropriado, porém sei que essa palavra não existe.

Mas metade do que existe não é visto, nem sabido.
Quanta coisa eu não sei, e existe.
Tudo que existe em mim, e você não sabe.

Preciso saber o que você pensou antes de abrir a porta de casa hoje.
E saber a razão das suas mais recentes lágrimas.
Preciso saber apenas para que assim, oficialmente, existam as palavras que quero inventar

Para que me entendas, finalmente.
E que na noite mais solitária, o sonho vire realidade.
Se for um bom sonho
E a música recomece
E pelo menos um de nós saiba do que existe e do que precisamos.

14 junho 2010

Olha (II)

Falta pouco para tudo acabar
Já vejo o sentimento sendo engolido pela multidão

Não passo de mais um refugiado
Habitando porões mais uma vez.

Um dia você me encontrará em meio a cobertores
Com o rosto sujo de fuligem, e os olhos assustados
Porém ao ver a porta aberta, fugirei
E você nunca mais me verá vulnerável

Há no mercado uma máquina
Que reinventa o usuário.
A partir da sétima vez que a máquina for acionada
A gente sai dela outra pessoa

Não é tudo que vai acabar
Só o que importa realmente
As coisas supérfluas e intangíveis, as espumas, continuarão

E um dia você ainda me verá
O mesmo de sempre
Ainda que saindo setenta vezes da máquina
Que em um determinado ponto
Faz a gente voltar a ser o que era no começo.

Mas aquele porão que habitei,
Só foi meu lar por um único dia
O suficiente para me sujar de fuligem e assustar meus olhos.

Mas nada que a máquina não resolva.

Talvez hoje exista a solidão
Porque você entendeu a engenhosidade da máquina
Como uma caixa de Pandora que liberta males.

Tudo isso porque:
Um dia você me viu
E olhou para o outro lado.

13 junho 2010

Olha.


Um dia você me verá
Talvez longe, caminhando sobre brancas areias de uma duna.

Um dia você olhará ao redor
E encontrará meus vestígios.

Olhará sua cabeceira e verá meu sinal.
Estive lá, o tempo todo.
Surpreendentemente belo
Visível, paupável, e plenamente amável.

Um dia você lerá meus escritos
Ouvirá meu choro, sentirá saudade.
Um dia você vai querer que alguém diga
Que você emagreceu, que seu café está forte, que seu coração é bondoso
E notará que era eu quem dizia
Todos os mantras
E ouvirá meus silêncios

Um dia você sentirá falta de algo
E saberá que o que falta
É meu olhar para ti
É minha oração pra que Deus te proteja
E minhas recomendações
De que não esqueças o guarda chuva
Porque o céu está cinza.

Um dia você terá vontade de me contar algo
De me mostrar uma música
De me chamar pra ver o sol nascer

Um dia você me verá.

E nesse dia, que não seja tarde demais,

Dependendo da poesia
Dependendo do desejo
Dependendo da lição aprendida
Dependendo do lugar e da hora
Você entenderá o que escrevo
E minhas respirações suspensas.

11 junho 2010

Ti


Meu corpo todo inspira cuidados.
Cada olhar meu para ti
Chora, canta, reza uma ave maria

Olha por mim, pecador até na hora de nossa morte
Se uma flor surge de um jardim secreto
É bom guardá-la em um de teus muitos livros

Meus olhos se derramam a cada clarão mais forte
Nas trevas que seguem, eles brilham como um felino na caverna
Te espionam, vítima

Voltam as nuvens, aquelas em formato de coelhos e aviões
E eu dançaria se soubesse, em meio a um descampado
Se houvessem descampados
Mas as flores estão por toda parte, e árvores altas

Se chove, vejo as lágrimas caindo do céu:
Porque não sorris comigo?
Antes do eclipse, me dá tua mão!
Ou simplesmente dormes em paz
E minha noite vira dia.

A última palavra que te digo volta pra dentro de mim
Pra que o sabor das coisas doces da vida
Não se torne amargo jamais
E eu mantenha o sorriso congelado
Os olhos brilhando como vidro
Os braços abertos , as mãos cheias de calor
O coração puro

E amém.

10 junho 2010

Nenhuma Chuva


Alguém ri.
Alguém desencoraja.
Alguém despreza.
Alguém balança a cabeça em desaprovação.
Alguém sorri com pena.
Alguém se irrita.
Alguém tenta convencê-lo do contário.
Alguém é irônico.
Alguém o subjuga.
Alguém desiste.
Alguém manda esquecer.
Alguém espera esquecer.
Alguém se cala.
Alguém prevê futuro.
Alguém o acha tolo.
Alguém o acha louco.
Alguém o acha nada.
Alguém não sabe de nada.

08 junho 2010

Moto Contínuo

Desde a primeira vez que a engrenagem da vida começou a ranger
O barulho inicialmente era quase insuportável.
Nenhum óleo resolvia.

Hoje os barulhos do trânsito e da cidade são maiores.
Abafam ruídos e as sombras dos prédios ocultam o gesto de carinho.
A entrega de uma flor

Onde caminharemos, sozinhos, se os espaços estão preenchidos?
Porque sempre chegamos depois?

A imagem da formiga que vai decidida voltar ao formigueiro com sua folhinha nas costas, mas a entrada está tapada.
Quem nunca viu a movimentação firme e rápida? Vai e volta, tenta e volta. E agora??
Ela procura outros caminhos. Parece automática.
Mas sabe-se lá as angústias que deve sentir.

Mas falei da formiga pra perguntar:
Que faço com esta folha que eu carregava?
Pesada e verde de esperança?
Não vamos mais devorá-la numa noite quente ou de chuva.
Nada de manhãs confortáveis.
Nada de remédio para a solidão.

Porque andamos sozinhos?

Meu cemitério de folhas e paixões.

De madrugada, quando tudo mais silencia.
Escuto amargo o ranger da engrenagem.
Penso que finalmente vai quebrar.

Mas só os amores morrem.

06 junho 2010

Desbotada

Pego aquela antiga esperança que estava no cesto de roupa velha
Basta ser costurada novamente
Não me cabe mais, mas talvez eu emagreça.

Todo dia de manhã, ela na ponta dos pés olhava a rua
A janela foi um erro de cálculo, ficou alta demais
Os vizinhos esperavam dela o cheiro de café
Quando soube disso, ela passou a fazer chá.

De noite ela se cobria toda na cama
Nada ficava de fora. O gato a procurava e não a via.
Não era esconderijo, era aconchego.
Mas ela não percebia o quanto os outros precisavam vê-la.

De tarde ela não existia, seus vestidos verdes ficavam pendurados no varal, sem dona.
Nunca foi vista na hora que o sol se põe.

Sonhei com lares melhores para minha esperança de menino
do que um velho cesto de roupas.
Mas sua traquinagem e sumiços ocasionais, levaram-na ao desuso.
Aprende a lição agora, verdinha.
Recupera tua cor.
Que eu faço a minha parte.

Paixão Até Ontem.

Minha nova paixão
Tem cor âmbar
Mal vislumbro os contornos
Porque sempre fui de cores fortes e quentes.

Tem pontos e vírgulas
E uma cadência no falar
Com um sopro rouco no fim das frases
Mal escuto as consoantes
Que sempre foram meus obstáculos

Tem nas mãos um suor constante
De gente viva, de emoção, de querer ter
Mal percebo as marcas que deixa em tudo que toca
Porque marcas ainda me assustam

Tem uma casa na floresta
Encantada. Unicórnios vão beber no seu lago particular.
Mal acordo do sonho e já ouço tropéis e clarins.
Sempre volto a dormir até que o próprio sol me acorde.

Tem todas as cicatrizes e sinais que gosto
Tatuagens invisíveis que denunciam belezas e promessas de afago.
Mal descubro as imperfeições na pele, nem nos lábios
Porque não sei diferenciar o perfeito do não perfeito

Tem o cheiro do oceano e do sertão
Dos navios naufragados e do cansaço de léguas ao sol
Mal catalogo as fragâncias porque são todas
E meus rascunhos são feitos em qualquer papel, que acabo perdendo na bagunça que sou.

Tem as horas todas, cada ponteiro do relógio a seu favor
Todas as rotas de caminhões lotados de cargas, apressados em chegar ao destino final.
Tem as areias do tempo e prazos
Mal escuto o tic tac,
Pois minha única opção é o esperar, doce.

Minha paixão tem outra paixão
Arco e flecha, carrossel de um velho parque abandonado
Range, dá choques, descasca a pintura, mas roda.
Tem um olho que não me vê, tem ouvidos surdos para meu registro vocal.
Tem um plano que não me inclui.
Mal engulo o pão de cada dia e o olhar não dirigido.
A ausência sempre presente.
Que mastigo sentindo cada sabor.

Reúne todos os cheiros, as cores claras, as marcas, os parágrafos, os elfos e fadas
Cada consoante difícil de dizer e cada cálculo impossível.
Cada linha do passado e cada pôr de sol de hoje.
Cada gosto de sal de lágrimas e cada uma das cores da minha velha aquarela
Cada futuro coberto de açúcar ou de incertezas.
Mastigo como uma fruta vermelha, cor quente que sempre tive.
É a cor do sumo que escorre pelo meu queixo.

Quando mastigo
E mal engulo.
E me novo apaixono e enquanto não desisto de todo, olho além
E dessa vez não morro.

01 junho 2010

Eu, Hoje.


Me derramo como um rio pra dentro de mim mesmo.
Meu carinho é sabor de hortelã
E eu gozo com essa refrescância.

Outrora falei de serenidade
Mas era cheia de mágoas
Agora é que nem chuva de rosas

No dia que me espantei com o azul do céu
Não esperava uma cor tão forte e natural
Sempre penso em tinta.

Evito olhar para a parte de mim que chora
meu rio é caudaloso, e agora inventei de ter peixes
São translúcidos e pequenos, brilham e não tem memória
Nada de monstros marinhos

A parte de mim que chora é a mesma que acorda de manhã atônita:
A vida começou faz tempo!
Só vou usar urucum pra pintar qualquer coisa que eu queira que pareça sangue.
Aprendi com o céu a sorrir, ainda que de um cinza solitário.

Por falar em solidão, navego em meu próprio rio.
Vai dar no mar, cheio de sal e vida.
Olho os remos e penso: - Por favor, me levem de volta!
Mas não escutam, nem meus braços, nem a correnteza.

Na verdade, eu quero ir.

19 maio 2010

Hora Nenhuma.

Até ontem a estrada era azul
E os ponteiros do relógio marcavam sempre sete horas.
horas de um passado que mal se corrigiu.

Ontem mesmo era cedo para sonhos
Raios de sol fraquíssimos davam a bênção.
Hoje anoiteceu, e nas estrelas, liberdade.

Até ontem, passos foram dados e tropeções eram bem vindos
Agora os pés descansam sobre sofás, descalços.
As mãos que gesticulavam loucas, hoje tocam violão.
Unhas inteiras, acordes maiores.

Ontem ainda se ouvia o pássaro cantando na gaiola
Doce, longe, triste, amarelo.
Ainda se ouvem assobios, bichos das florestas
Mais do que nunca as flores se abrem.

Tanta doçura dispenso ao hoje, esse presente momento que, sorrindo, vejo escorregar
Pobre ontem que vai no trem levando consigo aqueles cabelos negros e olhos ingênuos que me mataram.
Adeus, corre pra longe de mim.
Lá, onde o trem vai, cantam os tais pássaros amarelos.
Tão alto, tão doce, tão triste, que não me permitirão ouvir tua voz me chamando.

Hoje, para minha felicidade, é tarde demais.

17 maio 2010

Fronteira.

Deveria ter um ritmo minhas palavras
mas cansa.

Melhor algo leve.
O silêncio.

Então posso começar pensando numa palavra que descreva
A solidão.

Melhor algo mais doce:
rugas ao redor dos olhos.

Todo texto de amor parece lamento penoso de louco em camisa de força.
Hoje liberto, faço costuras em outras roupas, quero mover os braços.

Eu deveria dizer para quem escrevo
Mas é tão bom não-amar

Melhor mentir.

Não preciso que ninguem me ensine a mexer nos eletrodomésticos
Fiquei moderno, sei apertar os botões certos.

Esse é o texto mais triste que escrevi na vida.
Mas acabou.

16 maio 2010

Fosco


O vidro que há nas coisas.
Só eu vejo a fria transparência?
Pois existe, e é triste e duro como alguém ao fim de um amor.

Mas há, digo a vocês, há um vidro nas coisas.
E nas pessoas, nem preciso explicar.
Em tudo, há O vidro.
"Redoma" é um nome. Juro.

Todos os olhares gulosos, sedentos e suplicantes através de vitrines.
Lá, quando se tinham cachos e laços nos cabelos, já havia o vidro.
Inquebrável.
Inquebrantável, e não significa a mesma coisa.

A solidão chega na poltrona do cinema.
Na fila do banco.
No pomar.
O vidro que há nas coisas.

Mas guarde martelos, o estilhaço é pior.

10 maio 2010

Sem Pensar

Nunca desisti de nenhum sorriso
Brilho de suor no alto de testas.
Amigos amam levemente

O som da voz, coisa íntima.
Ossos visíveis, na nuca, no colo, no cotovelo.
Detalhe de gente
Amigos veem de perto.

A palavra "amor" passa a ser proibida a partir de agora
Estou leve demais para usá-la.

O olho. As partes do olho que não sei o nome.
Íris, córnea, cristalino, pupila... que mais?
Quero identificar tudo em teu olho.
As cores.

Tem os dentes, mas já falei de ossos.
Tem a alma, mas já falei que sou leve.

Tem o pensamento, mas é outra camada da terra.
Estratosfera, mesosfera... o que mais?

Em um pedaço de papel escrevi uma palavra de seis letras e coloquei no meu porta-retrato.
Não é simpatia nem feitiço: é melhor que foto.

Nunca resisti ao som do meu próprio nome,
Quando dito com carinho.
Viro criança de novo, estou num parque
Trem fantasma, roda gigante, montanha russa.

Amigos sentem o pulso.
Entendem.
Tem as unhas, tem nariz, tem boca e tem suspiro.
Uso da palavra "amor" liberado.

08 maio 2010

Para Não Passar em Branco.

Te dou minha melhor risada
Aquela que nem tenho mais.
Caixa vazia portanto.

Tenho outros sons
Quero dizer que tenho outros sonhos.
Aqueles que nem existem mais.

Te dou meus outros passos
Dos caminhos que não mais percorro
Das poeiras que não abaixaram
Das sementes no caminho que os pássaros não quiseram comer.

Tenho outras ruas
Quero dizer que tenho outras luas
Essas, sem fases.
Aquelas, sem luzes.

Tenho outro de mim para te dar.
Esse que nem morreu
mas é fantasma.
Esse que nem lembra
mas é memória
Esse que nem canta
mas é música

Te dou o que te cabe:
Nada.
Disso, tira o sumo
O resto é meu.

05 fevereiro 2010

Pensando Tudo.

Pretendo escrever algo inodoro insípido e incolor.
É que estou naquele momento hiato entre o que não aconteceu e o que está para.

Imagens me vem à cabeça, mas uma prevalece: o branco, o nada. O intervalo.

Quero escrever sobre nada, mas aquele nada alerta que acontece antes do telefone tocar com a boa notícia; quero um nada suspenso no ar.

Lembrei de quando eu brincava de esconder quando criança: até o respirar preso , todo alerta e medo, na hora que quem me procurava passava por mim sem me ver: é esse nada que quero falar.

Porque não estou ansioso, pelo contrário, estou confortável.
Mas quero saber o final do filme, está no "pause". Alguém aperte o botão, meu controle quebrou.
Se eu não souber também não faço cena, invento um final.

Sabe, vivo magoado. Qualquer bobagem, fico magoado. Eu nem era assim. Deve ser a idade.
E é uma mágoa irascível, irritada, que termina os sentimentos e põe pontos finais.

Nem chamo de mágoa, porque acho que é um nada. Sinto nada por qualquer coisa.

É bom às vezes viver nesse instante-entre-o-começo-do-fim-e-o-fim, porque você só pensa numa coisa: nada.

Tudo isso eu penso e escrevo na verdade é só pra dizer ao meu neurônio que organiza meus arquivos presentes e passados: eu agora sinto nada, e espero que este nada seja catalogado como tal.

O nada não me faz sorrir nem chorar. O nada tem nome, altura e profundidade. Tem endereço até, mas eu não sei.
Nem quero saber. Não há nada lá.

Não há nada lá pra mim.

Obrigado por me dar o nada para eu acreditar no tudo, e acordar amanhã.