10 outubro 2012
Reflexos de Uma (Mádrugada)
Primeiro cheguei à conclusão que as melhores coisas do mundo são também as piores: as pessoas.
Mas e se todo mundo olhasse ao redor e percebesse que só pode perder o que tem ?
Essas coisas podem ser compradas novamente?
E essas pessoas?
Às vezes parece estar tudo tão errado que penso que a vida mesmo não é essa: que essa desastrosa experiência é só um ensaio sem equipamentos adequados ou mesmo uma simulação de emergência para uma próxima vez.
Nem poeta, nem sensível, nem devoto, nem sonhador, nem amargo, nem resignado, nem rebelde, nem sublime: infeliz.
Uma das piores maldições adquiridas foi o fato de eu simplesmente - ser forte. A força aparentemente abre precedentes para mais sofrimento.
A gente só sabe o que é amor depois de alguns minutos sem luz, sem ar, sem calor, sem liberdade, sem música e sem o próprio amor.
Que todos os nossos milhões de pensamentos-por-segundo que para nós são importantíssimas catarses e iluminações, são, ao final, apenas angústias que não interessam a ninguém senão a nós mesmos.
Outra coisa importante que a (mádrugada - embora nem todas sejam más) me trouxe foi que quando pensamos se algo vale a pena é porque um dia vamos descobrir que não.
Que entender as coisas é um insight solitário e mortal e que nossa estrutura óssea diminui a cada descoberta.
Que as piores lágrimas são as que caem acima de uma boca que sorri.
Entendi que pode se sobreviver a várias madrugadas sem dormir, mas que depois de certas (mádrugadas), ou a gente recua e se esconde no silêncio, ou morre.
E finalmente, a (mádrugada) não acaba quando a manhã chega, portanto, ela vence sempre.
Dormir nem sempre é possível, muito menos eficiente: a crua verdade das coisas alcança os sonhos, ou estará lá ao acordar.
Os braços do cotidiano é que momentaneamente nos abrigam e nos afastam para longe do monstro mau (nem todos os monstros são maus).
Tudo termina num suspiro de resignação (palavra repetida nesse texto - por um bom motivo): a paciência, o sexo, a dor, a vida e a poesia.
16 setembro 2012
Tristitia.
Sou triste, triste
A dor adquirida, tão minha
Filho indesejado.
O arrependimento de ter parido essa dor aí pelo mundo
Não respeita cercas.
Os cubículos que moramos
Se agigantam como galáxias
Só para nos dar uma amostra da solidão conhecida apenas pelos mistérios.
Sou triste como a mulher de Ló
Estátua eternamente olhando para trás.
Esperando a esperança num canto qualquer da casa:
No caminho entre a sala e o quarto.
O pranto explode como o vômito que não seguramos:
Não respeita cercas.
Quando criança, ouvíamos apitos, estalos, sons místicos
Distração pura para os descalços no caminho
Viramos adultos quando finalmente olhamos para os nossos pés e percebemos que eles sangram?
Sou triste do azul mais puro do céu, aquele do fim da tarde.
Uma tristeza que se derrama todo dia
Que se arrasta, deixando um rastro luminoso e sonoramente penoso.
Minha tristeza não respeita nenhuma cerca que todo dia prego.
Como a mãe que esconde a aberração que pariu.
Não valeu a pena o minuto radiante que amei alguém
Sofro até hoje as consequencias dessa radiação
Quando meu cabelo cai ou fico cego, lembro que foi
Porque, um dia, por um segundo, eu amei loucamente
E a tristeza, que não é apenas uma palavra, traduzível em vários idiomas
É liberta de toda e qualquer alegria.
Se emancipou.
Se fez condição.
E algoz.
12 setembro 2012
Emerald City
Ela um dia escapou das mãos:
Correu feito um rio
Enganou correntezas dela mesma
Passou através das árvores
Desapareceu no verde.
Verde das esmeraldas da cidade de esmeraldas.
Ela tinha que estar lá.
Chegou, construiu uma casa e mobiliou.
Nós, espantalhos, espantados
Aqui na outra cidade, feita de tudo, menos de esmeraldas,
Perguntávamos: Onde anda Dorothy?
Sucumbiu ao sofrimento?
Voou na ventania?
Nós, bruxas de leste a oeste
Suportando pesos de casas e furacões
Ignoramos onde a menina anda.
Mas alguém deve saber que:
A menina está dançando com sapatos de esmeralda.
Dançando o amor que ela nunca sonhou
Dizendo como louca: não há lugar como nosso lar!
Ela diz isso porque mora na casa na cidade das esmeraldas.
Que sonho é esse?
Me leva pra lá.
Nem tenho coração, nem coragem.
A estrada de tijolos amarelos está em obras.
Sempre fui eu a sentir dores.
Morei em casas de ilusão de má qualidade.
Olha, não (me) esquece:
Me manda cartas verdes, brilhantes,
Contando como é a noite
Na cidade das esmeraldas.
Tua nova casa.
Para Carla Dolores, a pedido.
23 agosto 2012
Silenciando
Aguardo ansiosamente a hora do choro final
Aquele quando você sabe que acabou
As lanternas sinalizando os barcos
O cheiro rançoso de alívio do amanhecer.
Tão cansado de pregar estacas
No peito dos vampiros, que nunca morrem
Métodos e mais métodos que enfim, não funcionam.
Esperar aquele trem que todos disseram quebrado
Em alguma estação longínqua, polinésia.
Falar e falar sobre lírios, achando-os obscuros mesmo na brancura
A troco de nada, falar deles
Eles não existem.
Bater palmas de satisfação
Mal o movimento das mãos eu tenho
Velhice, entrevamento, desgosto
Pra quê o esforço?
Saber das coisas novas
Aguardo com ânsia de sangue
O momento em que todas elas se mostrarão falhas e inúteis
Cansado de cantar vitória
Lendário, mitológico, trovador ingênuo
Como alguém da Prússia ou da Pérsia
Ou de qualquer lugar que mudou de nome
Se fossem facilmente destacáveis
Retiraria sem dó esses lábios postiços
Engenhosidade de fina e triste ironia
Mas até na extirpação eles causariam dor
Cansado de estar disposto a sofrer.
Cansado dessas migalhas felizes que vem e vão
Como algas mal cheirosas e de aspecto desagradável na maré
Se enroscando em nossos pés como um presente da natureza
E eu disfarçando o asco e agradecendo a gentileza.
Adeus, gentileza
Não gosto, odeio, abomino e desprezo tuas migalhas
Cuspo nesse prato imundo que me deste de comer
Pois saiba que há um segredo:
Passei fome até hoje.
19 julho 2012
Esperança de Vingança
Um leão doente
Tiraram a carne de perto e não tenho forças para reagir
Eu poderia derrubar o mundo com meu grito
Mas souberam como atingir minha voz.
Tiraram a vasilha com comida
Que passava entre as grades todo dia
E eu com mãos cegas recolhia até meu catre
Onde sacro e reverente eu devorava tudo
Tiraram minha ducha diária
Ao sol, no rio, meus pés nas pedras
Agora nada de água
Tudo muito seco, para eu quebrar mais rápido
Tirei de mim mesmo portanto
As dolorosas lembranças
Sem substituições, apenas amnésia
Como a pessoa sem passado que acorda de um coma
Ai, agonia maldita
Bato o pé no chão de revolta
Mais uma parte que se quebra
O Grande Dia quando será?
Poderei cuspir pra cima
E nas mãos que me retiram as coisas.
18 julho 2012
Volvendo.
Imagina só o tamanho do absurdo.
Fui muito longe colher frutos.
Ficou escuro na volta e me perdi.
Esse caminho que eu conheço tão bem
Pois já me perdi nele tantas vezes
É tão o mesmo , mas eu sou outro.
Minha nova memória falha
Minhas mágoas novinhas em folha
Não tem nenhum registro
Nada, só o papel branco.
Fui pego de surpresa e apenas ri.
Como Sara, da Bíblia:
Imagino o anjo dizendo "vais ter um filho!"
Ela, com noventa e tantos anos
Riu.
Milagres passam direto
Flechas invisíveis
Portanto, nenhum amor do meu ventre renascerá
Anjos e demônios, me esqueçam.
Quando sinto dor, tomo analgésico
O médico passou, mas eu tomaria mesmo que ele proibisse.
Pois quando me perco no meio da plantação e a luz acende e estou diante de você:
Cheirando a passado, com os olhos de quem conquista sem saber, e com voz de (minha) morte
Eu rio, tomo remédio que só eu sei, fabricação própria, e procuro o interruptor que deve haver em alguma parede.
No escuro eu enxergo tudo.
Fui muito longe colher frutos.
Ficou escuro na volta e me perdi.
Esse caminho que eu conheço tão bem
Pois já me perdi nele tantas vezes
É tão o mesmo , mas eu sou outro.
Minha nova memória falha
Minhas mágoas novinhas em folha
Não tem nenhum registro
Nada, só o papel branco.
Fui pego de surpresa e apenas ri.
Como Sara, da Bíblia:
Imagino o anjo dizendo "vais ter um filho!"
Ela, com noventa e tantos anos
Riu.
Milagres passam direto
Flechas invisíveis
Portanto, nenhum amor do meu ventre renascerá
Anjos e demônios, me esqueçam.
Quando sinto dor, tomo analgésico
O médico passou, mas eu tomaria mesmo que ele proibisse.
Pois quando me perco no meio da plantação e a luz acende e estou diante de você:
Cheirando a passado, com os olhos de quem conquista sem saber, e com voz de (minha) morte
Eu rio, tomo remédio que só eu sei, fabricação própria, e procuro o interruptor que deve haver em alguma parede.
No escuro eu enxergo tudo.
22 abril 2012
(Vou chamar esse texto de "Foi Num Piscar de Dedos" , porque os olhos estão inertes)
Retiro dez das onze palavras que eu disse
Sobre amor, sobre carinho e sobre paz
Retiro, hoje, autenticado em cartório
Os olhares, os toques e O Sorriso
A ternura nos olhos e o aviso de cuidado.
O fato de eu agora gostar de cachorros
Significa e sinaliza para algo profundo e polposo
Mudança de mão, o semáforo está azul - não sei dirigir.
Só sei que amo de outra forma agora
Ou, como diria Adélia, nem sei mais o que amo
Ou, como diria Drummond, nem amo mais.
Sobre amor, sobre carinho e sobre paz
Retiro, hoje, autenticado em cartório
Os olhares, os toques e O Sorriso
A ternura nos olhos e o aviso de cuidado.
O fato de eu agora gostar de cachorros
Significa e sinaliza para algo profundo e polposo
Mudança de mão, o semáforo está azul - não sei dirigir.
Só sei que amo de outra forma agora
Ou, como diria Adélia, nem sei mais o que amo
Ou, como diria Drummond, nem amo mais.
01 abril 2012
As Pérolas

Queridos, nós, de olhos brilhantes
Uns sonhadores, outros duros
Uns românticos, outros trágicos
Todos nós, e cada um de nós, padecemos hoje.
Nós de talentos astrais e de fragilidades cristais
Quando estamos em desvantagem:
Uns furiosos, outros perplexos
Enfrentamos, ao nosso modo
Rosto ao vento, ou silenciosos na sombra
Nossos corações azuis, de sangue da cor do amor
Nossa anemia, nossa transfusão
É chorada ou celebrada, não importa
Mantemos o brilho mas suspiramos dizendo:
"... Mas... O Que É Essa Vida... Como...?"
Nossas frases nunca terminadas
Mas transbordam de sentido.
Queridos, nós, de dores secretas,
Uns apenas amam
Outros são amados somente
Nossa capacidade de fazer versos invulgares
De sorrir para o alto, gargalhando frente à nossa própria sepultura
De inocência ou de rancor
De abnegação jamais.
Queridos, não falarei por ninguém
Nós, eu e minha solidão
Fazendo versos, música, amigos
Fazendo um travesseiro onde possamos recostar a cabeça.
Respirar fundo é o suficiente.
Olhemos além, mesmo que nada vejamos por hora.
Em algum momento, saberemos.
Especialmente para Joyce C., Lise L., Isabel S., Rodrigo L., Plínio R., Toni B., Carla D., Cladine M., Bruno M., Luana R., Luis Arthur C., Ivy S., Mirelli F. e Josy L.
06 março 2012
Epílogo

Eu não sou eterno.
Nem sempre terei forças nas pernas
Nem amor no coração
Cada vez mais, cada vez menos
Perdoo, esqueço, concordo
Minhas garrafas de água secam
Meus cântaros, vasos e botijas
Pó, poeira e areia derramada ao vento
Eu sentirei falta de mim mesmo
Do pai, da mãe que sou
Do colo, e da mão bruta que açoita
Sentirei falta da minha língua ferina
E das minhas lágrimas de louco e feio
Sentirei falta do espelho
De quando me vi jovem e assustado em um retrovisor
Do dia em que vi que plantinhas cresciam no jarro abandonado em meu quintal
Sua mão ajeitando meu cabelo na chuva e me dizendo bonito não é eterna
Minha dor não é eterna
Meu discurso vai sendo concluído aos poucos
Mas não é eterno. Um dia acaba.
Cada vez mais continuo, carrego, sigo planos feitos por outrem
Cada vez menos sofro, esse sofrimento que se sabe
Meus brinquedos, meus amigos e meu bolo de aniversário
Sentirei falta de tudo que não é infinito
O que está pra ser eterno, anuncia-se em doses dolorosas
Cada vez menos concordo comigo e com minha lógica
O que está pra ser eterno, anuncia-se em doses dolorosas
Cada vez menos concordo comigo e com minha lógica
Cada vez mais perdoo e odeio
Sentirei falta do raio de sol que me acorda
Das maldições e das bênçãos
De te ver passando na rua, de não te ver nunca mais
Você não é eterno.
09 fevereiro 2012
O Grito
Se meu aprendizado se dá sempre na instância do sofrimento.
Se os dedos apontam contra mim e os olhares, as pupilas enegrecem, trevas que me condenam
Ainda encontro a mínima força retirada sabe-se lá de qual inferno dentro de mim
Para escrever a ninguém, para cantar a todos e para respirar comigo mesmo, meu sopro de vida pesado e insuficiente.
Minhas capacidades remotas e retrógradas de não perdoar, não esquecer - "Deus, me faz nunca esquecer e nunca perdoar, senão morrerei."
Minhas vontades nulas, não levadas em conta em nenhuma existência, nem por mim, nem por Ele, nem por ninguém, nem por nenhuma estrela cadente.
Todas elas, minhas (in)capacidades e vontades gritam, explodem, enfurecem-se, passam de anjos a demônios com a força de toda a pressão que sustenta o céu nos céus, mas que são apenas um estalo.
Mas eu dou voltas em torno de mim mesmo e tenho quatro mil estações porque tenho o direito, já que minha aprendizagem se dá na instância da dor.
E nesse milésimo de segundo que explodo, e não amo a absolutamente ninguém nesse vasto mundo - a verdadeira solidão - quero escutar o que eu posso dizer a mim mesmo, antes que isso passe e eu volte a ser o estúpido e limitado ser que ama, se derrete, se desmancha de uma doçura que apenas quem está distraído vendo estrelas percebe, e é quando a solidão não é a verdadeira, mas a falsa, e sou o mais vulnerável da cadeira alimentar.
Depois de gritar, eu volto à forma elementar de pingo dágua, de grão de areia, de folha seca ao vento, de coração de mãe e todas essas coisas facilmente maltratadas.
Nessa forma cheia de amor eu passo a maior parte do tempo, e eu, lá de dentro de mim, sonho com o momento do grito voltar, e me tornar aquele que não perdoa, que não esquece, que não ama, e que é - ( raios de luz sobre mim vozes angelicais aleluia aleluia finalmente minha hora sim eu finalmente passei a existir ) - verdadeiramente solitário.
Porque dela, não há mais para onde ir.
Se os dedos apontam contra mim e os olhares, as pupilas enegrecem, trevas que me condenam
Ainda encontro a mínima força retirada sabe-se lá de qual inferno dentro de mim
Para escrever a ninguém, para cantar a todos e para respirar comigo mesmo, meu sopro de vida pesado e insuficiente.
Minhas capacidades remotas e retrógradas de não perdoar, não esquecer - "Deus, me faz nunca esquecer e nunca perdoar, senão morrerei."
Minhas vontades nulas, não levadas em conta em nenhuma existência, nem por mim, nem por Ele, nem por ninguém, nem por nenhuma estrela cadente.
Todas elas, minhas (in)capacidades e vontades gritam, explodem, enfurecem-se, passam de anjos a demônios com a força de toda a pressão que sustenta o céu nos céus, mas que são apenas um estalo.
Mas eu dou voltas em torno de mim mesmo e tenho quatro mil estações porque tenho o direito, já que minha aprendizagem se dá na instância da dor.
E nesse milésimo de segundo que explodo, e não amo a absolutamente ninguém nesse vasto mundo - a verdadeira solidão - quero escutar o que eu posso dizer a mim mesmo, antes que isso passe e eu volte a ser o estúpido e limitado ser que ama, se derrete, se desmancha de uma doçura que apenas quem está distraído vendo estrelas percebe, e é quando a solidão não é a verdadeira, mas a falsa, e sou o mais vulnerável da cadeira alimentar.
Depois de gritar, eu volto à forma elementar de pingo dágua, de grão de areia, de folha seca ao vento, de coração de mãe e todas essas coisas facilmente maltratadas.
Nessa forma cheia de amor eu passo a maior parte do tempo, e eu, lá de dentro de mim, sonho com o momento do grito voltar, e me tornar aquele que não perdoa, que não esquece, que não ama, e que é - ( raios de luz sobre mim vozes angelicais aleluia aleluia finalmente minha hora sim eu finalmente passei a existir ) - verdadeiramente solitário.
Porque dela, não há mais para onde ir.
27 janeiro 2012
Lá (Olhai Além II)
Mais do que nunca, nunca, nunca
É a hora de olhar além
Bem além, olhar para a parte branca do entendimento
A parte cega da vida.
Aqui ninguém entende as palavras.
Aqui se fala uma língua que nem os anjos decifram
É a hora de olhar além, criança, criatura
Nessa tua velhice de coisa alguma.
"Olhei todos os aléns" - dirás.
Pois é a hora de confirmar a verdade de ti mesmo
A total inabilidade com as coisas que nascem de ti
Tua burrice.
Só entendes a linguagem musical?
Só ouves? E teus outros sentidos?
Esqueceste teu coração aonde?
Além?
Pois vais buscar pois precisarás dele um dia
Um dia que o branco se tornar azul, que a cegueira passar, que a surdez vier
Tua mente se partir ao meio, te libertando, e as pontas dos teus dedos dormentes
Vai viver além com teu coração
Porque aqui, dentro de ti
A substância já foi explorada até a exaustão
Tudo aí dentro é pré-histórico
Desapareceu sem que nenhum cientista saiba como
Esse além dentro de ti, de ecos intermináveis e leis físicas complicadíssimas
Já deixou de funcionar.
Agora olha e vai além, e se não houver além...
Faz de novo, e de novo, e de novo...
Tua felicidade nunca é aqui
Tampouco é lá
Então vai além
Onde nada disso importa
E, de tanta fadiga e mudez,
Terás um tipo estéril e abissal de paz.
31 dezembro 2011
No Patamar

Estou transparente de cores neutras
Esperando, esperando...
Minha cabeça repousa sobre travesseiros, olho horizontes inventados
E tranquilissimos, onde me vejo distante, sumindo em dunas.
Para esse novo agora, quebro copos cristalinos, puros
Quebrando purezas sou mais eu.
Mergulhando, mergulhando
Subo á tona, as luzes me guiam
Luz de um sol artificial
Encontro você, água salgada em torno
Braços que nunca vi, sorriso que imagino todo dia
A cor dos teus cabelos, invento
A voz também, escuto de tanto que acredito.
Novo dia, ano novo
Eu ganho um sinal no rosto daqui a pouco
Sinais, sinais, e eu sonhando
Você vem?
Já te esperei tanto, tanto...
Mas... minha função é te esperar mais.
14 outubro 2011
Justificativas
Só tenho a dizer que:
Todo dia em que corro
Não é para teus braços
Nem para os braços de ninguém.
Sempre que sonho
Não é com você
Nem com ninguém.
Sempre que canto
Não fala de você a música
Nem ninguem a letra contempla
Toda manhã que sorrio
Não é para nenhum espectador
Nem existe platéia
Toda noite quando amo
Não amo você
Nem ninguém mais
Só vivo pela surpresa
De encontrar contentamento no que não me entrego.
Pois nas raras vezes que desacredito e me visto de cinza
É por você
Esse ninguém que eu conheço tão bem.
03 outubro 2011
O Mais Forte
Sonhei que eu caminhava por entre ruas brancas, onde tudo era desta cor.
Uma coisa branca, uma luz, um vazio branco enorme
Tomando conta de tudo.
Nada parecido com a paz sonhada buscada e semeada.
Eu andava e nada via na paisagem a não ser o vazio branco.
Nada de vultos familiares, nada de casas, árvores, nada que significasse aconchego e proteção.
Não sentia cansaço, nem fome, nem sede, nem vontade de falar, cantar nem gritar.
Não sentia vontade de correr nem de descansar.
Não sentia amor nem ódio.
Nem alegria nem tristeza.
O inferno é que tudo era branco e vazio.
O que eu sentia era uma sensação nunca experimentada antes, que eu chamei de "Não-Paz"
Tudo maiúsculo porque era uma nova não-paz, diferente das outras que a gente se desespera, etc.
Eu caminhava distâncias imensas e ao mesmo tempo tudo era igual.
Não sentia vontade de continuar caminhando.
mas porque então, eu caminhava?
Eu não sentia saber de nada. nem gosto, nem desgosto.
Era como se o branco fosse preto, escuridão, treva.. mas não era isso.
Isso é familiar, confortável até.
O branco era impiedoso, eu não enxergava porque não havia o que ver.
"Morri" eu pensei no sonho.
Meus amigos, venham se despedir de mim. Mesmo que eu acorde, terei morrido depois de todo esse branco.
Mas não: aquilo não era o céu nem o inferno, e tampouco era o Nada.
Aquilo era, ao contrário, Tudo. Tudo que existe, aquilo era o mundo, as pessoas, os amigos, os familiares, aquilo era a árvore, o carro e a poluição, aquilo era a criança mais doce e era o adulto mais cruel, aquilo era eu e todo o amor, ódio, mágoa, tristeza, esperança e tudo que eu sentia.
A Não-Paz era porque eu não sonhava, eu vivia mesmo aquilo.
Diante de uma tela branca, o vazio branco.
E eu, sem paz, sem vida, em frente.
Jogando nos dedos os últimos resquícios de força e vigor.
Os dedos se salvaram.
A boca verte um líquido preto e amargo.
Os olhos são vidros.
O sangue secou, fugiu como vapor.
O coração encolheu e sumiu.
A alma fez as malas e viajou como uma covarde.
O corpo é um resto facilmente dobrável.
O espírito chora rios e mares salgados e sem peixes.
05 setembro 2011
Bruxos
Temos boas intenções, somos solidários, muitos de nós choramos quando vemos a delicadeza, o milagre ou mesmo a dor nossa refletida em alguém.
Porque sempre nos comove a dor alheia mais que a nossa,
Deve ser por causa do nosso orgulho.
Mas o direito de ser ainda temos.
E por ele ainda teimamos em nossos castelos.
Sei lá.
Hoje estou só pra suspeitar das coisas.
Porém
Eu e você somos chamados de amargos, mal humorados, intolerantes, ácidos, sarcásticos, chatos.
Nossa energia é pesada? Escura? Negativa?
Deve ser. Pode Ser.
Uma frágil defesa: somos infelizes.
Sonhamos mil castelos e todos desabaram, os de areia e os de pedra.
Nosso choro ao deitar e olhar o teto acumula uma cor cinza em nossos olhos que continua de manhã quando acordamos.
Nosso choro ao deitar e olhar o teto acumula uma cor cinza em nossos olhos que continua de manhã quando acordamos.
Não nos culpe, não nos hostilize.
Um dia, alguém apagou a luz na nossa cara e nossa voz se tornou rouca pra sempre.
Olha nossa solidão: palpável.
Na primavera, geralmente sorrimos, amamos a natureza, estamos ligados ao cosmos de maneira tão selvagem e desarvoradamente feliz.
Prove nossa energia então, ela será leve, clara, positiva.
Não nos culpe, não nos tenha piedade tampouco.
Somos vítimas apenas de nós mesmos.
Dos nossos sonhos de gente sem juízo, da nossa criança que não cresceu e hoje nos faz meter o dedo em tomadas, tomar banhos de chuva e ganhar resfriados incuráveis.
Dos nossos sonhos de gente sem juízo, da nossa criança que não cresceu e hoje nos faz meter o dedo em tomadas, tomar banhos de chuva e ganhar resfriados incuráveis.
A maldade da criança.
É a nossa.
Nada justifica, talvez sequer explique.
Mas o direito de ser ainda temos.
E por ele ainda teimamos em nossos castelos.
Quem sabe um deles, do mais frágil material, o amor, sobreviva e nós também sobrevivamos dentro dele.
15 agosto 2011
Chuva Ácida
Aquela chuva fina, que cai com jeito, respeitando o concreto
Sou assim
Resisto a chuvas torrenciais mas não sei lidar com a garoa
Tenho meu modo de fechar os olhos e não ver algumas luzes que ofuscam
E sei a hora de abrir , quando for escuro
Alguns bichos enxergam nas trevas - eu sou um cego em paz.
Alguns dias na vida a gente se levanta robótico da cama e vai cumprir a ordem da vida maquinal
Pois também a gente se deita sem sono, o corpo não se acomoda, apenas as engrenagens estão desgastadas, precisam parar.
E as chuvas só pioram a situação.
Eu (essa palavra minúscula que comanda os nossos amores e ódios, decepções e esperanças) vou dormir mesmo sem sono, sem escuro, sem esperança e sem barulho de chuva.
05 agosto 2011
Vivendo Amando

Viver amando é uma escada para baixo
A gente desce, um degrau de cada vez, e olha pra cima pensando se volta ou continua.
De nada porém, adianta nossa vontade
É um movimento irresistível: uma folha seca no chão não tem a opção de não voar quando sopra um vento forte.
Viver amando é hoje termos mãos hábeis que costuram um difícil retalho.
Sair juntando tudo que combina e o que não combina e abrir mão do gosto e tecer um pano que não será como queríamos.
Viver amando é amanhã o pano ficar incompleto, rasgar, os retalhos acabarem bem na hora que a gente está gostando do desenho.
Viver amando é empurrar nosso amor num balanço de parque
Vai e vem, vai e vem.
A gente desce, um degrau de cada vez, e olha pra cima pensando se volta ou continua.
De nada porém, adianta nossa vontade
É um movimento irresistível: uma folha seca no chão não tem a opção de não voar quando sopra um vento forte.
Viver amando é hoje termos mãos hábeis que costuram um difícil retalho.
Sair juntando tudo que combina e o que não combina e abrir mão do gosto e tecer um pano que não será como queríamos.
Viver amando é amanhã o pano ficar incompleto, rasgar, os retalhos acabarem bem na hora que a gente está gostando do desenho.
Viver amando é empurrar nosso amor num balanço de parque
Vai e vem, vai e vem.
O vai é num empurrão nosso, o vem é uma cuidadosa acolhida.
Viver amando é não machucar o nosso amor quando ele volta.
Viver amando é ver nosso amor ir ali
E otimistas, esperarmos sua volta, embora ninguém a tenha garantido.
É numa noite antes de dormir, sorrir com lágrimas brilhando lá por dentro dos olhos, sendo formadas ainda nos canais.
E noutra elas destilarem como rios, molhando rosto, queixo, fazendo os lábios tremerem e a respiração acabar.
Uma lágrima que chega ao queixo é como o final da humanidade.
Viver amando é não viver constante: é a vida subdividida em segundos, um metrônomo impiedoso.
Viver amando é um sacerdócio não-religioso: é carne contra carne, os espíritos adormecidos, ingênuos do terror do suor e do sangue.
Viver é por si só uma tarefa árdua.
Amar é uma distração que toma todo o nosso tempo.
Olhando os pés, as mãos, os olhos do nosso amor
Não vemos quando nós mesmos esmaecemos, o corpo sublimando, ficamos inaudíveis, sem forma, translúcidos
Finalmente nosso vapor se misturando às nuvens
Viver amando é não machucar o nosso amor quando ele volta.
Viver amando é ver nosso amor ir ali
E otimistas, esperarmos sua volta, embora ninguém a tenha garantido.
É numa noite antes de dormir, sorrir com lágrimas brilhando lá por dentro dos olhos, sendo formadas ainda nos canais.
E noutra elas destilarem como rios, molhando rosto, queixo, fazendo os lábios tremerem e a respiração acabar.
Uma lágrima que chega ao queixo é como o final da humanidade.
Viver amando é não viver constante: é a vida subdividida em segundos, um metrônomo impiedoso.
Viver amando é um sacerdócio não-religioso: é carne contra carne, os espíritos adormecidos, ingênuos do terror do suor e do sangue.
Viver é por si só uma tarefa árdua.
Amar é uma distração que toma todo o nosso tempo.
Olhando os pés, as mãos, os olhos do nosso amor
Não vemos quando nós mesmos esmaecemos, o corpo sublimando, ficamos inaudíveis, sem forma, translúcidos
Finalmente nosso vapor se misturando às nuvens
E seguimos, nosso espírito dormente.
09 julho 2011
Ruído Branco

Quando a gente não tem um amor na garagem
Um carro esperando a gente na cama
Uma casa pra pular no nosso colo
Nem filhos bem localizados
A gente não se sente desse mundo.
Vivo querendo encontrar uma posição melhor pra dormir
Descobrir os dentes mais fortes, pra mastigarem os pedaços mais duros
Vaidade de vaidades, diz na Bíblia, tudo é vaidade.
E na austera simplicidade de existir, sem nada, sem chão, sem céu
A gente está fincado nesse mundo, como uma cerca clandestina
Acordei de um sono de cem anos, e descobri que o mundo tem apenas uma hora de existência
As pessoas não sabem me informar as horas, e eu nunca vou saber como fazer pra encontrar o que é vaidade.
As noites, mortas, não há ninguém na rua
O dia trará uma luz branca que não responderá nenhuma das minhas dúvidas.
Queria tirar pelo menos uma:
"Até quando?"
24 abril 2011
Aos Meus Pequenos

Mãos pequenas
Maos de chocolate, mãos de neve
São comoventes os dedos curtos,como sinais
De eternas crianças
Cada passo é um aperto no peito
Ruas escuras, o mundo sabe deles agora
"Deus proteja", "Deus guarde"
Mil recomendações.
Olhinhos tristes, todos tem.
Coincidencia.
Na sua calma e melancolia
Na sua sinceridade e vaidade
No seu atrevimento e doçura
Estão escritos os futuros
Teus, meu.
Não quero ler, porque Deus dá o frio conforme o cobertor não é?
Não quero ler, nem saber, nem supor, muito menos prever.
Quero silenciosamente, longe de suas vistas, inventar preces e preces
A toda natureza da vida, a Deus, e aos homens
Pra todo segundo de vida ser feliz.
Tanta felicidade que nem seja justa.
Infeliz amor até a alma
Cisma o cosmos de ser justo nessa hora
Mais preces, mais preces.
Amo tanto que reverbera no infinito.
22 abril 2011
Estufa
Verbos, conjunções astrais
o céu anda vermelho, amorzinho, é sinal de chuva
Ou não?
Se for me avisa, que corro a tirar minhas roupas do varal
Se for chuva me diz!
Você sabe o pavor que tenho dos trovões e relâmpagos
Som de um, luz de outro
Quero o silêncio escuro, pra lembrar quando eu estava no útero.
Se você for se derramar sobre mim, me avisa antes
Tenho muitos guarda-chuvas em casa, de todas as cores
Eu usarei o azul, porque é a cor que me persegue
Se você, amorzinho, não chover e virar seca, com cactos cenográficos
Me avisa também, porque eu viro retirante, fugindo em busca de água
Me avisa de tudo, porque você sabe que não sou satisfeito com nada
Pra tudo tenho que me preparar.
Substâncias, substantivos
Eu sempre durmo com copo d'água do lado.
Haja o que houver, amorzinho, você sabe
Eu não morro de sede.
o céu anda vermelho, amorzinho, é sinal de chuva
Ou não?
Se for me avisa, que corro a tirar minhas roupas do varal
Se for chuva me diz!
Você sabe o pavor que tenho dos trovões e relâmpagos
Som de um, luz de outro
Quero o silêncio escuro, pra lembrar quando eu estava no útero.
Se você for se derramar sobre mim, me avisa antes
Tenho muitos guarda-chuvas em casa, de todas as cores
Eu usarei o azul, porque é a cor que me persegue
Se você, amorzinho, não chover e virar seca, com cactos cenográficos
Me avisa também, porque eu viro retirante, fugindo em busca de água
Me avisa de tudo, porque você sabe que não sou satisfeito com nada
Pra tudo tenho que me preparar.
Substâncias, substantivos
Eu sempre durmo com copo d'água do lado.
Haja o que houver, amorzinho, você sabe
Eu não morro de sede.
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