Viver numa cidade grande é viver diferente.
Nem sei se é viver ou sobreviver.
O fato é que às vezes se perde a noção de humanidade.
Um dia desses, no ônibus, um daqueles garotos que vendem bala de gengibre subiu.
Era a milésima vez em uma semana.
Ele começou a falar: "peço um minuto da sua atenção, eu podia estar matando, eu podia estar roubando, mas não, estou aqui vendendo balas de gengibre com canela.."
Eu já me preparava pra virar o rosto pra janela, como já era hábito e como também estavam fazendo os outros 40 passageiros do ônibus.
Mas..
O menino estava falando comigo!
É como se ele dissesse : "Carlos, peço um minuto da sua atenção, eu podia estar matando.."
Eu não tinha dinheiro, e nem gosto de bala de gengibre, mas tive que olhar para ele e ouvir tudo que ele tinha a dizer.
Quando ele terminou foi passando pelos bancos e eu neguei a balinha com a cabeça.
Outro dia, passando com um amigo na rua, um mendigo, naquela situação bem típica de mendigos (sujo, bêbado, maltrapilho), nos chama : "ei, jovens."
Meu amigo continuou andando, como sempre eu também fazia.
Mas eu parei.
Eu sabia que ele ia me pedir dinheiro, e eu sabia que eu também não tinha (sim, eu nunca tenho).
Mas tive que ficar parado em frente ao mendigo escutando o que ele tinha pra me dizer.
Meu amigo ia na frente e quando notou que eu parei olhou pra mim espantado, com expressão de "por que você está ouvindo o mendigo???"
Lógico, quando ele temrinou de pedir os 0,50 centavos, eu disse "perdão,não tenho."
Acenei com a cabeça bem rápido e continuei. Meu amigo ria de mim.
E eu agora sou assim...
Uma amiga comentou "ei, percebi que os garis que recolhem o lixo na minha porta todo dia têm um rosto!"
E assim vamos percebendo que são pessoas, e nós aprendemos que quando alguém fala com a gente, o mínimo que devemos fazer é escutar.
E eu me pergunto: "pra quê?"
Isso não deve ter o menor efeito.
A minha mesma amiga me explicou: "pode não ter pra eles, mas nós nos sentimos melhor".
Que tal? detrás da minha "nobreza" de olhar pro vendedor de balinha, há o egoísmo de eu não me sentir desumano ou mal-educado.
O que nós fazemos que não seja por egoísmo?
Realmente, efeito não deve ter... mas é uma percepção inegável: "alguém me chamou e quer me falar algo!"
Algo que eu já sei, que eu não vou poder ajudar.
Mas ignorar?
Não sei nem se consigo mais.
Mas continuo me perguntando:
É hipocrisia minha?
Ou é puro egoísmo?
Mas nada muda na minha cabeça o fato de que , quando alguém, que nasceu de uma mulher, que respira, pensa e tem uma personalidade, chega e diz "por favor, um minuto da sua atenção" eu não deva virar o rosto e fingir que não ouvi.
Pelo menos dizer "não, não dou" eu sinto vontade de dizer!
Mas às vezes isso me soa incoerente.
Chegamos ao ponto de discutir se é coerente prestar atenção a pessoas que viraram "semi-humanos" na nossa percepção só porque pertencem a uma "classe social inferior".
É confuso e triste,não acham?
Mas já posso até ouvir os comentários:
"_Ah,tenho um amigo que toda vida pára e ouve o que os mendigos vão pedir, mesmo que ele não tenha nada pra dar!"
"_Kkkkkkkkk, quero ver no dia que ele for assaltado!"
Puxa, como é desconfortável sair de casa às vezes.