28 junho 2010

Infeliz Palavra de Ordem.



Esquecer o barulho que o mar faz
Esquecer que é amarelado o fim da tarde
Esquecer o sabor dos macarrões
Esquecer o caminho da sua casa
Esquecer o filme do cinema
Esquecer.

Esquecer a âncora
Esquecer o guarda chuva
Esquecer as chaves de casa
Esquecer os óculos
Esquecer a letra da música
Esquecer o tema da poesia

Esquecer a dança
Esquecer o passo
Esquecer o ritmo
Esquecer a lágrima
Esquecer o céu
Esquecer a lua
E as estrelas

Esquecer a beleza
Esquecer teus olhos
Esquecer tua voz
Esquecer teus cheiros
Esquecer o fio branco
Esquecer o sapato de cristal

Esquecer o amor
Esquecer a raiva
Esquecer o perdão
Esquecer o livro
Esquecer tua mão
Esquecer tua ajuda
Esquecer tua tristeza

Esquecer teu deus
Esquecer tua paz
E tua alegria
Esquecer teu nome

E esquecer de chorar
E esquecer de te ver
E esquecer de viver
E esquecer de parar
De esquecer.

Triste, eu lembro o barulho que amar faz.

27 junho 2010

Solitária Mente



Frequentemente
Escolho os versos
Repasso as memórias
Desfaço os laços
Afasto o prato

Dolorosamente
Relembro a partida
Revejo a chegada
Escrevo o vazio

Preciosamente
Seguro o choro
Solto o riso
Fecho os olhos
Disfarço o grito

Silenciosamente
Entendo o sonho
Reviro do avesso
Releio a poesia
Escuto o adeus

Ultimamente
Pego no tranco
Piso as calçadas
Canto os sambas
Durmo as óperas
Visto o véu
Abro a porta
Descubro horizontes
Esqueço um rosto
Suspiro por uma voz
Guardo o segredo
Amo o que nunca será.

26 junho 2010

Avant


Nunca desfiz as tais malas
Não uso nada que está lá dentro
Não passou por quarentena

As bases militares de todo o mundo
Não se interessaram por elas

Todo fim é assimétrico.

Minha mania de pôr a cereja no centro do bolo acabou.

Mas o fato é que o presente não faz, entretanto, o menor sentido.

As histórias se repetem, com novos nomes e lugares..
Não, me recuso.

Bom, como não tenho poetas à minha disposição, eu mesmo tenho que falar das feras que estão soltas:
Esqueci quem eu tinha de esquecer, trabalho árduo de anos, clínicas e mais clínicas de reabilitação no quintal de casa.
E agora? olho para mãos vazias e sei que nunca gostei de ver mãos vazias.
O que há para além do amor?
mesas de bar? divãs? palcos? noites insones?

Mas vou ser doce, porque quero que se alguém que eu amo ler isso, me escute doce.
Olha, todas as vezes que eu cantar e não souber onde pôr as mãos.
É de tanto amor, desconcertante.
Sempre que eu acordo, no pólo norte, eu penso em você no pólo sul.
Que fica a algumas quadras de distãncia

E aquela mala radioativa
Quase extra terrestre
O governo americano que se encarregue.

Meu presente sem formas, desafio para arquitetos, físicos e matemáticos
Ainda que com cores repetidas das solidões que já vivi antes,
É todo feito de fumaças.

Nem eu mesmo o tomo pra mim.
E isso me deixa livre
E doce, caso alguém que eu ame, leia.

22 junho 2010

Céu Cinza e Um Zumbido

A notícia diz que o tornado arrancou o teto de casas, igrejas e escolas.

Às vezes consigo ver minha cama levada por enxurradas.
Meu brinquedo que perdi na mudança
Uma tragédia

Que trago na voz, das perdas do passado?
A própria voz, eu diria.
A cor escura dos cabelos, antes claros.
Sempre insisto nisso.

A última vez que eu quis cuidar de alguém,
Senti frio intenso por ver perder.
A terrível imagem do vulto sumindo na poeira.

Ganhei um cacto. E sei que ele mal precisa de mim.
Fico olhando os espinhos e sua forma torta:
Mal precisa de mim.
E não passo de um inútil que o observa.
Não sei amar assim: meu ato é pegar pela mão e apontar caminhos

Mas mal precisam de mim.
Embora depois morram como um cacto (sim, porque cactos também morrem)
Que não passam de flor delicada.
Orquídeas com espinhos.

No rodapé do mundo, estou eu.
Torto em busca do sol.
Esperando a manchete do dia
Que fale que a minha casa foi vendida ontem.
Que me mudei para outro país
E vivo numa casa branca, chão de areia, e me alimento de peixe e frutas.
E não amo sequer o vento que entra pelos meus janelões.

E com a voz carregada de passado, eu só falo do presente.
Que é tão igual
Os mesmos sustos, o mesmo frio, o mesmo barulho de chave na fechadura.
Impiedade.
É a última vez que vou beijar alguém
Com o carinho de ontem.

Sou meu próprio brinquedo, essa é a verdade.
Mal preciso de mim.

Eu vi e continuo vendo o tornado ir e voltar.

19 junho 2010

Mais uma Flor.

Preciso que a música pare, então consigo te dizer umas palavras.

A solidão é, por si só, um destino.
Se eu nunca mais dormir cedo, entenderei os buracos negros do universo.
Mas tudo que eu quero agora é saber onde você passou o dia.

Que pensamentos teve, o que sentiu quando abriu os olhos e viu a luz do sol.

Vai chegar um tempo, em que nenhuma palavra minha será para ti.
Que escreverei sobre flores, pássaros e raízes.

Mas já agora, sei que você não usa uma letra sequer que eu digo.
Recolho tudo do chão, minha cesta é branca e amarela.
De longe, parece que levo margaridas.

Nos vejo dois seres solitários, um mais que o outro, porém sonhadores.
Para não dizer sonhantes, que é mais apropriado, porém sei que essa palavra não existe.

Mas metade do que existe não é visto, nem sabido.
Quanta coisa eu não sei, e existe.
Tudo que existe em mim, e você não sabe.

Preciso saber o que você pensou antes de abrir a porta de casa hoje.
E saber a razão das suas mais recentes lágrimas.
Preciso saber apenas para que assim, oficialmente, existam as palavras que quero inventar

Para que me entendas, finalmente.
E que na noite mais solitária, o sonho vire realidade.
Se for um bom sonho
E a música recomece
E pelo menos um de nós saiba do que existe e do que precisamos.

14 junho 2010

Olha (II)

Falta pouco para tudo acabar
Já vejo o sentimento sendo engolido pela multidão

Não passo de mais um refugiado
Habitando porões mais uma vez.

Um dia você me encontrará em meio a cobertores
Com o rosto sujo de fuligem, e os olhos assustados
Porém ao ver a porta aberta, fugirei
E você nunca mais me verá vulnerável

Há no mercado uma máquina
Que reinventa o usuário.
A partir da sétima vez que a máquina for acionada
A gente sai dela outra pessoa

Não é tudo que vai acabar
Só o que importa realmente
As coisas supérfluas e intangíveis, as espumas, continuarão

E um dia você ainda me verá
O mesmo de sempre
Ainda que saindo setenta vezes da máquina
Que em um determinado ponto
Faz a gente voltar a ser o que era no começo.

Mas aquele porão que habitei,
Só foi meu lar por um único dia
O suficiente para me sujar de fuligem e assustar meus olhos.

Mas nada que a máquina não resolva.

Talvez hoje exista a solidão
Porque você entendeu a engenhosidade da máquina
Como uma caixa de Pandora que liberta males.

Tudo isso porque:
Um dia você me viu
E olhou para o outro lado.

13 junho 2010

Olha.


Um dia você me verá
Talvez longe, caminhando sobre brancas areias de uma duna.

Um dia você olhará ao redor
E encontrará meus vestígios.

Olhará sua cabeceira e verá meu sinal.
Estive lá, o tempo todo.
Surpreendentemente belo
Visível, paupável, e plenamente amável.

Um dia você lerá meus escritos
Ouvirá meu choro, sentirá saudade.
Um dia você vai querer que alguém diga
Que você emagreceu, que seu café está forte, que seu coração é bondoso
E notará que era eu quem dizia
Todos os mantras
E ouvirá meus silêncios

Um dia você sentirá falta de algo
E saberá que o que falta
É meu olhar para ti
É minha oração pra que Deus te proteja
E minhas recomendações
De que não esqueças o guarda chuva
Porque o céu está cinza.

Um dia você terá vontade de me contar algo
De me mostrar uma música
De me chamar pra ver o sol nascer

Um dia você me verá.

E nesse dia, que não seja tarde demais,

Dependendo da poesia
Dependendo do desejo
Dependendo da lição aprendida
Dependendo do lugar e da hora
Você entenderá o que escrevo
E minhas respirações suspensas.

11 junho 2010

Ti


Meu corpo todo inspira cuidados.
Cada olhar meu para ti
Chora, canta, reza uma ave maria

Olha por mim, pecador até na hora de nossa morte
Se uma flor surge de um jardim secreto
É bom guardá-la em um de teus muitos livros

Meus olhos se derramam a cada clarão mais forte
Nas trevas que seguem, eles brilham como um felino na caverna
Te espionam, vítima

Voltam as nuvens, aquelas em formato de coelhos e aviões
E eu dançaria se soubesse, em meio a um descampado
Se houvessem descampados
Mas as flores estão por toda parte, e árvores altas

Se chove, vejo as lágrimas caindo do céu:
Porque não sorris comigo?
Antes do eclipse, me dá tua mão!
Ou simplesmente dormes em paz
E minha noite vira dia.

A última palavra que te digo volta pra dentro de mim
Pra que o sabor das coisas doces da vida
Não se torne amargo jamais
E eu mantenha o sorriso congelado
Os olhos brilhando como vidro
Os braços abertos , as mãos cheias de calor
O coração puro

E amém.

10 junho 2010

Nenhuma Chuva


Alguém ri.
Alguém desencoraja.
Alguém despreza.
Alguém balança a cabeça em desaprovação.
Alguém sorri com pena.
Alguém se irrita.
Alguém tenta convencê-lo do contário.
Alguém é irônico.
Alguém o subjuga.
Alguém desiste.
Alguém manda esquecer.
Alguém espera esquecer.
Alguém se cala.
Alguém prevê futuro.
Alguém o acha tolo.
Alguém o acha louco.
Alguém o acha nada.
Alguém não sabe de nada.

08 junho 2010

Moto Contínuo

Desde a primeira vez que a engrenagem da vida começou a ranger
O barulho inicialmente era quase insuportável.
Nenhum óleo resolvia.

Hoje os barulhos do trânsito e da cidade são maiores.
Abafam ruídos e as sombras dos prédios ocultam o gesto de carinho.
A entrega de uma flor

Onde caminharemos, sozinhos, se os espaços estão preenchidos?
Porque sempre chegamos depois?

A imagem da formiga que vai decidida voltar ao formigueiro com sua folhinha nas costas, mas a entrada está tapada.
Quem nunca viu a movimentação firme e rápida? Vai e volta, tenta e volta. E agora??
Ela procura outros caminhos. Parece automática.
Mas sabe-se lá as angústias que deve sentir.

Mas falei da formiga pra perguntar:
Que faço com esta folha que eu carregava?
Pesada e verde de esperança?
Não vamos mais devorá-la numa noite quente ou de chuva.
Nada de manhãs confortáveis.
Nada de remédio para a solidão.

Porque andamos sozinhos?

Meu cemitério de folhas e paixões.

De madrugada, quando tudo mais silencia.
Escuto amargo o ranger da engrenagem.
Penso que finalmente vai quebrar.

Mas só os amores morrem.

06 junho 2010

Desbotada

Pego aquela antiga esperança que estava no cesto de roupa velha
Basta ser costurada novamente
Não me cabe mais, mas talvez eu emagreça.

Todo dia de manhã, ela na ponta dos pés olhava a rua
A janela foi um erro de cálculo, ficou alta demais
Os vizinhos esperavam dela o cheiro de café
Quando soube disso, ela passou a fazer chá.

De noite ela se cobria toda na cama
Nada ficava de fora. O gato a procurava e não a via.
Não era esconderijo, era aconchego.
Mas ela não percebia o quanto os outros precisavam vê-la.

De tarde ela não existia, seus vestidos verdes ficavam pendurados no varal, sem dona.
Nunca foi vista na hora que o sol se põe.

Sonhei com lares melhores para minha esperança de menino
do que um velho cesto de roupas.
Mas sua traquinagem e sumiços ocasionais, levaram-na ao desuso.
Aprende a lição agora, verdinha.
Recupera tua cor.
Que eu faço a minha parte.

Paixão Até Ontem.

Minha nova paixão
Tem cor âmbar
Mal vislumbro os contornos
Porque sempre fui de cores fortes e quentes.

Tem pontos e vírgulas
E uma cadência no falar
Com um sopro rouco no fim das frases
Mal escuto as consoantes
Que sempre foram meus obstáculos

Tem nas mãos um suor constante
De gente viva, de emoção, de querer ter
Mal percebo as marcas que deixa em tudo que toca
Porque marcas ainda me assustam

Tem uma casa na floresta
Encantada. Unicórnios vão beber no seu lago particular.
Mal acordo do sonho e já ouço tropéis e clarins.
Sempre volto a dormir até que o próprio sol me acorde.

Tem todas as cicatrizes e sinais que gosto
Tatuagens invisíveis que denunciam belezas e promessas de afago.
Mal descubro as imperfeições na pele, nem nos lábios
Porque não sei diferenciar o perfeito do não perfeito

Tem o cheiro do oceano e do sertão
Dos navios naufragados e do cansaço de léguas ao sol
Mal catalogo as fragâncias porque são todas
E meus rascunhos são feitos em qualquer papel, que acabo perdendo na bagunça que sou.

Tem as horas todas, cada ponteiro do relógio a seu favor
Todas as rotas de caminhões lotados de cargas, apressados em chegar ao destino final.
Tem as areias do tempo e prazos
Mal escuto o tic tac,
Pois minha única opção é o esperar, doce.

Minha paixão tem outra paixão
Arco e flecha, carrossel de um velho parque abandonado
Range, dá choques, descasca a pintura, mas roda.
Tem um olho que não me vê, tem ouvidos surdos para meu registro vocal.
Tem um plano que não me inclui.
Mal engulo o pão de cada dia e o olhar não dirigido.
A ausência sempre presente.
Que mastigo sentindo cada sabor.

Reúne todos os cheiros, as cores claras, as marcas, os parágrafos, os elfos e fadas
Cada consoante difícil de dizer e cada cálculo impossível.
Cada linha do passado e cada pôr de sol de hoje.
Cada gosto de sal de lágrimas e cada uma das cores da minha velha aquarela
Cada futuro coberto de açúcar ou de incertezas.
Mastigo como uma fruta vermelha, cor quente que sempre tive.
É a cor do sumo que escorre pelo meu queixo.

Quando mastigo
E mal engulo.
E me novo apaixono e enquanto não desisto de todo, olho além
E dessa vez não morro.

01 junho 2010

Eu, Hoje.


Me derramo como um rio pra dentro de mim mesmo.
Meu carinho é sabor de hortelã
E eu gozo com essa refrescância.

Outrora falei de serenidade
Mas era cheia de mágoas
Agora é que nem chuva de rosas

No dia que me espantei com o azul do céu
Não esperava uma cor tão forte e natural
Sempre penso em tinta.

Evito olhar para a parte de mim que chora
meu rio é caudaloso, e agora inventei de ter peixes
São translúcidos e pequenos, brilham e não tem memória
Nada de monstros marinhos

A parte de mim que chora é a mesma que acorda de manhã atônita:
A vida começou faz tempo!
Só vou usar urucum pra pintar qualquer coisa que eu queira que pareça sangue.
Aprendi com o céu a sorrir, ainda que de um cinza solitário.

Por falar em solidão, navego em meu próprio rio.
Vai dar no mar, cheio de sal e vida.
Olho os remos e penso: - Por favor, me levem de volta!
Mas não escutam, nem meus braços, nem a correnteza.

Na verdade, eu quero ir.

19 maio 2010

Hora Nenhuma.

Até ontem a estrada era azul
E os ponteiros do relógio marcavam sempre sete horas.
horas de um passado que mal se corrigiu.

Ontem mesmo era cedo para sonhos
Raios de sol fraquíssimos davam a bênção.
Hoje anoiteceu, e nas estrelas, liberdade.

Até ontem, passos foram dados e tropeções eram bem vindos
Agora os pés descansam sobre sofás, descalços.
As mãos que gesticulavam loucas, hoje tocam violão.
Unhas inteiras, acordes maiores.

Ontem ainda se ouvia o pássaro cantando na gaiola
Doce, longe, triste, amarelo.
Ainda se ouvem assobios, bichos das florestas
Mais do que nunca as flores se abrem.

Tanta doçura dispenso ao hoje, esse presente momento que, sorrindo, vejo escorregar
Pobre ontem que vai no trem levando consigo aqueles cabelos negros e olhos ingênuos que me mataram.
Adeus, corre pra longe de mim.
Lá, onde o trem vai, cantam os tais pássaros amarelos.
Tão alto, tão doce, tão triste, que não me permitirão ouvir tua voz me chamando.

Hoje, para minha felicidade, é tarde demais.

17 maio 2010

Fronteira.

Deveria ter um ritmo minhas palavras
mas cansa.

Melhor algo leve.
O silêncio.

Então posso começar pensando numa palavra que descreva
A solidão.

Melhor algo mais doce:
rugas ao redor dos olhos.

Todo texto de amor parece lamento penoso de louco em camisa de força.
Hoje liberto, faço costuras em outras roupas, quero mover os braços.

Eu deveria dizer para quem escrevo
Mas é tão bom não-amar

Melhor mentir.

Não preciso que ninguem me ensine a mexer nos eletrodomésticos
Fiquei moderno, sei apertar os botões certos.

Esse é o texto mais triste que escrevi na vida.
Mas acabou.

16 maio 2010

Fosco


O vidro que há nas coisas.
Só eu vejo a fria transparência?
Pois existe, e é triste e duro como alguém ao fim de um amor.

Mas há, digo a vocês, há um vidro nas coisas.
E nas pessoas, nem preciso explicar.
Em tudo, há O vidro.
"Redoma" é um nome. Juro.

Todos os olhares gulosos, sedentos e suplicantes através de vitrines.
Lá, quando se tinham cachos e laços nos cabelos, já havia o vidro.
Inquebrável.
Inquebrantável, e não significa a mesma coisa.

A solidão chega na poltrona do cinema.
Na fila do banco.
No pomar.
O vidro que há nas coisas.

Mas guarde martelos, o estilhaço é pior.

10 maio 2010

Sem Pensar

Nunca desisti de nenhum sorriso
Brilho de suor no alto de testas.
Amigos amam levemente

O som da voz, coisa íntima.
Ossos visíveis, na nuca, no colo, no cotovelo.
Detalhe de gente
Amigos veem de perto.

A palavra "amor" passa a ser proibida a partir de agora
Estou leve demais para usá-la.

O olho. As partes do olho que não sei o nome.
Íris, córnea, cristalino, pupila... que mais?
Quero identificar tudo em teu olho.
As cores.

Tem os dentes, mas já falei de ossos.
Tem a alma, mas já falei que sou leve.

Tem o pensamento, mas é outra camada da terra.
Estratosfera, mesosfera... o que mais?

Em um pedaço de papel escrevi uma palavra de seis letras e coloquei no meu porta-retrato.
Não é simpatia nem feitiço: é melhor que foto.

Nunca resisti ao som do meu próprio nome,
Quando dito com carinho.
Viro criança de novo, estou num parque
Trem fantasma, roda gigante, montanha russa.

Amigos sentem o pulso.
Entendem.
Tem as unhas, tem nariz, tem boca e tem suspiro.
Uso da palavra "amor" liberado.

08 maio 2010

Para Não Passar em Branco.

Te dou minha melhor risada
Aquela que nem tenho mais.
Caixa vazia portanto.

Tenho outros sons
Quero dizer que tenho outros sonhos.
Aqueles que nem existem mais.

Te dou meus outros passos
Dos caminhos que não mais percorro
Das poeiras que não abaixaram
Das sementes no caminho que os pássaros não quiseram comer.

Tenho outras ruas
Quero dizer que tenho outras luas
Essas, sem fases.
Aquelas, sem luzes.

Tenho outro de mim para te dar.
Esse que nem morreu
mas é fantasma.
Esse que nem lembra
mas é memória
Esse que nem canta
mas é música

Te dou o que te cabe:
Nada.
Disso, tira o sumo
O resto é meu.

05 fevereiro 2010

Pensando Tudo.

Pretendo escrever algo inodoro insípido e incolor.
É que estou naquele momento hiato entre o que não aconteceu e o que está para.

Imagens me vem à cabeça, mas uma prevalece: o branco, o nada. O intervalo.

Quero escrever sobre nada, mas aquele nada alerta que acontece antes do telefone tocar com a boa notícia; quero um nada suspenso no ar.

Lembrei de quando eu brincava de esconder quando criança: até o respirar preso , todo alerta e medo, na hora que quem me procurava passava por mim sem me ver: é esse nada que quero falar.

Porque não estou ansioso, pelo contrário, estou confortável.
Mas quero saber o final do filme, está no "pause". Alguém aperte o botão, meu controle quebrou.
Se eu não souber também não faço cena, invento um final.

Sabe, vivo magoado. Qualquer bobagem, fico magoado. Eu nem era assim. Deve ser a idade.
E é uma mágoa irascível, irritada, que termina os sentimentos e põe pontos finais.

Nem chamo de mágoa, porque acho que é um nada. Sinto nada por qualquer coisa.

É bom às vezes viver nesse instante-entre-o-começo-do-fim-e-o-fim, porque você só pensa numa coisa: nada.

Tudo isso eu penso e escrevo na verdade é só pra dizer ao meu neurônio que organiza meus arquivos presentes e passados: eu agora sinto nada, e espero que este nada seja catalogado como tal.

O nada não me faz sorrir nem chorar. O nada tem nome, altura e profundidade. Tem endereço até, mas eu não sei.
Nem quero saber. Não há nada lá.

Não há nada lá pra mim.

Obrigado por me dar o nada para eu acreditar no tudo, e acordar amanhã.

02 janeiro 2010

Coragem



Vamos lá.
Agora somos só você e eu.

A música que escuto é calma e solene, orquestra.
Projeto o pé para frente, vou caminhar.
O pescoço muito comprido se estica ainda mais.
O nariz, ainda que pequeno, está erguido
Os olhos estão duros, frios.
A boca é um botão delicado que esconde grandes dentes.

A música continua, um côro de mil vozes surge grandioso
Cresce como sons de milagres, anjos com trombetas e cordas divinas
O andamento agora rápido da música não influencia a batida do coração.
Está tudo no lugar.

Amores merecidos foram reforçados, mágoas esquecidas e outras nem tanto, viraram saber.
Essas mágoas e amores são responsáveis pela cabeça tão firmemente erguida.
Ando porém, leve, mas certeiro.

A música parece findar, mas sei que nunca acaba, recomeçará a qualquer instante.

Com o coração aberto de louco sonhador e os olhos vivos de escravo liberto, vou imaginando rostos nas sombras e nas luzes: ninguém me pegará desprevenido.

E se eu porém, for pego desprevenido, agradecerei cada instante: prazer e gôzo.

Um agudo de soprano me alerta: olhe para frente.
Ouço os graves e neles deito minha alma, finalmente entro no ritmo e vou indo.

Qualquer desafino, descompasso e silêncio, favor sair do meu caminho.

28 dezembro 2009

Prece de Ano Novo

Não é por estar em tempos de segredos revelados que vou dizer oficialmente que o meu eu-obscuro e perverso já está todo animado para voltar a amar.
Já escolheu a vítima como o vampiro atrás do carvalho na floresta cheia de fumaça.

Pois eu trato de jogar a luz de um farol nessas trevas de amor suicida, ou de suicida não-nunca-jamais correspondência.

Logo agora que quero ter um rosto suave.
Amar nesse momento, só com garantia, fiador, interesse mais alheio do que meu.
Se não for assim não deixo mesmo, piso na flor nascendo, cavo pra arrancar a raiz se preciso.

Até porque nem posso, tento explicar ao meu eu-insano-kamikaze, que meu médico disse que estou convalescente de amores e paixões devastadores, cuja cura ninguém sabe, mais poderosos que vírus achados em macacos e animais silvestres de algum recôndito das florestas africanas.

No calor do fim do ano, quero, preciso, procuro, alguém para amar/abraçar, como se eu estivesse no frio ártico. Mas é um estado de transe, esses muitos sininhos e blim-blons que tocam essa época do ano deixam a gente assim.

Segredo eu posso compartilhar, não revelar gratuitamente: pedi a um risco de luz no céu, que chamei de estrela cadente mesmo sem saber se era, que meus olhos brilhassem apenas de amor e não mais de lágrimas de dor e abandono.

Então eu serei um só, sem obscuridades e brilhando mais que essas luzes que enfeitam a cidade.

11 dezembro 2009

Feliz Ano Novo



Um dia nublado como hoje é minha deixa: passou a anestesia do sol que por me efervescer, me deixa não-pensar naquele corte lá no pé que vai doer quando eu parar e o sangue esfriar.

Pois bem, as nuvens cinzas chegaram e eu parei. E que dor aguda me sobe pelo corpo.

Lembrando de quando eu arrumava mochila e ia dormir fora: hoje só reconheço minha própria cama. Na falta de portos seguros, faço de mim um ancoradouro que ninguém sabe que existe, encoberto que está de vegetação alta.

Lembrando dos amigos que sumiram por aí: uma que deve estar feliz, outro que me disse "vou embora, não estarei aqui quando você me procurar", outros e outras cujos telefones eu sabia de cor.

Os belos pagam com a superficialidade, os inteligentes com a solidão e os puros de coração com a crueldade da vida.
Lembrando de pessoas bonitas, sábias e puras em dia de céu cinza e diante do mar: pareço estar em outra cidade. Não pela paisagem, mas pela possibilidade de viver.

Lembrando da velha atriz que ficou feia e hoje despreza a humanidade; muitos caminhos percorremos se nos decidimos a viver 24hs por dia e não apenas uma parte disso.

Não sei exatamente onde me cortei, mas poderia descobrir facilmente se eu quisesse.
Sei que sempre sou eu que escuto o "vou embora" e sempre sou eu que perco de vista o vulto indo no horizonte ou na estrada e volto pra minha infeliz rotina.

Sempre dou as costas depois, sempre sou o primeiro a chorar e o último a sorrir.
Sempre corto meu pé no vidro que alguém jogou e sempre morro todo dezembro tragicamente ao som de uma música natalina.

Sempre começo o ano mais velho e mais duro: sempre sou eu que lembro que todos os pedidos que fiz à meia noite do ano anterior não foram realizados nenhum e resolvo tentar e fazê-los novamente como um jogador viciado na loteria.

Em segundos tenho que fazer curativo no corte porque não posso deixar uma trilha de sangue por onde eu andar: as pessoas tem que estar confortáveis para me dizer "adeus" em alguma curva do caminho.

19 outubro 2009

Às Noites


As noites andam dizendo que é preciso terminar de amar.
Abrir os olhos durante a madrugada , fitar o teto branco e impiedoso, apenas ouvir a própria respiração.
A noite diz: sozinho.

É preciso pegar o medo de viver e suspendê-lo acima da cabeça: fora do alcance da nossa própria visão.
Salvar a doçura dos pés que a pisam: carinho é como uma frutinha que fácil se esmaga.
Muito suco desperdiçado.

A noite sopra ventos frios vindos de todas as direções, principalmente do norte.
É preciso se abraçar: solitário gesto de envolver os ombros com as próprias mãos.

A noite reclama: quero choro ou riso , nunca o silêncio.
É preciso silenciar: a noite não pode ser dona dos olhos e bocas.

A noite chama para dormir. É preciso acordar, atrevido, fitar o teto, ouvir o soluço.
As noites mandam, dizem, pedem, clamam, gritam.

É preciso manter a calma: sozinho, a gente termina o amor que nunca devia ter começado.

20 setembro 2009

Balelas

_É rapidinho: me diz como é estar apaixonado.
_Ah, não sei dizer, fica tocando música na sua cabeça o tempo todo
_E isso é bom? como consegue dormir?
_É bom sim, são sempre músicas bonitas, e quando você dorme, sonha com elas.
_Mas é porque você é muito romântico né?
_Sou sim, o tempo todo
_Eu não sou.
_O que você sente quando ama alguém?
_Te perguntei justamente pelas minhas dúvidas, mas você é romântico e eu sou da galera do realismo-fantástico.
_Não entendi... como é isso? É tipo como na literatura..?
_Não, é diferente... mas é inexplicável, se eu conseguir explicar, serei um romântico como você.
_Então na sua cabeça não toca música.. é isso?
_Toca... música tipo de desenho animado, e sempre penso que vou levar uma topada e cair.
_Que diferente.
_Sim, muito, isso é ser realista-fantástico.
_E é bom ser isso?
_Eu acho bom... se você quiser saber como é , vai na reunião do nosso clube, é dia de quarta feira...
_Ah, tem reunião? vocês são organizados né... nós românticos não somos.
_É, vocês são cheios de problemas.
_Bom, tenho que partir.
_Eu também, lá vem meu ônib .. ops meu cavalo azul alado que me levará a montanhas distantes de terras onde tudo é amor de verdade.
_Puxa, me dá uma carona então??
_Não seu bobo, isso não existe! Toh brincando né...
_Puxa vida...por um momento eu pensei...
_Não chora cara.... olha chegou teu ônibus... cuidado!!! olha, sujou você de lama.
_Tudo bem.. tchau
_ Tchau né.

16 setembro 2009

Bi-Bi


É um exercício escrever a essa hora: são 17:31h.
É hora de passagem, de pegar toalha pra banho, de sentir o cheiro da sopa do jantar, e o som das pessoas na rua saindo de seus trabalhos.

É aquela hora que a gente só termina as coisas.
Mas eu vou começar a escrever um texto. Agora, nessa hora incoveniente.

Lembrei que no Natal, as luzes que enfeitam a cidade começam a brilhar a partir dessa hora.
Sempre achei que seria impossível para mim escrever (pensar criar) algo nessa hora.
Mas são 17:35 (que bonito número).

Que estou sentindo além da aflição de escrever a essa hora?
Já sei: essa não é a minha hora de sentir saudade, amor, paixão, solidão, tristeza, ânimo, paz nem alegria.
É uma hora de não-sensações, é a hora de ações robóticas.

É pra declamar palavras como "departamento" "tráfego" "pedestres" "atraso" "fechadura" "chave" e "correria". É também hora de se ouvir buzinas e assobios.

Pronto, escrevi sobre um caos lá fora e que eu não acompanho.
Meu caos é em outra hora, agora sou um ser racional que sabe que tem que tomar banho, jantar e ir pro meu compromisso de todas as noites.

17:42.
Sem poesia.
Ufa!

12 setembro 2009

Moinho de Vento.

O que estou tentando dizer é que as canções não bastam.
As leituras que fazemos nem os filmes que assistimos.
Falta muita coisa

É ilusão se sentir entendido: na verdade o que reina é a dúvida.
A Infinda Luta do Cavaleiro Solitário Em Busca da Felicidade no Reino da Dúvida.

Só que não é luta propriamente, nem sou propriamente um cavaleiro nem solitário nem buscando a felicidade.

Não busco nada, estou voltando olhando pro chão porque perdi algo que caiu do meu bolso.
O que há de solidão nisso tudo é que lutar para ser feliz é algo que se faz sozinho.

Certo, falarei por mim então. Luto sozinho para ser feliz.
Não sou um lutador, já disse, nem solitário. Nem feliz.

Sou é personagem mítico no Reino da Dúvida, porque tenho cá umas certezas.
Camponeses me vêem à noite vagando em bosques e por entre as paredes de castelos.

Sigo um fio agora: as canções não bastam porque só despertam dragões que deveriam viver adormecidos por forte sossega-leão.
Mas imprudente eu canto e eles acordam, dragões-paixões, bichos de um mundo além do sensível, monstros que depois me devoram nas noites que passo em claro pensando nos novos rostos e nomes.

A Não-Luta do Não-Cavaleiro Não-Solitário Na Não-Busca da Não-Felicidade.
É assim que a história deveria se chamar.


29 agosto 2009

Nada


Uma caixa vazia
Um campo de futebol à noite, deserto.
O deserto à noite.
Um céu sem estrelas
Uma manhã sem nuvens

O mar calmo.
Paz?
Não, é apenas a vida sem a gente estar nela.

Aqui, um suspiro. Tudo menos alívio.
Tua foto não me faz nem piscar, nada mais.
Foto nenhuma , lembrança alguma, encaro o nada como um cego.

Outro suspiro, e haverão outros e mais outros
Até o fim.

Um envelope sem carta
Um buraco no estômago, a fome.

A lágrima se desprende do olhar como quem escapa de uma prisão
E vai rolando, sozinha, como se esperasse ser seguida por outras

Mas não, é sozinha também, a lágrima do solitário.

É o olhar pra trás e não ver ninguém.
Nem na frente, nem do lado, nem dentro nem fora.

Aqui, um suspiro. Dessa vez mais longo e com um soluço no final.

06 junho 2009

Assunção


Para esquecer você eu faço descobertas
Descobri por exemplo, que sou artista mesmo e não tem jeito

Me emociono só de falar de arte e fico grato por chorar sem ser por você

Pelo menos um momento, uma noite.


Para esquecer as loucuras que um dia fiz, penso na serenidade que sinto quando durmo e meu travesseiro é novo.
Um prazer que não é de lembrar de teu rosto.

Teu rosto, já praticamente esqueci, porque gasto neurônios
memorizando outras coisas
.
Versos, poesias de Drummond.

Para matar você da minha vida, eu me faço viver.

É uma troca, eu vivo, você morre. bem assim, claro e dinâmico.

Eu vivo nem que seja morrendo e cansando, soluçando e engolindo seco.

E você não sei se de verdade vive ou morre, pra mim você se apaga.


Só lembro de você mesmo na hora de esquecer
.

Só estarei no paraíso tomando leite e mel quando não houver o que esquecer, quando tudo for surpresa de criança, quando aos meus pés estiver pintado um marco-zero, mesmo que seja de sangue ou lágrimas, mas não pisarei porque meus pés estarão no sublime, subindo escadas e já vislumbrando luzes que vêm de Deus.

Milagre.

25 março 2009

Outono

Nasci por uma infelicidade entre aqueles que não sabem viver impunemente.
Não sou desses que andam por aí felizes a qualquer custo.
Sou (que droga) daqueles que param e pesam, refletem, ou seja, sofrem.Mas sofremos tentando a felicidade, nem que seja por um milésimo de segundo.

Agora estou num doloroso (mas libertador como costuma ser) processo de morte.

Eles estão morrendo: os amores teimosos, umas esperanças, muito carinho, alguma sensibilidade, algumas amizades, muita tolerãncia, muita paciência, bastante da resistente ingenuidade, algo de doce, algo que canta, aquele sorriso que dei a alguém, aquele piscar de compreensão, morrendo, uns repentinamente, outros agonizam por horas, dias.

Agora entendo (sinto) como as árvores vivem no outono, vendo suas folhas secarem, caírem, morrerem, se sentem cadáveres também.
Não quero pensar em primavera ainda, morreu muita esperança, a que acreditava na primavera está morre-não-morre. "Não sabemos se resistirá" dizem os médicos com pesar.

É outono agora, com licença aos ainda queridos, é outono e preciso de espaço, de ar, de tempo e de lenços de papel.

18 fevereiro 2009

Do Zero

Tem gente que anda por aí reclamando de falta de amor.
Fico pensando em quem amei e nunca aceitou o meu amor.

Pois acabou.
Na multidão caminham pessoas que poderiam ter recebido flores e beijos e carinhos e surpresas e poderiam ter tido contato com uma determinada felicidade, mas não quiseram.
Sendo assim, espero nunca precisarem, pois de mim não sairá mais nada.

Fiquei ali, entre um hiato ou outro de existência, esperando o ritmo voltar à constância e eu iniciar meu caminhar. Porque caminho num ritmo: o ritmo da esperança. (Esses amores mudaram a métrica e ficou impossível acompanhar , então tropecei e caí).

Mas já de pé, ando com as armadilhas ficando pra trás. É a grande vitória das feras que escapam de seus perversos caçadores. O saber onde pisa.

As pisadas são mais duras. Infelizmente, perderam aquela certa leveza. Estão carregadas de um rancor que empurra pra frente. Os passos são rígidos de tristeza e mágoa. É como uma mão invisível nas costas que diz "VAI!"

E vou.
Logo adiante as lágrimas secarão, o ódio que antes foi amor se esfriará, a mágoa ficará indelével, os passos podem ficar mais leves, a memória de quem não quis meu amor ficará distante e minha vingança será o meu sorriso no rosto, como quem diz :"Eu tentei" .

02 fevereiro 2009

Triste E Livre Amor


É uma declaração de amor que te faço, mas o amor é tímido.
Tímido porque anda na ponta dos pés para não ser percebido e assim, aniquilado.
Porque é assim que os (meus) amores acabam.
Mortos por ti.

Mas esse é passarinho, voa, é abelha, é coisa alada
Escapa mais porque sou sombra e meu mistério oculta esse sentimento-menino e suas travessuras.

Meu amor por ti me trouxe uma breve (e clandestina, citando Clarice) felicidade.
Breve porque os próprios sonhos são breves, se o doce se vai numa mordida, se a flor murcha em poucos dias, porque minha felicidade que anda na corda bamba não haveria de ser?
E clandestina porque eu não tenho direito a senti-la , uma vez que é ilusão, uma vez que não existe tal motivo.

Mas sou como aqueles que habitam em secreto os porões dos navios, venho de terras estranhas e desembarco em portos que não sei. Sou proibido.
E desse amor-que-não-tem-sentido-de-ser brotam sorrisos. Sorrisos leves, passageiros, mas sorrisos.

Ah, meu amor, a felicidade é um bem que possuo numa caixa que tu tens a chave.
Como posso te pedir "abre-a"?
Se bem sei que teus olhos têm outras cores, teu coração navega em outros mares?!

É pela esperança então.
É pela esperança.


15 janeiro 2009

Ímpeto.

Sofro sem viver.

É como aquela criança que não brinca enquanto vê as outras rolando na grama, inventando mil travessuras, caindo e se machucando.
Choram, vêem o sangue no joelho ralado, mas brincaram.
Eu sou a criança que tem os joelhos em carne viva sem ter brincado.

Sou o banhista que nunca foi até o fundo e quando vai, é queimado por uma água-viva.
Volto em pânico. Fui castigado.

Sou quem dormiu de dia e acordou de noite: e agora? dormir mais ou ganhar as ruas?
Sou quem ganhou as ruas e foi assassinado numa esquina escura.

Mas antes de tudo sou aquele único sobrevivente do terremoto
Minha mão aparece sob os escombros.
Transformando meu espanto de viver em força de existir
E sorrindo, o ato mais heróico.


12 janeiro 2009

Um Ausente.


Onde você fica?
No passado ou no presente?
Foi o brilho dos teus olhos que causaram as tormentas dos mares que naveguei.
Naveguei não, fui levado, na frágil balsa da esperança, tocando de vez em quando a água com a ponta dos meus dedos semi-mortos.

Dessa vez meus olhos que brilham, porém.
Em terra firme, fico quieto.
Temo as corujas, que trazem mau agouro, mas há o fascínio .
Adoro corujas.

Onde você fica? No presente?
Não há lugar para você nessa terra firme em que estou pisando, e se tu estivesses aqui eu afundaria num terremoto ou na areia movediça

Tu me fazes perder o chão.

E me dói saber que "tu" já nem és mais uma pessoa, que poderia retroceder na sua crueldade infantil de ter vontades.
Tu és hoje uma sensação, um déjà vu, hoje és para mim a memória de uma fome, de uma sede, de um precisar.

Não sei onde tu estás.
Não sei se quero saber.
Não sei se desejo que voltes ou que desapareças para sempre.
E como tu não és mais pessoa, outros "tu" virão.
Ou já vieram e "tu" já tens outro rosto.

Se eu já não amo a ti, eu amo a necessidade que eu tenho de ti.
Eu amo meu egoísmo de querer um afago, eu amo a mágoa e amo o perdão.
Onde eu estou?

Em algum lugar seguro de terremotos ou minha alma jaz no fundo do mar?
Só tenho agora a memória do brilho dos teus olhos.
E os olhos, meus, brilhando por ti, por mim e por tudo.

11 setembro 2008

Um Suspiro

De longe eu o via:

Parado, estático, tenso, olhando para baixo. À sua frente, um buraco.
Negro, profundo, sem fim... como costumam ser os buracos.
Tinha acabado de se abrir sob os pés dele e ele não sabia o que fazer.
Cair dentro, pular para dentro, retroceder, passar por cima ou continuar parado.

Racionalmente tentei ajudá-lo, o pobre rapaz despreparado para a vida:
_Põe uma tábua, improvisa uma ponte, atravessa, continua teu caminho!

Ele me olhava com olhos suplicantes e nada dizia.
Suava e tremia, e eu passei a ter aflição também, não quero ver ninguém sumir em buracos.

O jovem pôs as mãos no bolso, tirou celular, chaves, carteira, deixou tudo cair no buraco
Tirou fotografias, tirou brindes, cartões, dinheiro, lembranças, moeda da sorte.
Tirou TUDO, e eu quase chorando via quando um a um , os objetos iam sendo atirados no abismo.
Que ia aumentando, quase engolindo o rapaz que parecia agora menor e mais leve.
Tirara o peso dos objetos que carregava, e me disse com tristeza mas alívio, como se justificando:
_Quero ter apenas meu próprio corpo.

E eu pensei "pra quê, meu Deus????"
Não é o nosso próprio corpo mais pesado que tudo que carregamos?
Pois nele deve estar a alma e o espírito que são de um peso insuportável.
Por isso muitos de nós andamos curvados.

Olhei aquela que eu sabia ser a última vez para o rapaz que agora era vulto indefinido mas vagamente familiar e eu ainda pude dizer:
_É a vida que vivemos.

Ao que ele sorriu e retrucou:
_Sim. É a vida.

E não vi mais buraco algum e noutro instante o próprio rapaz que tinha os meus olhos tinha sumido. Lembrei daquele sorriso e do peso leve da sua alma e corpo.

Os buracos negros se abrem não aos nossos pés, mas em nossos corações e tragam tudo.
Tudo, tudo tudo que é tragável.
Já joguei minhas chaves, meus livros e óculos. A alma não jogo porque apesar de ser a responsável pelas dores, é pesada demais e não se move um centímetro de mim.

É a vida, mas vivemos.

30 agosto 2008

Uma Única Manhã

Vento frio, sol lá fora.
E penso: "como pode?"
Mas sei que é algo comum de acontecer, eu é que apenas hoje parei pra perceber, ou minha pele está ao avesso e sinto mais as coisas porque a parte sensível está exposta.
Portanto soube o que é comum às manhãs.

Imediatamente me cubro novamente, porque é grande o risco de infecção.
No ar flutuam seres invisíveis que a biologia põe nomes estranhos e eu simplifico: perigosos.
Seres perigosos a mim, que ando com a imunidade baixa desde que chorei de susto por saber que a vida é, simplesmente.

E por a vida simplesmente ser, é preciso estar com todos os poros desobstruídos e o sangue quente, fino e vermelho para quando o corte, termos dignidade ao sangrar.
Hoje já sangrei, cortado pelo vento frio.

Por a vida ser, e ventar frio e o ar estar infestado de seres perigosos pra mim, é que contraditoriamente, passo a descansar e relaxar: é coisa demais para lutar contra, e como diz a música: "I ain't gonna study war no more" e batalha inútil é batalha vencida.

Pronto, o vento deixou de ser frio, pois se aproxima o meio-dia.
Logo o céu estará daquele tom azul-falso-alegre tão comum na vida da gente.

Mas uma nuvem cinza teimosa continua no céu, pois assim como eu, ela sabe que não precisa mais guerrear nem chover, pois já venceu; já houve o vento frio, ele já me cortou e eu sangrei, e do sangue brotaram palavras aladas que eu amarro ao pé da minha cadeira, pois sou apegado a certos seres alados, invisíveis e perigosos a mim.

02 agosto 2008

Em Sã Loucura


Ah, e eu vim te buscar pela mão,vem, segura minha mão, anda, segura!

Para acabar com essa sensação de mãos vazias, essa sensação de não ter você ao lado, essa sensação de não ter...
E sabes que venho te buscar com lágrimas nos olhos porque sei que tu não queres vir comigo!
Ah que cruel, tu não queres vir comigo!

Pois saibas que comigo tu não te transformarias, comigo não nasceria um fio de cabelo branco sequer em ti, comigo tu não engordarias um quilo, comigo tu serias sempre igual, porque eu te conservaria assim.

Porque eu te quero assim, na minha loucura, e na minha loucura, tudo é permitido.

Se tu viesses comigo, tu não me farias chorar mais nem uma lágrima, tu me farias cantar todas as manhãs e dançar todas as tardes, se tu viesses e estivesses comigo eu não envelheceria um dia mais sequer.

Porque enlouqueci com minhas faculdades mentais em ordem. Eu enlouqueci em plena consciência. Em desespero.

Porque o desespero nada mais é que a loucura consciente da desesperança, do seu não-estar aqui, de eu definhar sem que tu venhas.

E como insano, sou capaz de sorrir, e até viver! Com a mão estendida, sempre murmurando, triste e louco: "Vem, vem..."

Mas sei que tu não vens, mas não sei porquê, e sei que tu não virias jamais, porque sou louco mas não sou estúpido, porque devaneio e alieno, mas a consciência lá está, impávida, dura como rocha, fria e carrasca me dizendo:
"Tu não és louco e sabes que estás só, recolhe tua mão e deixa de fingir o amor que tu não tens."

E então não te espero nem te chamo mais, pelo menos por hoje, por agora e por esta hora amanhã.

25 abril 2008

"Nas Nuvens Ou Na Insensatez"


Depois de tanto silêncio, deveria haver muito a ser dito.
Mas não, só umas poucas coisas:

A vida faz de nós uns poetas, ou cantadores, ou loucos ou tristes.
Ou de tudo isso um pouco .

Alguns de nós vivemos em céus azuis e outros em nuvens negras
Muitos estão sempre em uma eterna nuvem num degradé de cinza.
E torcendo para essa eternidade não ser eterna ou não levar uma vida toda.
Queira Deus que vejamos outras cores.

Sim, "VEJAMOS" porque estou nesse seleto grupo aí.
E nunca gostei de cinza, que ironia.

E "seleto" porque embora eu saiba pelas expressões nos rostos e pelos suspiros de cansaço que muitos vivem assim, a gente lá nessa nuvem se sente muito sozinho.

Mas como não há mesmo muito a dizer, vou encerrar esse texto logo após os soluços se tornarem sorrisos e as lágrimas irem pro lenço e os olhos fitarem o além, porque a nuvem, ops, a vida tem que ser vivida até que um dia se dissipe num céu de brigadeiro ou vire chuva e chore sobre a terra.

E eu me tornarei poeta enfim.

28 março 2008

Cá Entre Nós

Era uma vez um jovem, ou uma jovem, ou um velho, ou uma criança ou eu ou você que um dia sorriu ao ganhar uma flor ou um chocolate ou um bilhete.
E achou que a vida ou o destino seria assim sempre: sorrisos.
Depois do presente veio o final que não foi feliz.
O primeiro amor, o grande amor, o único amor, ou seja lá quem tenha sido, simplesmente sumiu no ar, na terra ou na chuva.
E o jovem ou a jovem ou o velho ou a criança ou eu ou você ficou lá em pé, no passado, no escuro, no frio.

E deu passos e "evoluiu" e amou novamente ou não, e tentou e chorou e fracassou e venceu e sorriu e gritou e dançou e cantou e as águas do moinho rolaram.
Mas um belo dia olhou para trás e se viu ainda lá parado, com a flor ou o chocolate ou o bilhete na mão, chorando.
Nunca, jamais saiu de lá para lugar algum.
E aquele vulto do que um dia foi ele mesmo, hoje menor ou maior ou igual nunca poderá sair de lá porque o passado se esquece mas não se apaga.

E aquele choro sentido de criança, de velho , de jovem , meu ou seu nunca será consolado porque o grande e único amor sumiu no vento e ninguém mais (nem o tempo) poderia fazer o que esse grande amor não fez.

O passado se esquece mas não se apaga, e vez por outra dolorosamente vislumbra o pobre vulto esquecido dos amores não vividos, ou dos sonhos não-realizados ou dos sonhos simplesmente.

Era uma vez, um desejo...

09 março 2008

20.000.000 de minutos.

Era hora de pôr as roupas, os livros e a escova de dentes na mala e ir embora.
Ele olhou ao redor e teve certeza: era só isso que ele tinha para levar.
Roupas, livros e escova de dentes.
Pensou se precisava mais do que isso pra viver.
Sim, precisava, mas ele sempre viveu sem ter tudo que precisou.
Decidiu que depois providenciaria o que faltava , se fosse possível.

O importante era ir embora já.
Porque já se passaram 14 minutos desde a hora que ele decidiu que devia ir.
14 minutos era um bocado de tempo para se atrasar, pensou ele.
O peso do atraso o desanimou: as coisas não começaram bem, já se atrasou.
O final não começou bem.

O que não começou bem não poderia terminar de outro jeito.
Sentou-se um pouco na cama com a mala no colo.
Decidiu que as roupas não eram necessárias.
Só peso morto e inútil, ele constatou e deixou-as cair pelo chão.
"Já estou vestido e bem vestido".
Bastava.

Lembrou das fotos, das cartas.. quanta bagagem um ser humano tem que levar.
Lembrou ainda de uma pergunta que fizeram a ele quando pequeno:
"Se sua casa estivesse pegando fogo e você pudesse salvar uma única coisa, o que seria?"
Ele não conseguia lembrar o que tinha respondido na época.
Devia ter sido a escova de dentes, pensou dando de ombros.

O fato é que ele sabia que jamais iria embora de todo dali.
Os agora 17 minutos de atraso diziam isso "Você nunca sairá daqui."
Ele odiava ser desafiado e olhou com um sorriso arrogante para o relógio azul na parede.
Olhou pra porta e pensou: "Será agora. Agora cruzarei aquela porta antes que sejam 18 minutos."
Ele não suportaria 18 minutos de atraso, era um número muito forte. Equivalia a 18.000.000 minutos de atraso.
Foi, com a coluna tensa e reta em direção à porta. A mala não estava bem fechada e livros caíram.
Se baixou para apanhar e tic tac: 18 minutos.
"Mas eu vou embora" disse para si mesmo.
Resolveu deixar os livros pelo chão: eles pularam da mala, queriam ficar.
E na mala só ficou a escova de dentes, azul como o relógio e como os olhos de Isabela.

20 minutos. O tempo passa rápido quando temos que ir embora.
Não ousou uma última olhada pelo quarto, mas antes de cruzar a porta, olhou pelo canto dos olhos para o relógio. Ele parara de funcionar. Os ponteiros estáticos.
20 minutos, pensou ele: o tempo que se leva para deixar algo e alguém.
Para deixar tudo.
Não fechou a porta.

Saiu para o céu azul, como a sua solidão.

24 janeiro 2008

Sobre Helena

Olhando bem havia muita beleza em Helena.
Nada que parasse o trânsito nem gerasse propostas para revistas masculinas, mas sim, nela havia harmonia.
Os cabelos eram cor de mel, brilhantes e sedosos, os olhos vivos e com belos cílios a boca rosada e a pele.. perfeita.
Um corpo daqueles que tornavam-na mais jovem do que era, seios firmes e pernas longas, torneadas.
No mais, Helena tinha esse nome forte, muito bem educada, nunca vulgar, de voz macia, melódica. Inteligente, até astuta. Agradabilíssima... simpática, compreensiva, querida pelos amigos, tias distantes, vizinhos e pelas crianças do prédio.
Helena era uma jovem não linda e arrebatadora, mas bonita, agradável e que certos raios de sol favoreciam muito.
Mas Helena não era amada, jamais foi, jamais conseguiu ser.
Suas amigas, as lindas e as feias namoravam, flertavam ,amavam... Helena não.
Certa noite, acordou no meio da madrugada com sede, bebeu água e foi ao banheiro; se olhou no grande espelho na parede e sorriu... como estava linda assim, meio descabelada, com os olhos miúdos de sono... desejou que alguém pudesse vê-la assim.
E foi dormir.
Conheceu um ou dois homens que se interessaram por ela e ela por eles em intervalos de anos...porém outros mais frequentes gostavam dela, mas sempre havia um problema... Helena os olhava com seus melhores olhos e dava as melhores chances, mas ninguém a culpava por não corresponder aos interessados.
Psicóticos, sujos, burros ou superficiais demais, eram esses que gostavam de Helena.
E ela não os queria, não porque fosse exigente, pois fazia força para aceitar o "bizarro".
Mas é porque ela realmente estava muito além de todos eles.

E o tempo passou... mas muito tempo passou MESMO.
E Helena assim, aquela pessoa formidável e não-amada.
Fora isso, viveu uma vida normal, estudou, trabalhou, etc.
E mais tempo passou.

Helena reencontrou na velhice um homem por quem ela se apaixonara quando jovem,mas que sequer olhou para ela na época, preferia outras mulheres de riso fácil e voz aguda demais.
Ele estava meio acabado e eles então viveram juntos durante muito tempo.Ele se chamava Aurélio.

Uma noite Aurélio não chegou do jogo de cartas com o amigo e Helena resolveu não ligar e ir dormir. Acordou altas horas da noite, com Aurélio ao pé da sua cama, com os olhos úmidos e um cheiro acre de cerveja pairando no ar.
Na ponta da cama, uma mala aberta e roupas.

_Helena, vou embora.
_Por quê?
_Marta.
_Ah... (Helena lembrou da viúva de um carteiro amigo deles, uns 15 a 20 anos mais nova que ela e que Aurélio)
_Desculpe, serei honesto com você: você sabe que ela é linda... e nunca achei que ela fosse me dar bola e... bom, não resisti.
Helena sentou-se na cama de costas pra ele. Um longo silêncio e ele achando que ela estava em choque, continuou arrumar a mala.
Ela finalmente falou calma e pausadamente:
_ Você não estava no dia que me vi no espelho do banheiro... me senti feliz por ser tão bonita... e triste por ninguém estar lá para apreciar.
Passou as mãos pelos cabelos brancos e ralos e continuou:
_ Tinha um shampoo que eu sempre usava e.. meu Deus.. meus cabelos cheiravam tanto... mas você não estava lá Aurélio, nem você nem homem nenhum. Meu sorriso iluminava meu rosto, e hoje vejo meus dentes falsos descansando num copo. Sou toda rugas e veias, mas nem sempre foi assim... minhas mãos eram lisas, macias, bem cuidadas e eu não apertava os olhos para ler... Eu era linda e eu queria alguém que pudesse ver e dizer "meu amor, suas mãos são tão macias... que cheiro bom tem seu cabelo.. você é linda quando acorda."
_Onde você estava quando eu era linda, Aurélio? com outras tão lindas? duvido. Você demorou muito, tanto... você chegou numa má hora e olha só que engraçado... no final só eu paguei pela sua demora.

Helena estava já sozinha, Aurélio se fora e ela nem notou em que momento ele partira. Ele esqueceu o par de meias grossas, ela percebeu com amargo sorriso. Suspirou fundo, deitou-se novamente na cama, olhou o teto, sorriu, chorou, fechou os olhos e morreu.

14 janeiro 2008

A Proposta

E ficou combinado que ela não o olharia nos olhos jamais, e esqueceria as juras de amor, esqueceria as toalhas molhadas na cama, esqueceria a cor dos seus cabelos.
E ele lembraria pra sempre de seu perfume e do som da sua voz ao dar "bom dia" logo que acordava, e das mãos macias torcendo os dedos nervosa.
Ficou combinado que ela seria feliz, e ele seria infeliz, ou o contrário,mas ficou combinado que não se veriam mais.
Porque com ele ela chorava mais, ela dormia mais tarde, ela emagrecia. Com ele ela não lembrava de pintar a raiz dos cabelos nem mandava cartões de Natal pros amigos.
Com ele ela roíia as unhas.
Ele iria mais cedo pra academia, ele poderia ver o futebol às quartas, ele poderia jogar a toalha molhada na cama.
Ou no chão.
Ficou decidido que ele iria amar outra, uma loira natural, uma negra, uma ruiva. Ficou combinado, disse ele a si mesmo, e vai dar certo, disse ele a si mesmo e aos amigos, no bar.
Ela aboliu os saltos altos, discutiu com a colega de trabalho, com a mãe, com o sobrinho pequeno, ela chorou, ela cortou os cabelos e resolveu não pintá-los mais, ela rasgou fotos e cartas, mas estava combinado, ela dizia a si mesma e às amigas ao telefone.
O combinado foi que os dois deveriam ser felizes.
Ele a partir dali saiu sorrindo em todas as fotos, ficou mais bronzeado e com os músculos mais firmes. Seguiu o combinado.
Ela a partir dali perdeu um pouco do brilho dos olhos, nunca mais foi loira, e os amigos a acharam mais jovem mesmo assim.
Achou que seguiu o combinado também.
Não se sabe como foi dali pra frente... a vida é um círculo vicioso, a cada dia é um novo acordo, um novo trato: Eu vou ser feliz e você também, ok?
Ok.