25 abril 2008

"Nas Nuvens Ou Na Insensatez"


Depois de tanto silêncio, deveria haver muito a ser dito.
Mas não, só umas poucas coisas:

A vida faz de nós uns poetas, ou cantadores, ou loucos ou tristes.
Ou de tudo isso um pouco .

Alguns de nós vivemos em céus azuis e outros em nuvens negras
Muitos estão sempre em uma eterna nuvem num degradé de cinza.
E torcendo para essa eternidade não ser eterna ou não levar uma vida toda.
Queira Deus que vejamos outras cores.

Sim, "VEJAMOS" porque estou nesse seleto grupo aí.
E nunca gostei de cinza, que ironia.

E "seleto" porque embora eu saiba pelas expressões nos rostos e pelos suspiros de cansaço que muitos vivem assim, a gente lá nessa nuvem se sente muito sozinho.

Mas como não há mesmo muito a dizer, vou encerrar esse texto logo após os soluços se tornarem sorrisos e as lágrimas irem pro lenço e os olhos fitarem o além, porque a nuvem, ops, a vida tem que ser vivida até que um dia se dissipe num céu de brigadeiro ou vire chuva e chore sobre a terra.

E eu me tornarei poeta enfim.

28 março 2008

Cá Entre Nós

Era uma vez um jovem, ou uma jovem, ou um velho, ou uma criança ou eu ou você que um dia sorriu ao ganhar uma flor ou um chocolate ou um bilhete.
E achou que a vida ou o destino seria assim sempre: sorrisos.
Depois do presente veio o final que não foi feliz.
O primeiro amor, o grande amor, o único amor, ou seja lá quem tenha sido, simplesmente sumiu no ar, na terra ou na chuva.
E o jovem ou a jovem ou o velho ou a criança ou eu ou você ficou lá em pé, no passado, no escuro, no frio.

E deu passos e "evoluiu" e amou novamente ou não, e tentou e chorou e fracassou e venceu e sorriu e gritou e dançou e cantou e as águas do moinho rolaram.
Mas um belo dia olhou para trás e se viu ainda lá parado, com a flor ou o chocolate ou o bilhete na mão, chorando.
Nunca, jamais saiu de lá para lugar algum.
E aquele vulto do que um dia foi ele mesmo, hoje menor ou maior ou igual nunca poderá sair de lá porque o passado se esquece mas não se apaga.

E aquele choro sentido de criança, de velho , de jovem , meu ou seu nunca será consolado porque o grande e único amor sumiu no vento e ninguém mais (nem o tempo) poderia fazer o que esse grande amor não fez.

O passado se esquece mas não se apaga, e vez por outra dolorosamente vislumbra o pobre vulto esquecido dos amores não vividos, ou dos sonhos não-realizados ou dos sonhos simplesmente.

Era uma vez, um desejo...

09 março 2008

20.000.000 de minutos.

Era hora de pôr as roupas, os livros e a escova de dentes na mala e ir embora.
Ele olhou ao redor e teve certeza: era só isso que ele tinha para levar.
Roupas, livros e escova de dentes.
Pensou se precisava mais do que isso pra viver.
Sim, precisava, mas ele sempre viveu sem ter tudo que precisou.
Decidiu que depois providenciaria o que faltava , se fosse possível.

O importante era ir embora já.
Porque já se passaram 14 minutos desde a hora que ele decidiu que devia ir.
14 minutos era um bocado de tempo para se atrasar, pensou ele.
O peso do atraso o desanimou: as coisas não começaram bem, já se atrasou.
O final não começou bem.

O que não começou bem não poderia terminar de outro jeito.
Sentou-se um pouco na cama com a mala no colo.
Decidiu que as roupas não eram necessárias.
Só peso morto e inútil, ele constatou e deixou-as cair pelo chão.
"Já estou vestido e bem vestido".
Bastava.

Lembrou das fotos, das cartas.. quanta bagagem um ser humano tem que levar.
Lembrou ainda de uma pergunta que fizeram a ele quando pequeno:
"Se sua casa estivesse pegando fogo e você pudesse salvar uma única coisa, o que seria?"
Ele não conseguia lembrar o que tinha respondido na época.
Devia ter sido a escova de dentes, pensou dando de ombros.

O fato é que ele sabia que jamais iria embora de todo dali.
Os agora 17 minutos de atraso diziam isso "Você nunca sairá daqui."
Ele odiava ser desafiado e olhou com um sorriso arrogante para o relógio azul na parede.
Olhou pra porta e pensou: "Será agora. Agora cruzarei aquela porta antes que sejam 18 minutos."
Ele não suportaria 18 minutos de atraso, era um número muito forte. Equivalia a 18.000.000 minutos de atraso.
Foi, com a coluna tensa e reta em direção à porta. A mala não estava bem fechada e livros caíram.
Se baixou para apanhar e tic tac: 18 minutos.
"Mas eu vou embora" disse para si mesmo.
Resolveu deixar os livros pelo chão: eles pularam da mala, queriam ficar.
E na mala só ficou a escova de dentes, azul como o relógio e como os olhos de Isabela.

20 minutos. O tempo passa rápido quando temos que ir embora.
Não ousou uma última olhada pelo quarto, mas antes de cruzar a porta, olhou pelo canto dos olhos para o relógio. Ele parara de funcionar. Os ponteiros estáticos.
20 minutos, pensou ele: o tempo que se leva para deixar algo e alguém.
Para deixar tudo.
Não fechou a porta.

Saiu para o céu azul, como a sua solidão.

24 janeiro 2008

Sobre Helena

Olhando bem havia muita beleza em Helena.
Nada que parasse o trânsito nem gerasse propostas para revistas masculinas, mas sim, nela havia harmonia.
Os cabelos eram cor de mel, brilhantes e sedosos, os olhos vivos e com belos cílios a boca rosada e a pele.. perfeita.
Um corpo daqueles que tornavam-na mais jovem do que era, seios firmes e pernas longas, torneadas.
No mais, Helena tinha esse nome forte, muito bem educada, nunca vulgar, de voz macia, melódica. Inteligente, até astuta. Agradabilíssima... simpática, compreensiva, querida pelos amigos, tias distantes, vizinhos e pelas crianças do prédio.
Helena era uma jovem não linda e arrebatadora, mas bonita, agradável e que certos raios de sol favoreciam muito.
Mas Helena não era amada, jamais foi, jamais conseguiu ser.
Suas amigas, as lindas e as feias namoravam, flertavam ,amavam... Helena não.
Certa noite, acordou no meio da madrugada com sede, bebeu água e foi ao banheiro; se olhou no grande espelho na parede e sorriu... como estava linda assim, meio descabelada, com os olhos miúdos de sono... desejou que alguém pudesse vê-la assim.
E foi dormir.
Conheceu um ou dois homens que se interessaram por ela e ela por eles em intervalos de anos...porém outros mais frequentes gostavam dela, mas sempre havia um problema... Helena os olhava com seus melhores olhos e dava as melhores chances, mas ninguém a culpava por não corresponder aos interessados.
Psicóticos, sujos, burros ou superficiais demais, eram esses que gostavam de Helena.
E ela não os queria, não porque fosse exigente, pois fazia força para aceitar o "bizarro".
Mas é porque ela realmente estava muito além de todos eles.

E o tempo passou... mas muito tempo passou MESMO.
E Helena assim, aquela pessoa formidável e não-amada.
Fora isso, viveu uma vida normal, estudou, trabalhou, etc.
E mais tempo passou.

Helena reencontrou na velhice um homem por quem ela se apaixonara quando jovem,mas que sequer olhou para ela na época, preferia outras mulheres de riso fácil e voz aguda demais.
Ele estava meio acabado e eles então viveram juntos durante muito tempo.Ele se chamava Aurélio.

Uma noite Aurélio não chegou do jogo de cartas com o amigo e Helena resolveu não ligar e ir dormir. Acordou altas horas da noite, com Aurélio ao pé da sua cama, com os olhos úmidos e um cheiro acre de cerveja pairando no ar.
Na ponta da cama, uma mala aberta e roupas.

_Helena, vou embora.
_Por quê?
_Marta.
_Ah... (Helena lembrou da viúva de um carteiro amigo deles, uns 15 a 20 anos mais nova que ela e que Aurélio)
_Desculpe, serei honesto com você: você sabe que ela é linda... e nunca achei que ela fosse me dar bola e... bom, não resisti.
Helena sentou-se na cama de costas pra ele. Um longo silêncio e ele achando que ela estava em choque, continuou arrumar a mala.
Ela finalmente falou calma e pausadamente:
_ Você não estava no dia que me vi no espelho do banheiro... me senti feliz por ser tão bonita... e triste por ninguém estar lá para apreciar.
Passou as mãos pelos cabelos brancos e ralos e continuou:
_ Tinha um shampoo que eu sempre usava e.. meu Deus.. meus cabelos cheiravam tanto... mas você não estava lá Aurélio, nem você nem homem nenhum. Meu sorriso iluminava meu rosto, e hoje vejo meus dentes falsos descansando num copo. Sou toda rugas e veias, mas nem sempre foi assim... minhas mãos eram lisas, macias, bem cuidadas e eu não apertava os olhos para ler... Eu era linda e eu queria alguém que pudesse ver e dizer "meu amor, suas mãos são tão macias... que cheiro bom tem seu cabelo.. você é linda quando acorda."
_Onde você estava quando eu era linda, Aurélio? com outras tão lindas? duvido. Você demorou muito, tanto... você chegou numa má hora e olha só que engraçado... no final só eu paguei pela sua demora.

Helena estava já sozinha, Aurélio se fora e ela nem notou em que momento ele partira. Ele esqueceu o par de meias grossas, ela percebeu com amargo sorriso. Suspirou fundo, deitou-se novamente na cama, olhou o teto, sorriu, chorou, fechou os olhos e morreu.

14 janeiro 2008

A Proposta

E ficou combinado que ela não o olharia nos olhos jamais, e esqueceria as juras de amor, esqueceria as toalhas molhadas na cama, esqueceria a cor dos seus cabelos.
E ele lembraria pra sempre de seu perfume e do som da sua voz ao dar "bom dia" logo que acordava, e das mãos macias torcendo os dedos nervosa.
Ficou combinado que ela seria feliz, e ele seria infeliz, ou o contrário,mas ficou combinado que não se veriam mais.
Porque com ele ela chorava mais, ela dormia mais tarde, ela emagrecia. Com ele ela não lembrava de pintar a raiz dos cabelos nem mandava cartões de Natal pros amigos.
Com ele ela roíia as unhas.
Ele iria mais cedo pra academia, ele poderia ver o futebol às quartas, ele poderia jogar a toalha molhada na cama.
Ou no chão.
Ficou decidido que ele iria amar outra, uma loira natural, uma negra, uma ruiva. Ficou combinado, disse ele a si mesmo, e vai dar certo, disse ele a si mesmo e aos amigos, no bar.
Ela aboliu os saltos altos, discutiu com a colega de trabalho, com a mãe, com o sobrinho pequeno, ela chorou, ela cortou os cabelos e resolveu não pintá-los mais, ela rasgou fotos e cartas, mas estava combinado, ela dizia a si mesma e às amigas ao telefone.
O combinado foi que os dois deveriam ser felizes.
Ele a partir dali saiu sorrindo em todas as fotos, ficou mais bronzeado e com os músculos mais firmes. Seguiu o combinado.
Ela a partir dali perdeu um pouco do brilho dos olhos, nunca mais foi loira, e os amigos a acharam mais jovem mesmo assim.
Achou que seguiu o combinado também.
Não se sabe como foi dali pra frente... a vida é um círculo vicioso, a cada dia é um novo acordo, um novo trato: Eu vou ser feliz e você também, ok?
Ok.

31 dezembro 2007

Peço-te...


Aos amigos digo: Fiquem por perto.

Ao futuro: Tenha dó de mim.

Aos impulsos : Quero ter disposição para segui-los

Para a razão : Deixe-me por um minuto, sim?

Para um amor antigo : Não te perdôo pelas lágrimas

Aos que nascem: Boa sorte!

Aos que partem: Vou sentir saudade.

Para os bons: Que a vida lhes faça justiça.

Para os maus: Que a vida lhes faça justiça.

Para a minha cama digo: Me acolhe bem.

Aos meus botões: "Non Je Ne Regret Rien!"

Aos meus pensamentos: Voem!!!

Para meus olhos: Olhem além.

Para os meus pés: Levem-me a águas tranquilas.

Para o meu coração: De novo não, por favor!

Para minha voz: "Canta mais!"

Para outra boca: Beija-me!

Para outra mão: Toca-me!

Para outro coração: Ama-me!


A mim mesmo: Boa sorte!Faz-me justiça! Tem dó de mim! Leva-me a águas tranquilas! Canta mais! Não sentes saudades! Deixa-me por um momento! Me acolhe! Ama-me! Perdoa-me pelas lágrimas! Não te arrependes de nada! Olha além! Olha além! Olha além!!!

25 novembro 2007

Essa Tal Serenidade


De frios na barriga e calafrios vou diferenciando um dia do outro.
Sou tantas sensações que me perco às vezes e me anestesio.
Entra em colapso, sabe?

Colapso, uma palavra que explica tanta coisa.
Caos, outra que esclarece muito também.
Porque quando não entendo NADA , eu grito "é um caos!"
Ou quando não ME entendo nada, eu grito "estou tendo um colapso!"

E me sinto melhor.

Percebi que quando fico feliz eu olho horas pros meus dedos, pensando
E quando sofro, mordo minhas bochechas viciadamente.
Elas estão em carne viva agora.

Tenho umas sutilezas que por enquanto só eu sei.
Alguém um dia se aproximará com interesse suficiente e perceberá também.
Pelo menos eu espero que sim.
Existem tantas pessoas distraídas e despercebidas no mundo.

Uma vez num dos poucos velórios que fui, alguém disse que o morto, ou a morta, estava com uma expressão "serena".
Eu devo estar com essa mesma expressão, só que vivo.
E não sei explicar como é isso.
Só que estou "sereno" mesmo em meio a um naufrágio já citado e a todas as dores que ele provoca.
Será que morri?
Enfim, amanhã posso me decompôr, mas hoje estou sereno.
Talvez seja uma maquilagem (com certeza né?!)

Resumindo:estou sereno no caos, no colapso, no naufrágio.
Sereno como um cadáver bem maquilado.

22 novembro 2007

Se A Vida Fosse Música

Seria de vários tons

Se a vida fosse música começaria num andamento lento e compassado, pra depois atingir um ritmo quase inalcançável de se interpretar.

Se a vida fosse música seria interessante: ela teria refrão, estrofe e final.

Se a vida fosse música ela seria uma valsa, um frevo, um rock ou um samba?

Se a vida fosse música ela seria cheia de silêncios, de pausas intermináveis.

Se a minha vida fosse uma música ela seria um solo de contralto.

Em tom maior, aliás, seria em Dó maior, sem sustenidos.

Se a vida fosse música.. ah, eu a cantaria toda, e teria belas harmonias e nada de dissonâncias!

Nenhuma voz ou instrumento desafinaria.

De tantas semelhanças chego a pensar que a vida é sim, uma música.

Embora a minha pareça um jazz...

19 novembro 2007

Auto-Crítica Em Meio Ao Naufrágio.


Estou aqui diante desta tela branca que aos poucos vai se escurecendo pelas letras e palavras pra escrever algo sobre esses dias que tenho passado e que não poderiam passar em branco.
E por que não poderiam?
E eu penso: porque são dos piores que já vivi.
Porém não quero, por Deus, escrever mais uma lamentação e dor e amargura.
E aqui fica o desafio, porque nunca senti tanta dor e revolta e mágoa e frustração e decepção e tristeza e amargura.
Tenho ouvido muitas palavras de superação, de ânimo, de incentivo e umas broncas também.
Mas como diz a música e uma amiga repete sempre: "cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é."
Queria ser mais delícia ,mas sou mais dor.
Mas vou parando por aqui, porque minha intenção é apenas falar, e não falar de dor.
Quero falar para, depois, num futuro próximo, eu ler o que consegui escrever em meio a um grande sofrimento.
E na verdade porque tenho falado das pontas visíveis desse iceberg durante todos esses posts, desde que o blog existe.
Agora o iceberg está inteiro à mostra, bati de frente nele e o navio está afundando.
E agora que ele está inteiro não vou falar dele nem do naufrágio.
Vou falar de mim, e tão somente de mim.

O texto pra valer começa aqui:
Achei que 2007 ia ser bom pra mim,por ser um ano ímpar (desenvolvi uma observação supersticiosa que meus ultimos anos relativamente bons foram anos ÍMPARES)
Teoria/superstição derrubada por terra agora.
Mas claro, o ano é um número, um espaço inventado, uma contagem criada para situar os fatos que se desenrolam na nossa vida.
Portanto, estou numa FASE difícil.
Fase esta que estou conhecendo meu mais obscuro lado.
Me disseram que sofro por orgulho ferido e acho que é verdade
Descobri que mais que amor, tenho mágoa.

Eu que perdôo com facilidade, teve uma que não deixei passar.
Lembro de um trecho de um livro de Clarice Lispector que diz "EU TE AMO!_disse ela com ódio ao homem cujo único crime que cometera fora o de não amá-la".

Eu digo "eu te amo" com fúria a algumas pessoas e as vezes à própria vida, mas com mais fúria do que amor.
Com mais mágoa que qualquer outra coisa.
Porque não os perdôo por não me amarem.
Não entendo como se pode NÃO me amar!
E descubro que também sou prepotente e audacioso, não é minha auto-estima que é boa não.

E pra mim no momento, a mágoa e o rancor são montanhas intransponíveis e minha fé menos do que um grão de mostrada porque estou rouco de gritar e elas não se movem.
Portanto leia-se "rancoroso" onde se dizia "amoroso".

Sou um pote de mágoa onde a gota d'água já caiu e provocou uma tempestade.
Alagou minha vida.
Percebi também que minha facilidade de perdoar se dá somente quando quem me ofendeu se arrepende e pede desculpas ou perdão.
Quanto às outras, desejo-lhes a pior morte.

Sim queridos, esse sou eu.
Preciso crescer, ou me tornar como criança para ver o Reino dos Céus.

12 novembro 2007

Iminente


Há um fio de cabelo fora do lugar

Uma alça do vestido está caída no ombro.

Um copo está na ponta da mesa.

Um carro atravessa em velocidade o sinal vermelho.

O portão do cão raivoso está entreaberto.

A chama da vela está próxima da cortina.

Uma criança aproxima-se curiosa do fogão onde uma panela arde.

Outra acha a arma do pai e senta-se para brincar com ela.

Pingos insistem em cair muito perto da tomada.

O suicida sobe na cadeira e prepara o laço.

O dedo está muito perto do prego batido pelo martelo.

O jovem surfista está muito perto dos arrecifes.

A faxineira na ponta dos pés se apóia para limpar a janela de vidro do 20º andar.

O ciclista despreocupado não vê o buraco à sua frente.

A linha com cerol se estende invisível em frente ao motoqueiro sem capacete.

O iogurte foi servido vencido.

O pneu está careca.

O chão está liso e vem vindo um idoso.

O andaime balança demais ao vento.

Eu docemente acredito no amor e espero um abraço.

02 novembro 2007

Psiu!!!!

"Mulher, eu num sei viver nesse mundo não!!!"

Olhei pra trás pra ver quem eram as duas amigas que conversavam em voz (muito) alta dentro do ônibus numa manhã de qualquer dia desses.
Tudo porque a que proferiu essa frase perdeu pela milésima vez o ponto de descer.

_Aff, Evilene(nome fictício) tu passa aqui toda vida e ainda não prestou atenção em que parada desce!!!!
_Pois num é menina, eu sou assim... Ai mulher, eu num sei viver nesse mundo não!

E desceram as duas, rindo, como se soubessem muito bem viver onde quer que fosse.

Essas duas figuras tornaram a viagem muito diferente.

Primeiro porque falavam MUITO alto e incomodavam todos os silenciosos passageiros, alguns se arriscaram a um "pssiiiiiiiiu!" que elas não ouviram, ou fingiram não ouvir.

Segundo porque a conversa delas era algo muito real mas de tão real foi ficando meio estereotipado para nós que fugimos de saber da violência real do mundo.

Falavam do irmão de uma delas que "não anda mais com o Fuinha(nf) porque ele tá jurado de morte e já tentaram matar ele três vezes e se o Vilebaldo(nf) estiver junto..."

_Tu sabe né mulher, ele papoca também!
_Ah é, eles num querem nem saber, atiram em todo mundo que tiver junto!

E dessa conversa iam para outras acerca de alguma "amiga" que pediu um walkman emprestado e não devolveu.

_A Rosilânia (nf) é assim, já perdeu um cd que eu emprestei a ela e nunca comprou outro... nem sei porque emprestei meu walkman!

Enfim, eram mazelas e problemas um atrás do outro, mas narrados com tanta energia e excitação que quase duvidei que aquilo tudo fosse com elas mesmo.

Mas desceram do ônibus e fecharam com chave de ouro suas aparições nas nossas vidas com a frase :
"Mulher eu não sei viver nesse mundo não!"

Acho que aí foi quando o nome diferente dela (os nomes que eu criei são equivalentes aos reais, que de tão complicados não lembro mais) e tudo mais que dela era incompatível com o restante das pessoas, todas muito emproadas e sisudas como se fossem diferentes das alegres companheiras de viagem, tudo isso mudou.

Muita gente naquele ônibus também não sabia viver nesse mundo.
Eu mesmo não sei, como a Evilene.

Talvez porque não saber viver também é sabedoria.
"Perder-se também é caminho" já disse Clarice Lispector.
Enquanto outro diz que "é PRECISO saber viver"
Enfim, escolham suas canções.

Mais tarde, contando a uma amiga esse episódio, ela concordou que também não sabia viver nesse mundo.
Inventamos mil ardis pra perdoarmos nossos próprios erros, maquilamos nossos fracassos para pôr a culpa em outros, damos mais importância a coisas fúteis para não termos que resolver nossos problemas.
Isso é saber viver?

Acho que não, pois achei que eu soubesse viver, mas quando lembro dos dias negros que tenho passado, e como são frequentes, eu penso que talvez eu não saiba mesmo.
Ou isso de repente é a vida.

Enfim, sabendo ou não, existe o aprender.
Como porém o método é totalmente empírico, não acredito em teorias de "faça isso, não faça aquilo"
Acredito que se aprende a viver, vivendo.
E aprender a viver nada tem a ver com felicidade, na minha opinião.

Tem a ver com descer nas paradas certas
Tem a ver com não andar com quem é jurado de morte nem emprestar walkman a quem perde coisas.
Tem a ver com se proteger, com estar no lugar certo na hora certa ou no lugar errado na hora certa.
Tem a ver com não entender esse texto.

Evilene, você que não sabe viver é que é feliz.

22 outubro 2007

Ocaso.




Uma praia tranquila, fim de tarde.
Três amigos sentados na areia, descalços.
Ana, Pedro e Lúcia.
Ana achou que o pôr do sol era a coisa mais linda que ela conhecia.
Lúcia preferia o nascer do sol, que dificilmente via.
Pedro gostava da lua, não se importava muito com os movimentos do sol.

Ana- É que ficam umas cores tão bonitas, e diferentes.
Lúcia - No nascer do sol, as cores são frias, azuis, e minha cor preferida é o azul.
Ana - No ocaso ficam vermelhas, laranja, e ali olha..uma nuvem lilás! Eu adoro lilás.
Pedro - Eu gosto da lua.. cheia, nova, minguante, crescente... Eu queria morar lá.

Riram

Ana- Lá é solitário
Lúcia- Aqui também
Ana-Quem você levaria pra morar com você na Lua, Pedro?
Pedro- Hum... vocês duas..minha mãe, meu pai, meu cachorro, minha irmã, meu irmão...a Luana apaixonada por mim...levaria também a Bia, o André, o tio Vitor..
Ana- Ah, muita gente, lá vai ficar como aqui.
Pedro- É.. é melhor eu ficar aqui. Lá eu moraria na lua mas não a veria.
Lúcia-Tem certas coisas que só nos encantam de longe.
Ana - Tem certas coisas que só nos encantam quando não as temos.

Silêncio

Ana-É melhor ter as coisas ou viver encantada?
Lúcia- Não sei.
Pedro-Humm... difícil dizer.
Ana e Lúcia - É.

Ana começou a mexer na areia,juntando montinhos úmidos, contruindo algo

Pedro-Vai fazer um castelo?
Ana-Não sei, vou moldar a areia e decidir enquanto isso.

Lúcia começou a escrever seu nome na areia, bem desenhado.

Pedro pegou conchinhas e pedrinhas e ficou atirando longe.

Mas as pedrinhas acabaram.

Lúcia derrubou o castelinho que Ana fazia e Ana apagou com o pé o nome de Lúcia na areia.

Riram.

Pedro- Alguém já destruiu seus planos algum dia, Ana?
Ana- Já... Não por maldade, mas por indiferença. Planos que envolvem outra pessoa são destruídos mais cedo ou mais tarde.
Pedro- Você já foi esquecida , Lúcia?
Lúcia- Já. Logo por quem eu sempre desejei que lembrasse de mim pra sempre.
Ana- E você Pedro? Algo em você já acabou?
Pedro- Não. Ainda há um pouco de cada coisa.

Se olharam os três e sorriram.

Pedro- Vocês são felizes?
Ana- Não sei.
Lúcia-Não.
Ana e Lúcia- E você?
Pedro-Acho que sou.
Lúcia-Por quê só eu tenho certeza?

Sorriram.

Ana-O sol se pôs.
Pedro-Não foi tão bonito.
Lúcia-Está escuro.
Ana-E frio.

Noite.

15 outubro 2007

O Sonhador


O que ele mais sabia fazer na vida era sonhar.
Sonhava de dia, iluminado pelo sol e sentindo calor.
Sonhava de noite, no escuro e olhando o céu sem estrelas.
Sonhava no inverno, no verão, em todas as estações.
Até nos anos bissextos sonhava.

E um sonho só, ele sonhava.
Todos os outros desejos não importavam, eram vontades apenas
Mas sonho era um só.
O mesmo, sempre.

Exatamente o único que não se realizava.

E lutava, corria atrás, como diziam nos filmes.
Cuidava dos jardins, regava o sentimento.
Buscava a excelência.
Se fazia merecedor.
E nada ainda.

O Sonhador se angustiou.
O tempo estava passando, as noites, os invernos.
E nada.

O Sonhador sentiu que sonhar era bom quando o sonho se realizava
Dentro de um certo tempo.
Mas quando se passavam anos, décadas... virava pesadelo.

E como esquecer o sonho?
Como desistir?
Ele não sabia, pois sonhar foi tudo que fez a vida toda

O Sonhador quis morrer, levar consigo o sonho.
Mas pra onde? O perseguiria.

Ele nunca deixava de receber golpes, o Sonhador
Todo dia, todo agosto, todo Natal.
Todo pôr-do-sol o Sonhador sofria.

Vendo seu sonho se realizar em outros, a todo momento.
Seu sonho era possível apenas a estranhos, nunca a ele.
E ele sabia que os outros não sonhavam.
Eram vontade, desejos, realizados.

O Sonhador achou a vida cruel, o sonho cruel.
Se sentiu cruel por sonhar.
Mas estava lá ainda, o sonho, implacável
E imutável, pois vinha do coração.

O Sonhador sonhou até o último dia de sua vida.
Passaram-se mais anos, mais décadas, tantos verões.
O Sonhador se curvou e perdeu o brilho dos olhos.
Ficou velho, doente, fraco, amargo, mau e feio.
Definhou.
E morreu o Sonhador, com desejos e vontades realizados.

Mas O Sonho, jamais.

31 agosto 2007

"Alguém Com Os Pés Na Água..."


Depois de muuito tempo sem postar nada, senti a necessidade de vir dizer umas coisas:


1- É para mim, ítem de primeira necessidade, tampões de ouvido, pois certos chamados da vida não devemos ouvir nem atender.

Porque lembro que ia passando e uma voz me chamou: "ei, vem cá!"

Atendi seu chamado e desde então vêm dores, amores, paz, guerra, noites e manhãs. Hoje eu penso que devia ter usado tampões de ouvido.


2- Ainda não sei se o tempo cura alguma coisa, ou se ele apenas modifica, pela sua implacável ação. Cabelos vão caindo e ficando brancos, rugas aparecem onde não existiam, e o sono parece ser menos dispensável, mas aquele amor ou aquela mágoa parecem apenas mudar de forma,mas não somem/curam-se.

Talvez seja essa a diferença entre envelhecer e amadurecer, talvez o amadurecimento cure, o tempo só envelheça.


3- Não ando querendo falar de amor nem de amar, finjo que não me importo, ou faço de conta que não sei o que é isso. "Amor? o quê? como assim??"

Mas sei bem, pobre de mim.

E não querendo falar, falo. Porque é a parte que me cabe nesse latifúndio.


4- E quando penso na solidão ou no desamor, eu imediatamente lembro da prova que não estudei e já é amanhã ou dos meus cds que ainda não arrumei na estante, e ponho as mãos na cabeça e me desespero "meu Deus!!! não estudei pra prova, e agora???????" e continuo o faz-de-conta, de que são esses os problemas que me afligem, quando na verdade, são os únicos que eu tiro de letra.


5- Fui a uma serra muito bonita mas a única coisa que fiz foi tirar fotos e molhar meus pés na água fria e agradável. Como teria sido se eu tivesse me molhado todo e não só os pés? Me vejo sentindo frio e perdendo as lentes de contato. Deve ter um jeito da gente aproveitar a natureza sem ter aborrecimentos.


6- Quem me conhece sabe que eu canto em grupos e corais, e outro dia ouvi uma gravação e minha voz grave e urgente cantava "quem tem amor ausente já viveu a minha dor", e senti TANTO carinho por mim mesmo, aquela voz nunca foi tão minha. Identifiquei cada nota de carinho, calor e tristeza impregnada na minha própria voz grave e urgente.

É, eu sou grave e urgente.


7- Ando sorrindo muito quando estou com meus amigos, mas lógico, sinto falta do sorriso de antes. Hoje é mais uma coisa meio bizarra de sarcasmo e lá no finzinho, uma esperança tímida como a pessoa que foi ao aniversário sem ter sido convidada.


Enfim, de nada mais me adiantam os tampões de ouvido, até porque ainda espero a Vida dizer de novo "vem cá!" porque dessa vez eu direi "nãão, venha cá você!".


02 julho 2007

Dias.


É domingo e eu sou magro, feio e solitário, desligo a tv na tomada e o dia parece ser todo alaranjado de melancolia.

Segunda-feira é dia de juntar cacos, dou sinal para ônibus pararem, procuro um assento como quem procura a salvação e à noite suspiro e adio tudo que pode ser adiado.

Terça-feira eu sorrio mais do que o normal e sem explicações, penso que a vida é bela e sou só eficiência, tiro fotos porque saio bem nelas e durmo sem chorar.

Quarta-feira sou um mistério, falto aula, da cama olho o chão e tudo que há debaixo das coisas, é quando acho que tudo precisa de faxina e ligo pra quem tenho saudade, nesse dia não canto.

Na quinta-feira eu falo verdades, crio contendas, e surge um sorriso meio diabólico no meu rosto, amaldiçôo inimigos e não acredito no amor nem na felicidade. Canto muito, bebo pouca água e de noite na cama choro mais que o normal.

Sexta-feira tenho esperanças, dou conselhos, abraços, visto roupas novas, sou militante, sou mártir e bato no peito e digo "eu amo!", às sextas feiras quero ver o mar e sinto por não ter um grupo de amigos que jogue futebol.

Sábado sou tenso, uma corda afinada em Mi. Me acho muito bonito e tenho pena que ninguém me viu assim. Sábado sou um afogado tentando subir à tona, sou uma rede amparando um suicida, sou um trapézio de circo quebrado. Sou qualquer personagem do cinema, sou Chaplin.

É domingo de novo e dessa vez sou gordo, feio e pareço estar num sonho ou pesadelo. Ouço cirandas e vejo cata-ventos onde não há nada senão um céu azul brilhando em desafio.

Sou sempre uma coisa diferente da outra, desde que nasci nunca me repeti. O que me fez cansar e ter dores nas costas.
Por jamais ter me repetido, espero que um dia desses, seja numa quarta-feira ou sábado, eu seja finalmente feliz.

07 junho 2007

...


Vinícius de Moraes dizia que era preciso um pouquinho de tristeza, senão não se faz um samba.


Quando ela é demais, porém igualmente não se faz o samba.

Não se faz nada, nem uma valsa, nem uma poesia, nem um café.


Eu não escrevo, não como, não durmo.

Mal penso.


E minhas palavras vão terminando precocemente

Não tenho o que falar, só o que sentir.


Me sinto como se...

15 maio 2007

Sobre Sonhar


Ter estrelas na boca
Ter sonhos nos olhos
Ter flores no cabelo
Ser.

Na vida se é?
Na vida se faz?
Na vida se vive?

Quem quer ter sonhos?
E flores?
E estrelas?

Mas temos apenas boca
Olhos
E cabelos

E sonhos?
Temos às vezes
Por isso vivemos
Ou por eles
Definhamos.

De triste e louco
Todo mundo tem um tanto.
Suficiente pra fazer sonhar
E chorar

E amar
A maior loucura que é
O maior sonho
Sonho.

O maior sonho do ser humano
É ser amado?
Se for
Pobre homem
Sonha

Meu maior sonho não sei qual é
Ter um sonho talvez
Não desses de amor
Mas um que se realize

Quero ter estrelas na boca.

18 abril 2007

Uma Canção Pra Ninguém Ouvir.

Existem cenas e cenas.
Umas a gente vê e esquece em seguida, outras nos fazem pensar um pouco.
Algumas nos incomodam.

Como quando eu e amigos caminhavamos num domingo à noite num centro cultural formado entre tantas coisas, por "barzinhos" com música ao vivo.
Quando passávamos por um, minha amiga diz : "meu Deus, que triste!"
Quando olhei na direção que ela apontou, vi um homem.


Ele tinha um violão e tocava muito bem.
Tinha um microfone à sua frente e cantava muito bem também.
À sua frente, dezenas de mesas e cadeiras.
Vazias.
Mesmo assim ele cantava e tocava e exercia seu papel.

Minha amiga teve pena do cantor, contratado pelo bar pra animar seus clientes com música enquanto bebiam ou comiam.
Mas não havia clientes, só garçons pra lá e pra cá, esperando alguém ocupar uma das mesas desertas.

E o cantor, por que apenas ele chamou nossa atenção?
Por acaso os garçons também não estavam sem exercer a sua função de garçon por não ter cliente algum?
O problema é que o outro, cantava!
E nenhum garçon estava servindo o "nada".

Mas o cantor, cantava
Entre uma música e outra, pensei eu, no lugar de aplausos, o silêncio.
Nem sequer críticas ou correções.
Se ele errasse a letra, ninguém perceberia ou se importaria.
Se ele ornamentasse um trecho, mostrasse o que pode fazer com a voz, ninguém admiraria.

Pensei "ele está fazendo por obrigação,por dinheiro, está sendo pago pra cantar , e canta, mesmo sem público."
Se enquanto ele cantava ele estava sendo feliz, não sei.
Mas despertou pena e constrangimento na minha amiga e quem sabe em quem mais.

Quem é capaz de viver por obrigação?
Sem ter platéia, sem ter ninguém percebendo?
Ouvi em algum lugar que o sentido de se ter alguém na vida (casados,por exemplo) é pra se ter uma testemunha da sua existência.
Alguém que você saiba que está lhe acompanhando, lhe dando atenção.
Pra sua vida não passar despercebida.

Minha amiga e eu percebemos o cantor.
Mas não sentamos e viramos platéia.
Continuamos andando.

Penso em quem vive sem testemunhas.
Em quem não tem quem veja seu novo corte de cabelo, em quem não tem com quem compartilhar quando se faz um bom negócio.
Quando se tira 10 com louvor em uma prova.
Em quem não tem a quem mostrar sua roupa nova.
Em quem não tem.

Penso em quem vive pelo pagamento apenas.
Porque tem que viver pra viver.

Depois pensei "coitado dele nada, no final,de qualquer maneira, saiu com o bolso cheio de dinheiro."
Mas qual o mérito de "qualquer maneira"?
Bom, mas talvez seja esse o segredo: não dar a mínima se alguém vai parar pra lhe ver ou escutar.
Fiquei pensando se ele recebeu feliz o pagamento ou se ele se sentiu humilhado.

Mas que foi uma cena triste, foi.

O cantor não podia dizer "só canto quando alguém parar pra me ouvir!"
Nós não podemos dizer "só vivo quando alguém realmente se importar que eu viva ou morra!"
Não, esse direito não há.
Apenas se vive, se canta.
Sem testemunhas nem platéia.

08 março 2007

Suportando Gente Insuportável

Existem inúmeros livros e artigos sobre como lidar com pessoas que você não gosta.
Nunca li nenhum, até porque acho irritante alguém querer ensinar coisas passo a passo, com "dicas"e provérbios com aquele tom determinista e politicamente correto.

Mas um dia desses alguém desabafava comigo que não suportava mais alguns colegas de faculdade, que eram pessoas fúteis, artificiais e hostis, que nunca deixavam ele falar nem o consideravam digno de atenção.
Eu então aconselhei "xingue-os em pensamento, crie apelidos pejorativos e guarde-os para si, depois você ainda vai rir da cara deles por mal saberem como você os despreza."
Meu amigo riu, disse que era uma boa idéia e não sei se ele usou e/ou funcionou.

O fato é que ao lidar com pessoas que você não gosta, você admite duas realidades:
1- você constata que existem pessoas que você não gosta!
2- você constata que não tem escolha a não ser conviver com elas.

Eu, que sempre me vangloriei por ser tolerante e gostar das pessoas em geral, fui vendo com o tempo que não é bem assim. À medida que você envelhece, tem frustrações, é traído, é enganado ou passado pra trás, você começa a perceber que não gosta de algumas pessoas.
E não tem a menor vontade de gostar delas.
Nem obrigação.
Não há mais a tia da escola dizendo "não pooode ficar de mal, todos têm que ser amiguiiiiiinhos", e obrigando você a apertar a mão e abraçar alguém que você há poucos instantes, na sua crueldade inocente de criança, queria que tivesse explodido no ar.

Se não vivêssemos em civilização, nem seguissémos códigos de conduta, poderíamos simplesmente nunca mais pisarmos de volta num lugar onde houvesse alguém que não gostamos, mas as regras sociais não nos permite.

E a lei de Murphy pode colaborar pra que, no seu trabalho por exemplo, a única pessoa que você acha chata ou maldosa seja exatamente a designada a dividir a sala ou a mesa com você.
Ou na faculdade, sobra essa malograda pessoa para você fazer aquele trabalho em dupla.

Na minha opinião, cada pessoa deve agir da maneira que quiser nessas situações. Eu observo que existem inúmeras reações a conviver com quem não se gosta.

Existem os que dizem "não tenho o direito de não gostar de alguém, são todos filhos de Deus como eu, blá blá blá, então vou me trabalhar pra aceitar e gostar dessa pessoa, afinal, ela deve ter coisas maravilhosas pra trocar comigo, que eu possa aprender, tenho certeza que por trás dessa casca repugnante existe uma pessoa afável e cheia de amizade pra dar."

Esse discurso é extremamente comum nos livros de auto-ajuda e religiosos e praticado por seguidores dessa ou daquela tendência.
Conheci alguns que professaram esse discurso, mas geralmente um dia eles explodem e querem agarrar a pessoa pela gola da camisa e dar uns tabefes bem fortes até sair sangue do ser que no fundo seria uma pessoa "afável".

Existem também os que dizem "eu não vou ganhar nada não gostando da pessoa, sei lá se mais adiante vou precisar dela , a vida dá voltas, se um dia eu precisar dela, vou me dar mal se expôr minha antipatia."
Parece um discurso extremamente materialista e egoísta, se está "aturando" alguém visando mais tarde uma recompensa. Quem age assim geralmente desenvolve alguma doença gastro-intestinal ou mesmo nervosa, pois muitas vezes a pessoa nunca precisa da outra e suportou tanta chatice à toa.
O mundo gira tanto que a vida afasta essa pessoa depois e você não teve oportunidade de demonstrar o quanto ela lhe desagradava.

Eu não sei que tipo eu me encaixo na hora de conviver com quem não gosto, mas acho que uma maneira muito honesta é : se houver razão pra você não gostar da pessoa (se ela tiver aprontado alguma e você perdeu a confiança que de repente você já nem tinha nela), não se anule.
Se não consegue perdoar, deixe claro que você não gosta dela, não com grosseria nem ironia nem nada que vá agredir a pessoa, mas um olhar frio, um tom de voz gelado e uma atitude de "que fique bem claro que não gosto de você" pode ser mais saudável pois você não será falso nem permitirá que a pessoa lhe chateie tentando se aproximar demais.
Você a estará respeitando e se respeitando mantendo distância pelo menos psicológica dela, se física não for realmente possível.

Se ela não lhe fez nada, acho que vale a pena dar um crédito, antipatia gratuita pode impedir que você amplie seus horizontes e conheça uma pessoa que lhe surpreenda. Mas claro, essa antipatia também pode servir de alerta, principalmente quando você tem um sexto sentido que meio que lhe mostra quem vai sacanear você no futuro, portanto, ter cuidado também não custa nada.
Você não precisa emprestar seu carro nem é obrigado a fazer um jantar e contar seus segredos a uma pessoa que você não simpatiza.

Ou... você pode agir da maneira que seu coração mandar, afinal quantas vezes a gente está tãããão preocupado em não machucar alguém, mas aí esse alguém vem e passa como um trator em cima de você sem o menor pudor.

Enfim, esse assunto rende muitas outras discussões, possibilidades e pontos de vista.
Mas o mais importante é ser honesto consigo mesmo: se você consegue virar o jogo e gostar de alguém que á primeira vista lhe dá náuseas, ótimo, parabéns, continue assim.
Mas se não, nada de hipocrisia e falsa benevolência, respeite seus limites e humanidades.
Ou pratique boxe e desenhe a cara do seu desafeto no saco antes de dar socos.

08 fevereiro 2007

Its A Long Way

Foi Assim: eu nasci e desde então tem sido tudo muito engraçado e espantoso.
O engraçado é o procurar incessante.
Por tudo, e mal encontrar nada.

Encarar toda uma vida parece humanamente impossível.
A partir de que ponto alguém substitui a gente na caminhada?
Nunca né? então tá.

Aí está a estrada e em algum lugar que eu não lembro eu deixei minha garrafinha de água.
O sol é escaldante e eu ando na estrada sem água.
Vejamos até onde se pode ir assim.

Dos amores que tive e que amei desesperadamente, porque essa é minha maneira de amar, não levei de nenhum sequer um lenço.
Sabe, é que uma bela manhã você está passando manteiga no pão e começa a chorar.
Como se você fosse um fracassado qualquer.

E no rádio a voz entoa a canção: co-mo-se-fo-rabrincadeiraderooooda
E eu grito "memória!!"
E dou muita risada porque apesar de espantosa, a vida é engraçada.
E lágrimas a gente limpa com guardanapo, lenço ou mesmo com a mão.

Numa dessas gargalhadas eu lembro que não esqueci a garrafa com água
Na verdade eu não tinha, morava num deserto.
Só acho, se é que minha opinião vale alguma coisa, que quem não tem água não devia ser posto na estrada.
Mas é, e ainda gritam: "VAI! ANDA!"
Tem grilhões nos pés, chicotadas, e poeira fina no rosto, mas isso nem se percebe, porque a sede faz tudo mais parecer bobagem.

E sabe, uma bela noite você tem um minuto de pânico por achar que a vida não faz sentido.
Mas faz, e seja qual for, não importa.
O que importa é que há a estrada à frente.
Verifique se você terá água suficiente pra levar.

26 janeiro 2007

Duelo


Ela olha o objeto do seu amor deitado ao seu lado.
Ele dorme inocente.
Ela observa o contorno de sua orelha, o brilho do cabelo e percebe a respiração calma.
Inspira, expira..

Ela também, e sorri com docilidade.
Se olha no espelho no canto do quarto
Vê rugas de longe, na penumbra
Ela pode ver que seu olhar é cheio de dores
O sorriso some imediatamente

As rugas, as marcas, a dor no olhar
É culpa dele, que dorme sem culpa
A última palavra que ele lhe disse antes de adormecer foi um "boa noite" resmungado.
Grosseiro.
"Ele me odeia" ela pensa
Mas sabe que nem isso

Ele a despreza, ela sabe.
E ela o ama.
Ela acha.
Na verdade ela não sabe mais de nada.

Ela fecha os olhos, cai uma lágrima
Espremida dos olhos, como suco de limão
E de igual sabor, azedo.
Ela de olhos fechados se pergunta porque está ali
Velando, parada, deitada, amando alguém que a despreza.

Ela se olha com raiva no espelho
"Porque você faz isso a si mesma??"
Pergunta revoltada ao reflexo
A mulher no espelho não responde, chora.
Ela tem pena, muita pena de si mesma

Olha pra ele, que já começa a roncar
Ela o odeia, deseja que ele se engasgue e morra dormindo.
Ela se odeia, pobre mulher
Odeia um dia ter amado.
Odeia não ter sido amada.
Ela não sabe mais a diferença de amor e ódio.
Pois plantou um e colheu outro.

Ela enxuga as lágrimas, está exausta.
Se deita, mas distante dele
Tentando sentir mágoa, um orgulho repentino
Um abismo na cama entre os dois.
Mas não dura muito
Num ato reflexo, o braço dele a procura, e ela percebe.

Humilhada, ela se aproxima
Não sabe dizer não.

Não consegue dizer não.

Num minuto o sol nasce.
Entre tantas coisas, ela perdeu mais uma noite de sono.
E assim a vida passa.


12 janeiro 2007

Antes Que Venham Os Maus Dias


Vai menininho
Vai brincar com teu carrinho novo
Mais tarde virão roubar tua alegria

Vai deitar na tua rede colorida
Descansa, repousa, balança ao vento
Depois tua árvore cairá e não terás mais abrigo.

Vai correndo com tuas moedas
Comprar o tão desejado doce
Porque depois..
Oh menino, como serão amargos os sabores

Aproveita menino, que te sentes protegido pelo teu pai
Um dia tu mesmo terás que te proteger, porque não haverá um pai capaz de tal coisa
E saberás o que é o abandono

Abraça, menino, abraça
Depois te será negado o carinho.

Mas menino, não perdes a esperança
Pode ser que tenhas sorte
E sejas feliz, quem sabe.

E tua vida seja doce e alegre e em paz.
Mas não vives para esperar por isso.

Porque a vida tem um senso de humor terrível
Adora destruir crianças como você
Pede um pão e ela te dá uma serpente.

Vai menino, esquece o que eu te disse
Apenas brinca, pois é tempo de brincar.
E boa sorte pra ti.

03 janeiro 2007

Turbilhão

E o mundo gira e as nuvens passam e eu tenho que andar na sombra porque o sol faz mal pra garganta e tenho que ter voz pra cantar porque quem canta os males espanta e preciso espantar meus males porque ano novo vida nova embora ano passado não tenha sido assim porque sofri muito e me frustrei muito e a culpa de quem é eu não sei nem quero saber porque o ano passou e águas passadas não movem moinhos pelo menos não os meus já que eu quero é ser feliz e saber se é possível alcançar a tal estrela inalcançável enquanto o mundo gira e eu ando na sombra porque o sol derrete meu sorvete de morango que não é meu sabor predileto mas é só o que tinha e também é bom menos pra garganta mas que se dane porque não me privo mais de nenhum prazer na vida pois para privar existe a própria vida e não durmo na hora certa nem chego na hora certa e no pesadelo corro e não saio do lugar e quando acordo sinto alívio mas estou atrasado estou sempre atrasado digo a mim mesmo corre corre vive vive ama ama porque o tempo é curto e a vida é longa mas sem garantia alguma apenas a do prazer do sorvete de morango e de quando eu não me atrasar mais e espantar os males e cantar e cantar e cantar e sorrir pra você quando na verdade sorrio pra mim mesmo porque só eu sei o quanto eu preciso deste sorriso e o que eu preciso eu me dou porque sou generoso para comigo mesmo não sei me negar nada quando vejo meus olhos sedentos aprendi que quem tem sede deve ser saciado e eu tenho sede e fome e algo mais minha satisfação é inalcançável é a própria estrela inalcançável meu amor é a própria razão de viver e meu pensamento é o próprio mundo que gira gira gira gira gira giraaaaaaaaa...

31 dezembro 2006

É Hora.


É a ultima sexta feira do ano.
É o último sábado do ano , meu Deus!
É a última manhã... é o último pôr do sol!
Esse período de 365 dias ou mais que delimitamos como um "bloco" de nossa vida.
Por que um novo ano é um novo ciclo?
Por que o ciclo não pode começar em agosto ou outubro?
Por que não dizemos em julho: "acho que agora vai!"?

Parece que entramos por uma porta: 2006.
Pronto, estamos dentro desse lugar que é 2006. Nosso hotel.
Aí viveremos algum tempo e no dia 31 de dezembro, deixaremos esse quarto de hotel para entrar em outro: 2007.
E na entrega da chave do nosso quarto, fazemos o balanço.
Foi boa a hospedagem?
_ Foi ótima! Arranjei emprego novo, comprei meu carro, namorei muito.. viajei.
ou:
_ Foi péssima... fiquei doente, desempregado, acabei meu namoro.. enfim.. espero que o próximo seja melhor.

E assim é.. queiramos ou não.. um ano novo é sempre um recomeço.
É a legitimação de "Pronto, vamos tentar mais uma vez."

A bandeira é verde e dá a largada: Se preparem pra percorrer um novo caminho.
Verde porque a esperança é a nossa bagagem.
Quem determinou que: "ano novo, vida nova"; tem suas razões.
É um renovar de esperanças, é um novo fôlego.
E se preparar pra tudo, afinal sabemos o que é essa vida.
Mas o bom é que sabemos que como passam-se os anos, passam-se certas dores.
Adeus dores velhas, que se curem as feridas.
Vamos caminhar.

E sorrir, chorar, brilhar os olhos, correr para um abraço, ver fotografias antigas, beijar no rosto, na boca, tomar banho de mar, de chuva, perder os óculos, o guarda chuva, pegar uma criança nos braços, guardar uma flor em um livro, sentir o coração de alguém batendo, ouvir a música, sonhar o sonho.
Viver, enfim.
Façamos ao entrar no quarto 2007.

E que seja uma hospedagem pra lá de feliz.

18 dezembro 2006

A Glória De Cair

Em dezembro de 1977, morria Clarice Lispector.
Parece-me que alguns blogers fizeram uma homenagem a ela, e eu também farei a minha:

"Nem todos chegam a fracassar porque é tão trabalhoso, é preciso antes subir penosamente até enfim atingir a altura de poder cair." (CL-A paixão segundo G.H.)

"E não tenho medo do fracasso. Que o fracasso me aniquile, quero a glória de cair."(CL -Água Viva)

Escolher algo de Clarice pra se falar é tarefa árdua. Escolhi essas duas citações que falam de "fracasso". Mas qual seria o verdadeiro fracasso?
Segundo o dicionário : "fracasso: 1.Ruína;desgraça 2. insucesso, mau êxito."

Penso que há o fracasso de não ter tentado, e o fracassar propriamente dito: tentar e não dar certo.
O fracasso de não tentar é a covardia, é o medo, é a mentira que disfarça em auto-proteção de quem diz: "não vou tentar porque sei que não vai dar certo; sou esperto."
Esperto? De espertos assim se fracassou o mundo.
Não amaram por medo, não falaram por medo, não viveram por medo.
Não tentaram por medo.

Porque quem somos nós pra sabermos o que é possível e o que não é?
Viver por acaso parece ser possível?
E no entanto, bem ou mal, se vive.

Como disse Clarice.
Fracassar não é pra todo mundo não.
Só para os corajosos.
Que sobem numa altura arriscada de se cair. Nessa subida e descida ele aprendeu muito.
Mais do que o covarde que não sobe um centímetro porque "não é possível, nem vou tentar".

Ao chegar lá em cima pode-se dar de cara com uma surpresa: o sucesso!
Mas há de se estar preparado para tudo. Também (principalmente) para o "insucesso, mau êxito".
Mas a subida para tudo prepara.
E a queda também.
Caso você despenque de algum lugar e alguém venha lhe dizer "Não falei?!"
Responda: "Caí porque subi, covarde."

Sofrer se vai de qualquer maneira.
Os que tentam e fracassam são devastados: "fracasso: ruína, desgraça".
Aniquilados.
Os que não tentam são ruínas por dentro, sofrem o fracasso de não ter coragem.

E assim muita coisa muda de figura.
Me vejo recompensado, meus fracassos não mais me tiram o sono.
Só me sentirei um fracassado quando eu disser a alguém: "Não vou te amar porque não tenho coragem".
Ou "Isso não é possível."

Viver não é possível, não sem amor nem prazer.
E não estou aqui, escrevendo em homenagem à Clarice Lispector!?

07 dezembro 2006

Fui Assaltado, Me Passa O Catchup?

Um amigo foi assaltado esses dias.
Levaram seu celular.
Quando eu disse "puxa vida, que coisa!", fui cortado por ele:
"Porque o espanto?? roubo é coisa simples, pra mim foi lucrativo..o celular era velho, o cara não me machucou nem me matou, e eu recuperei o chip...que mais posso querer?"
Eu podia responder "Não ser assaltado", mas não disse.

Essa postura me mostrou um "novo" tipo de ser humano: o que não tem a capacidade de se indignar com mais nada, o que não se sente mal por ter sido roubado, acha até "lucrativo." (!!!)
Ou será que meu amigo teve uma ponta de "Síndrome de Estocolmo"?
Do tipo: "o sequestrador era legal... ele me raptou, me ameaçava de morte, me deixou num lugar sujo cheio de ratos, mas não me batia, me dava comida , água e não me matou!! :)"

Será que hoje, somos gratos aos assaltantes se eles não nos machucarem?? SÓ roubarem?
Ou o brasileiro tem mesmo essa mentalidade de achar que os outros têm o direito de sacanearem ele? e ele tem a obrigação de ser sacaneado e não reclamar?

Quando expus meu ponto de vista, fui chamado por ele de hipócrita.
Sempre parece hipocrisia quando alguém tenta mostrar uma coisa simples que foi perdida.

Achar que ser roubado é uma coisa absurda, hoje é hipocrisia, afinal, todo dia milhões de pessoas são assaltadas a toda hora, portanto, se torna algo legal, legítimo, aceitável, normal e até esperado do dia-a-dia.
Quem vem roubar está cumprindo seu papel social de roubar e quem é roubado cumpre seu papel social de ser roubado.
Pronto.
É assim que tem que ser.
Se alguém diz "puxa vida!" está indo contra a lei natural (?) das coisas.

Bom, supõe-se que pessoas que saem sorrindo de um assalto então sejam pessoas COMPLETAMENTE desapegadas aos bens materiais...
Sei.
Quem é o hipócrita?
Talvez se eu tivesse muito dinheiro eu também não me importasse que roubassem meu celular velho.
Como eu não tenho, se me roubarem, entrego meu celular na hora, mas não vou sair dizendo "ai que bom, roubaram meu celular velho, vou comprar outro novo agora... "
E quanto ao desgaste emocional de se ser assaltado?
Perguntei ao meu amigo como ele podia dizer que o assalto foi "lucrativo" se houve o desgaste emocional de se ser abordado dessa maneira.
Ele disse que não houve esse desgaste, e mais uma vez me repreendeu que isso acontecia sempre, e que eu estava sendo hipócrita com história de desgaste emocional...

Talvez seja esse mesmo meu problema... não me conformo quando roubam meu celular, meu lanche na escola e meu amor, quando tiram meu direito, quando me maltratam.
Talvez eu deva perdoar quem faz isso e agradecer porque não faz pior.
Talvez o ideal seja se juntar a essa massa apática, alienada e conformista que se diminui enquanto ser humano e não tem a menor coerência no agir e só formam suas idéias baseadas nos seus próprios interesses.
Se eu já faço parte dela, eu deveria estar mais confortável.

Gostaria que os assaltantes por favor só roubassem pessoas como o meu amigo, que não se importam e não se desgastam com uma arma apontada pra eles.
Eu hein.

02 dezembro 2006

"É O Começo Do Fim"

"Ou é o fim".
Começou a acabar o ano.
Daqui a menos de um mês terei outra idade.
Dizem que "ano novo, vida nova"
Mesmo já tão perto de 2007, ainda não quero falar disso.
E sim do hoje.
Porque é hoje que eu ando pra lá e pra cá com um incômodo.
O que há pra se fazer hoje? o que sentir?
Uma sensação de perda... de vazio.
Mas não aquele torturante que provoca lágrimas e gritos.
Mas uma anestesia, um entorpecimento.
Sim, é isso.. estou entorpecido.
Porém lúcido, mas é uma coisa de corpo e alma, não de mente.
Sabe quando nada importa realmente?
Quando tudo que você sente vontade é franzir a bochecha num gesto de menosprezo?
Tipo: "ah sei lá, que seja assim.."
Sabe, porque viver cansa demais.
E sempre as mesmas caras lhe dizendo que não, e a mesma cidade estéril lhe dizendo que nunca, as mesmas incompetências e incapacidades...
As mesmas almas carentes de nobreza.
E a gente tem que estudar, trabalhar, comer bem, emagrecer, engordar, pagar dívidas, não fazer novas dívidas. Não importa como está nosso coração, nossa alma e se dormimos bem à noite.
Os compromissos gritam inclementes por nós.
E eu grito inclemente por alguém que não me dá ouvidos.
Se eu fosse uma dívida, eu seria atendido.
Mas pelo que andei vendo, não viemos ao mundo para sermos atendidos nos nossos gritos inclementes.
Por isso nem grito mais, só digo "ah sei lá... que seja assim..."
Porque me sentei um pouco pra descansar, são 20 e tantos anos em pé, na luta.
Me sinto uma empresa falida.
Sem Lucros.
Mas pra calar a boca dos que me acusam de não ter resistência, ainda estou funcionando, só fechado um pouco porque é final de semana, a empresa não abre (tampouco fatura).
Meu grito de guerra ultimamente é um bocejo enfadado.
Oaaahhhhhh, na cara de quem merece.
Me dou o direito de fechar a porta na cara de algumas pessoas que não merecem ser levadas a sério, nem ouvidas nem consideradas. Fecho a porta, sorrio e bocejo de novo.
Já já me levanto, vem um novo ano aí... é pra ser um bom motivo né?
O dever me chama, e eu tenho que atendê-lo.
Se eu fosse o dever, eu seria atendido.
Mas não sou dívida, nem empregos, nem estudos nem o dever.
Fecham a porta na minha cara, não me consideram e bocejam pra mim.
Foi aí que aprendi.
Tem gente que merece as dívidas que tem.

27 novembro 2006

Blá Blá Blá

_Vai escrever sobre o que hoje?
_Não sei ainda... acho que... não, não sei.
_Escreve sobre como você está se sentindo hoje!
_Não quero ser repetitivo.
_Escreve sobre esse sentimento geral de solidão!
_Geral?!
_Já escrevi demais sobre a solidão.
_Escreve sobre o amor então.
_Já escrevi demais sobre o amor...
_Sabe, eu acho que falar de amor nunca é demais..
_Não escreve então!
_Já não escrevi demais.
_Fala sobre o Natal, tá chegando...
_Ainda é cedo.
_Mas vai falar depois?
_Se houver o que falar...
_E se não houver?
_Não sei.
_Não sabe?
_Não sei.. adoro não saber.
_Humm...
_Fala sobre..
_Fala ou escreve??
_É só modo de dizer...
_Mas está errado!
_Não está!
_Escreve sobre o que é certo ou errado.
_Escrevo um blog, não uma bíblia
_Ah.
_Eu acho errado falar de boca cheia.
_Se for algo necessário, eu acho certo.
_Espirra comida nos outros.
_E daí? É só limpar!
_É chato, nada pode ser tão urgente que não dê tempo mastigar e engolir.
_Pode.
_Escreve sobre falar de boca cheia!
_Já escrevi demais sobre bobagens.
_Isso não é bobagem!
_Pra mim é.
_Você escreve pra si ou pros outros?
_Escrevo pra quem quiser ler, eu sempre quero. Sou leitor garantido.
_E se ninguém valorizar o que você escreve?
_Não valorizam coisas mais preciosas em mim, e nem por isso desisti.
_Vai escrever sobre o que hoje afinal?
_Sobre meus devaneios, questões internas e perguntas bobas.
_Como começa?
_Já terminou.
_Ué! Já?? Aonde termina??
_Aqui, nesse ponto final.

15 novembro 2006

Passageiros

A mulher sentada à direita no ônibus leva um sorriso sereno no rosto, seu rosto brilha oleosamente. Ela traz no colo, protegido pelas mãos em concha um presente pro seu amor.
Ela sorri porque sabe que ele irá aceitá-lo, e aceitando seu presente, a aceita também.

O menino sentado olhando a janela tem os olhos muito abertos, admirando a paisagem.
Quer esquecer a bronca da mãe por ter quebrado sua boneca de louça, quer esquecer que está indo ao dentista.
No momento ele mal pisca e só vê a paisagem à frente, como se fosse a primeira vez.

O velho calado sorri quando algum passageiro se levanta e passa por ele. O sorriso é simpático e cúmplice. Ele sente dores nas costas, mas nesse momento ela é aliviada por uma sensação de família. O velho acha que seus colegas de viagem são seus, o amam e respeitam.

À esquerda está um jovem de cabelos lisos e castanhos, de braços cruzados e pernas bem abertas, está de olhos fechados porque acha a viagem um saco, quer chegar logo ao seu destino e encontrar a bela namorada que o espera de vestido novo. Sua bagagem é uma mochila com roupas e cds, e um violão numa capa preta, em cujo bolso está a letra de uma canção que ele fez para sua amada.

Nas últimas poltronas uma jovem pálida e loira morde os lábios. Está indo sozinha tentar um emprego em outra cidade. Não sabe fazer muita coisa mas tem muita vontade de aprender a fazer tudo. Acha que sendo humilde conseguirá que as portas se abram para ela. Bebe goles de água de uma garrafinha que carrega o tempo todo, seu maior tesouro.

Outra jovem com pesada maquilagem está na outra extremidade. Já retocou inúmeras vezes o rímel negro dos olhos, pois ela chora muito. Tem unhas compridas e bem cuidadas e cabelos negros muito brilhantes, as longas mãos apertam uma pequena bolsa de onde saem lenços.
Ela não leva mais nada além de uma carta dentro da bolsa. Ela espera que seus familiares a entendam e não sofram tanto.

Um homem de meia-idade está satisfeito consigo mesmo, pois considera-se um excelente pai de família, excelente funcionário e muito esperto. Às vezes se sente culpado pela aventura extra-conjugal que tem, mas ao mesmo tempo consola-se por saber que seus amigos o apóiam, a sociedade o apóia e seus filhos ficariam orgulhosos dele. Ele realmente se acha muito esperto.
Às vezes sorri sozinho e se vira para observar algumas passageiras.

Há outra passageira, uma jovem de ar competente e profissional. Tem nas mãos uma agenda em branco. Não escreve porque desistiu. Não quer olhar a paisagem porque cansou.
Não quer conversar porque não suporta seus companheiros de viagem. Não quer dormir porque não tem sono, nem fome, nem nada. Não faz uma ligação pra alguém porque não há ninguém que esteja esperando uma ligação dela. Ela apenas está ali. E se sente muito infeliz.

São passageiros os amores, os presentes, as paisagens, os sorrisos, as lágrimas, as dores, a água, os lenços...

31 outubro 2006

Haja Luz!


Acende a luz da minha alma, está escuro!

Um blecaute, foi o que aconteceu.
É quando a pessoa que se ama é cruel com você.
Se apaga uma porção de coisas, mas a luz do amor é a mais resistente.

Antes ela queimasse para sempre.
Um dia me disseram: "se me maltrata, perco o amor, sou mais eu, não preciso disso, encontro alguém melhor, blá blá blá."
Nunca me convenceu... sempre li "auto-afirmação inútil" na testa e nos olhos dessas pessoas.
Tão cheias de si ao defenderem esse discurso, saíam se arrastando de tão infelizes depois.

Sou sincero e realista: amo e pronto.
E repito: é incondicional, não se ama só quem retribui.
Se ama porque se ama e só.
Quem tem sorte é amado de volta
Quem não tem sofre e torce pra o amor se acabar.

Outros me disseram : "sei como é difícil, não é só apertar um botão e dizer :pronto!! não amo mais!"
Nunca me conformei.
Porque é assim que devia ser.

Acende a luz dos meus olhos, está tudo apagado.
Mas a cidade não oferece sua eletricidade.
Malditos os que podem mas não devolvem à luz ao cego.

Adoça minha língua porque está tudo amargo.
Meu desejo, meu amor... é que um dia sofras como eu.
Finalmente saberias.
O que é a escuridão que promoveste.
Tu, que tens tua casa sempre tão iluminada, protegida pelos geradores do egoísmo.

Farei uma fogueira ou acenderei uma frágil vela pra dissipar minha escuridão.
Não serei iluminado suficientemente.
Mas poderei enxergar vultos e esperanças movendo-se ao meu redor.

15 outubro 2006

Ao Voar...


Tentei saber o mínimo possível a respeito da queda do avião da Gol, mesmo sendo classificada como a maior da história da aviação brasileira.
Procurei não ouvir as notícias nem ver o rosto de nenhuma vítima; quis me poupar de qualquer angústia a mais.

Mas um detalhe me caiu de pára-quedas e eu li e depois que eu li já não havia volta.
Eu, que me poupei de saber de várias coisas da tragédia soube exatamente de um fato:
Algumas vítimas foram encontradas fazendo "figa" com os dedos.

Esse detalhe arrasador me encostou na parede com tal violência que fiquei estarrecido.
Mudo meu pensamento sempre que começo a imaginar o momento final.
A "figa" não se desfez.

Será que já morremos e não sabemos que nossas figas não funcionaram?
Será que estamos fazendo figa enquanto nosso avião está caindo?
Se não cremos mais nos nossos desejos de melhoras, em que vamos crer?

Saber que mesmo se fazendo figa pra viver, se morre, é aterrador.
Quanta dor há no mundo, pra quem vai e pra quem fica.
Que figa nenhuma dá jeito.

Sem ver o rosto de nenhuma das vítimas do vôo, eu me aproximei de todas elas, entendi quem eram e como viviam.
Faziam figa.

Nós, no nosso ocupado dia a dia de pessoas dos anos 2000, nem fazemos figa pra continuarmos vivos.
Talvez porque não temos ao nosso alcance a idéia concreta da morte, ou porque as figas estão dimensionadas de outras formas.

Quem ama a vida agradeça por ela.
E faça figa se achar que funciona, pra que a vida da vida nunca nos deixe.
E não sejamos mortos que apenas fazem figa por reflexo ou por lembrança do desejo de um dia passado.

04 outubro 2006

O "Clique" Mágico.

Em todos os sites que vou, vejo o pequeno link escondido em algum canto : "Ajuda".
E geralmente com um ponto de interrogação por perto, como se automaticamente, ao surgir a duvida, a "Ajuda" fosse providencialmente esclarecê-la.
Ultimamente tive uns problemas num site e fui clicar na tal "Ajuda", que me mandou digitar uma palavra-chave.
Digitei várias e a "Ajuda" não pôde me ajudar.
"Não existem registros contendo a palavra digitada."

Mas ela já me esclareceu também várias vezes.
Adoro quando ela é passo-a-passo.
Odeio quando ela diz coisas óbvias como "você verificou se a tomada está ligada?".

Acho que devíamos ter esses links de "ajuda" sempre ao nosso redor, pra toda espéice de problemas.
Nem que sejam pra nos proporcionar o prazer de dizer "Pois eu procurei taaaaanto na ajuda e não encontrei!"
Justificativas, elas nos fazem bem.

Quase sempre depois da "ajuda" eu clico em "sair."
Essa sim resolve todos os problemas, mas a gente também acaba junto com eles.
Menos mal.
Queria que meus problemas viessem com a opção "sair" e quando eu clicasse nela, eles desaparecessem como os sites que eu fecho com um clique do mouse.
Vão me dizer que eles têm essa opção sim, assim como a "ajuda".
Mas eles parecem mais como quando meu computador trava e não responde aos meus comandos.
Clico insistentemente o mouse sobre o X de "fechar" e nada.
Continua lá, desenrolado à minha frente, me desafiando...

Mas sempre temos um às na manga.
Pequeno botão de "reiniciar".

Aguarde enquanto sua vida é reiniciada.

03 outubro 2006

Pra Não Se Deixar Morrer

Ouvi uma voz cheia de emoções.
Era Maria Callas, soprano americana filha de gregos que nasceu em 1923 e tornou-se diva dos palcos mundiais.
Deixou de ser gordinha e agradou com a silhueta de sílfide, casou com um homem muito mais velho.
Mas não o amava nem sentia prazer com ele.
Somente aos 36 anos foi que ela descobriu o amor e a plenitude do sexo, ao se apaixonar pelo magnata grego Aristóteles Onassis.
Deram-se os escândalos de separações e divórcios, e o tempo passou rápido.
Pelo mesmo homem com o qual aprendeu a amar, aprendeu também o que é a humilhação e o sofrimento.
Quando sua voz estava comprometida, ouviu o amado se referir à sua voz como um "reles apito na garganta".
E ela que declarou uma vez aos jornais "só quero ter um marido, filhos e cachorros."
Ela era temperamental, uma vez abandonou uma ópera na metade porque o público não a tinha aplaudido satisfatoriamente no fim do primeiro ato(nesse público estava o presidente da Itália na época).
Um belo dia, seu amado magnata resolveu que ia casar com a viúva do presidente dos EUA, Jacqueline Kennedy.
A "diva" era descartada.
Saiu com a irônica frase: "Creio que a senhora Kennedy fez muito bem em arrumar um avô para seus filhos".
A partir daí, nada mais fez sentido pra ela.
A voz nunca foi recuperada , a carreira foi-se tornando algo muito distante e sem importância.
Foi pra França e lá morreu, sozinha, aos 53 anos, de um ataque cardíaco..
Aliás, dizem que ela "se deixou morrer"
Definhou.

O resumo da história de Callas termina aí.
Minha colocação começa dizendo que ao amarmos, temos que saber que estamos nos arriscando.
A termos momentos de felicidade ou de tormento profundo.
Pode-se atingir as mais altas notas, lotar estádios.
O amor pode ser nosso maior ornamento, nossa maior beleza.
Como também pode roubar nossa voz, nosso gosto pela vida e provocar nossa morte.
Por isso muitos abandonam o palco na metade da ópera.

Ser desprezado por quem se ama loucamente...
O amor é fatal quando é incondicional.
Se ama porque se ama, e não porque se espera receber algo em troca.
É uma dor lancinante, um parto que nunca termina.
Mas infelizmente tem que se viver "apesar de." .

Existem momentos de alívio... uma bela música, uma conversa com amigos, uma água de côco na praia, ou o seu prato preferido.
Por a vida nos compensar com essas coisas que nem todos têm, a gente entende que se deve continuar.
E por nós mesmos, é olhar no espelho e dizer :"Vivo porque mereço."

O público também não me aplaude como eu gostaria, mas eu me aplaudo bem.
Eu já não espero que me amem mais do que eu mesmo me amo.
E digo isso pra quem eu amo:
NÃO ESPEREM QUE ALGUÉM AME VOCÊS MAIS DO QUE VOCÊS MESMOS!
Digo porque conheço pessoas maravilhosas que não são aplaudidas satisfatoriamente.
Lembro a vocês que ás vezes o público é medíocre e não sabe o que é bom.
Aliás, quase sempre.

Afinal, sobre o que é todo esse texto?
Sobre a soprano que se deixou morrer.
Sobre amor e desamor.
Sobre eu e você.
Que vivemos e amamos.

Mas que se Deus quiser, não morreremos por isso.